Nove hipóteses sobre a (não) saída do Exército dos EUA da Síria

Nazanín Armanian    29.Dic.18    Outros autores

O anúncio feito por Trump de que os EUA iriam retirar todas as suas tropas da Síria vale o que vale. A estratégia dos EUA na região é de aumentar a ingerência e a ocupação militar, não de a reduzir. Este artigo coloca várias interessantes hipóteses de interpretação.

“Uma vez que derrotamos o ISIS na Síria, as tropas voltarão para casa”. Algo como isto disse o presidente Trump em 19 de Dezembro, provocando um terremoto político. Os neocons acusam-no de cometer um erro colossal que pode levar a outro 11-S, de entregar a Síria ao Irão e à Rússia ou de traição dos aliados curdos.

Obviamente, os EUA não derrotaram o ISIS, porque:

1) O “Jihadismo” é uma criatura do Pentágono, Israel e Reino Unido, como foi confirmado pelo ex-funcionário da NSA Edward Snowden ou pelo The New York Times (24 de Março de 2013), que revelou que a CIA havia enviado toneladas de equipamento militar para os rebeldes via países árabes e Turquia;

2) A luta contra o ISIS é travada pela Rússia, o exército sírio, as milícias do Irão e os curdos, não pelos EUA;

3) Pelo menos 2,5 milhões de sírios são ainda reféns dos terroristas em diferentes regiões do país;

4) Milhares de “jihadistas”, depois de cumprir sua missão (que foi demolir o Estado sírio) foram transferidos pela CIA para Arco de Crises na Ásia Central e Oriental para continuar actuando como paramilitares NATO nos países estratégicos. É por isso que Israel já deixou de os armar na Síria.

Algumas hipóteses

Como os EUA nunca retiraram voluntariamente as suas tropas de nenhum país, aqui se adiantam algumas ideias possíveis:

A) Que se trata uma notícia falsa. A “missão cumprida” de Trump na Síria soa à de George W. Bush em 2003, quando anunciou a destruição total do Iraque imperialista e derrubou o seu presidente legítimo Saddam Hussein: 15 anos depois as tropas ainda estão lá. Obama também se gabou em 2011 de matar o demônio Bin Laden (melhor dizendo, o seu fantasma) declarando o fim do Mal, embora em 2014 tenha ressuscitado o terrorismo na Síria, para justificar outra agressão militar contra outro país estratégico. Se é verdade que Trump repatria os seus soldados uma vez “cumprida a missão”, o que fazem eles no Japão ou na Alemanha 74 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial? Por que não desmantela as cerca de 800 bases militares semeadas pelo planeta? Em 5 de Outubro do ano passado, John Bolton, o (ainda) conselheiro de Segurança Donald Trump dizia que a ameaça terrorista na Síria é “mais complexa do que nunca” e que os EUA vão permanecer ali indefinidamente. Quem mente e por quê? Os EUA já possuem umas de 20 bases e instalações militares na Síria. É ingênuo pensar que irão perder de boa-vontade essa conquista na Eurásia. Diz o Fact Checker’s database, um detector de mentiras dos discursos de Trump, que até Novembro de 2018 o presidente havia dito 7. 546 mentiras.

B) Que se trate de uma suspensão temporária, enquanto durar a ofensiva turca na cidade árabe de Manbich na Síria para “libertar” os curdos. Trump, que ordenou a saída da Síria para todos os funcionários do Departamento de Estado no prazo de 24 horas, apoia o ataque enquanto salva os seus soldados de serem apanhados no fogo cruzado (e também uma possível retaliação do Irão se Israel cumpre as suas ameaças e ataca o Líbano). Assim, Trump acaba com a autonomia curda e crise “desnecessário” que o Pentágono provocou com a Turquia utilizando os curdos e, de caminho, lança uma armadilha ao exército sírio, confrontando-o com os turcos para defender a sua terra. Era este o preço que Erdogan tinha colocado sobre a cabeça do príncipe Mohammed Bin Salman (o autor nada intelectual do crime sobre Khashoggi) exigindo também o levantamento das sanções contra o Catar e a expulsão do teólogo opositor Fethullah Gulen, residente nos EUA. Em troca, Erdogan renovaria os seus compromissos com a NATO, pagaria os 3.500 milhões de dólares pelo o sistema de defesa da Patrio, e outros milhões mais pelos F35, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos - que, de acordo com o jornal turco Yenisafak tinham enviado tropas para a região curda da Síria -, deixará de apoiar Rojava e congelará os milhões que ia destinar-lhes. O anúncio do cessar-fogo no Iémen é outra das medidas de Washington para lavar a cara dos sauditas.

