Nuvens negras sobre as obras pias da Fundação Gates

O rentável negócio do mecenato de Bill Gates não passa disso mesmo: um investimento lucrativo. Mónica Harrington, uma alta executiva da fundação, afirmou que os responsáveis pelos investimentos têm como objectivo os “lucros que permitirão a continuidade dos programas financiados pela fundação”. Bill e Melinda Gates exigem aos directores que mantenham uma carteira de investimentos muito diversificada, sem qualquer preocupação com o meio ambiente ou com o preço dos remédios nos países pobres.

Justice Eta, de 14 meses, estende o seu dedito polegar. Uma gota de tinta certifica que foi imunizada contra poliomielite e o sarampo, graças a uma campanha de vacinação apoiada pela Fundação Bill e Melinda Gates.

Mas a poliomielite não é a única ameaça que se abate sobre Justice. Tem, quase desde que nasceu, problemas respiratórios. Os vizinhos chamam-lhe “a tosse”. As pessoas lançam as culpas ao fumo e à fuligem lançadas pelas chamas da refinaria próxima, a 300 pés de altura. É do gigante italiano do petróleo, Eni, de que são investidores Bill e Melinda Gates.

Justice contorcia-se nos braços da mãe. Tinha a testa cheia de gotículas de suor provocadas pela doença ou pelo calor das chamas que iluminam Ebocha dia e noite. Ebocha significa “cidade de luzes”.

A clínica provisória situada numa igreja, onde Justice se vacinou, e as labaredas que flamejam sobre Ebocha representam um conflito frontal para a Fundação Gates. De acordo com uma investigação do [Los Angeles] Times, em contradição com as suas subvenções e doações, a fundação colhe, todos os anos, vultuosos lucros dos investimentos provenientes das suas obras pias.

O dr. Elekwachi Okey, um médico local, afirma que em Ebocha as centenas de labaredas das refinarias petrolíferas do delta do Níger causaram uma epidemia de bronquite entre os adultos e asma e visão nebulosa entre as crianças. Os efeitos sobre a saúde não foram comprovados por estudos definitivos, mas muitos dos 250 produtos tóxicos das labaredas e da fuligem estão há muito tempo ligados a doenças respiratórias e ao cancro. “Aqui todos somos fumadores”, diz Okey, “mas não de cigarros”.

Para as refinarias que rodeiam Ebocha, é mais barato queimar cerca de mil milhões de pé cúbicos de gás por dia e contribuir para o aquecimento do planeta que vendê-lo. Negam que as labaredas provoquem doenças. No entanto, devido a pressão de activistas, o Supremo Tribunal da Nigéria estabeleceu que Março de 2007 era o prazo limite para acabar com isto. Os gases terão de ser reinjectados debaixo da terra ou terão de ser transportados por camião ou oleoduto para venda. Apesar disso, as autoridades sabem que as labaredas continuarão a arder por muitos mais anos.

A Fundação Gates deu 218 milhões de dólares para a imunização e a investigação da poliomielite e sarampo em todo o mundo, incluindo o delta do Níger. Segundo descobriu The Times, ao mesmo tempo que a fundação financia vacinas para proteger a saúde, investiu 423 milhões de dólares na Eni, Royal Dutch Shell, Exxon Móbil Corp., Chevron Corp. e Total, as companhias responsáveis pela maioria das labaredas que estão a contaminar o delta, muito para além do que é permitido nos Estados Unidos ou na Europa.

Mais, os dirigentes locais acusam a exploração petrolífera de propagar algumas das doenças que a fundação combate.

Por exemplo, os trabalhadores de petróleo e os soldados que os protegem são um íman de prostitutas, o que contribui para o aumento do SIDA e das gravidezes de adolescentes, ambos objecto dos esforços da Fundação Gates para aliviar os males da sociedade, particularmente dos mais pobres. O petróleo abre buracos que se enchem de água estagnada, meio ideal para os mosquitos que propagam a malária, uma das doenças contra a qual luta a fundação.

Os investigadores do Dr Nonyenim Solomon Enyidah, organismo encarregue da saúde do Estado de Rivers, onde está situado Ebocha, referem o despejo de petróleo para os rios como causa de cólera, outra praga que a fundação combate. Os rios, afirma Enyidah “converteram-se no caldo de cultura de todo o tipo de enfermidades que se transmitem através da água”.

As luminosas labaredas de gás cheia de fuligem – que contém subprodutos tóxicos como benzeno, mercúrio e cromo – diminuem a imunidade, diz Enyidah, e provocam às crianças mais sensíveis como Justice Eta, poliomielite e sarampo.

Investir pelo lucro

Em finais de 2005, as doações da Fundação Gates chegaram a 35.000 milhões de dólares, o que a tornaram na maior fundação mundial. Em Junho de 2006, Warren E. Buffett, a segunda pessoa mais rica do mundo depois de Bill Gates, prometeu juntar 31.000 milhões de dólares da sua fortuna pessoal. Isto, sem contar com as dezenas de milhar de milhões de dólares que o próprio Gates prometeu, o que perfaz um total maior que o Produto Nacional Bruto de 70% das nações do mundo.

Como a maioria dos filantropos, a Fundação Gates dá pelo menos 5% do seu valor anual, como forma de evitar pagar mais impostos. Em 2005, concedeu cerca de 1.400.000 milhões de dólares. Concede subvenções, principalmente para apoiar iniciativas sanitárias globais, campanhas para melhorar a educação pública nos Estados Unidos e para programas de ajuda social no nordeste do Pacífico.

Investe os restantes 95% do seu valor. Este legado é gerido por Bill Gates Investments, que gere a fortuna pessoal de Gates. Mónica Harrington, uma alta executiva da fundação, afirmou que os directores de investimentos têm um objectivo: lucros “que permitirão a continuidade dos programas financiados pela fundação e fazer novas doações”. Bill e Melinda Gates exigem aos directores que mantenham uma carteira de investimentos muito diversificada, mas não traçam directrizes específicas.

Comparando estes investimentos com a informação procedente de serviços comerciais que analisam o comportamento empresarial dos fundos de investimento imobiliários, directores de pensões, agências governamentais e outras fundações, The Times descobriu que a Fundação Gates tem participações em muitas companhias que não cumprem a sua responsabilidades sociais, por falhas no respeito pelo meio ambiente, discriminação laboral, desprezo pelos direitos dos trabalhadores ou práticas não éticas.

Um destes serviços de classificação de investimentos, Calvert Group Lt., por exemplo, certifica 52 das maiores empresas estadunidenses que investem na capitalização de mercados, mas reprova as outras 48 por transgressões contra a responsabilidade social. A Microsoft Corp., empresa de Bill Gates e de que é presidente, está altamente considerada pela generalidade das suas práticas comerciais, apesar do seu largo historial de problemas antitrust.

Além disso, The Times descobriu que o legado de Bill Gates tem importantes participações em:
- Empresas que estão consideradas como as mais contaminantes do Canadá e Estados Unidos, incluindo ConococoPhillips, Doe Chemical Co