C) Uma medida eleitoralista, precisamente antes do Natal, como prenda às famílias dos militares que fazem parte da sua base social e um gesto com impacto depois de perder as eleições parlamentares de Novembro. Integra-se nesta linha o destinar de milhares de milhões de dólares para um absurdo e cruel muro na fronteira com o México.

D) Uma tática de desvio de atenções. Trump enfrenta um ano judicial muito complicado, com várias investigações sobre o Caso Mueller, a Fundação Trump e “Russiagate”. Não é de descartar, por outro lado, que com o mesmo objetivo, recorra a uma guerra como cortina de fumo.

E) Deslocar os projectores para o Irão:
• Após duas décadas de ausência, os EUA voltam a enviar o porta-aviões nuclear John C. Stennis para o Golfo Pérsico, enquanto reforçam a sua presença na base militar que possuem na cidade curda iraquiana de Erbil, na fronteira com o Irão. Por outro lado, é possível que Trump, ao excluir oito países das sanções que impôs sobre o petróleo iraniano, tenha querido demonstrar que o embargo não tem sido eficaz para deter o “terrorismo iraniano” e tenha querido puni-lo militarmente, embora de momento prefira apertar o torniquete económico em torno do pescoço dos iranianos para sejam eles a acabar com a República Islâmica.
• Trump demitiu o secretário da Defesa, o general Mattis, o último defensor do acordo nuclear com o Irão e de relações cordiais com a China, que se opusera a que qualquer primeira viagem ao exterior do presidente fosse à Arábia e a Israel.
• A nomeação de Yossi Cohen como novo diretor de Mossad: ele é um fanático anti-iraniano, perito em operações secretas no exterior.

F) Privatizar as guerras: Outro dos motivos da “renúncia” de Mattis foi a sua insatisfação com Trump por delegar as “missões” militares do Pentágono a empresas privadas, que mancham a imagem dos EUA e procuram apenas maximizar os lucros privados. O Constellis Group (ex-Blackwater) que foi acusado de torturas no Iraque, celebra a sua queda: deste modo 8000 “contratados” substituiriam cerca de 23.000 soldados da NATO no Afeganistão, por exemplo. Além disso, a formação de cerca de 40.000 homens curdo-árabes das Forças Democráticas Sírias (FDS) pelo Pentágono, ou o projeto “NATO árabe” vai no mesmo sentido: os EUA dirigirão as operações militares usando as suas armas avançadas e os seus conselheiros e o dinheiro e a carne para canhão serão colocados por outros.

G) Entregar a direção da guerra síria à NATO: Turquia e França retirarão uma carga de cima dos Estados Unidos, e ao permanecerem atolados neste conflito deixarão de ser contestatário face a Trump. Além disso, assim os EUA repartirão com os aliados o ódio sentido pelos povos da região contra o país que só nas últimas duas décadas destruiu a vida de quase 100 milhões de pessoas.

H) Fazer de Madman, provocando caos e nervosismo na Síria para que o exército dos EUA venha a ser convidado a ocupar “legalmente” o país, a mesma tática usada por Obama em 2009 retirando parte das suas tropas ilegais do Iraque para em seguida enviar mais 3.000 soldados a pedido do primeiro-ministro Nuri al Maliki. Assim, além de agradecer, pagam a manutenção dos ocupantes. Trump mostra deste modo o seu descontentamento para com Israel por ter contratado duas empresas chinesas que administrarão os portos de Haifa e Ashdod (como parte da Nova Rota da Seda), em vez de acolher a Marinha dos EUA.

I) Que a Arábia Saudita e o Qatar, afetados pela queda dos preços do petróleo, não podem continuar a financiar as tropas na Síria, que não tenham cumpriram o “encargo” de acabar com Assad e expulsar o Irão.

***

A guerra contra o terrorismo é uma patranha a que o complexo industrial-militar não vai renunciar. A ameaça contra os EUA e seus aliados é zero, enquanto o imperialismo precisa de recursos naturais e mais mercados: a batalha pelos últimos barris de petróleo está apenas a começar. Como a decisão de Trump é mais pessoal do que uma nova estratégia dos EUA, ela pode ser corrigida, matizada ou revogada.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/5376/nueve-hipotesis-sobre-la-no-salida-del-ejercito-de-eeuu-de-siria/

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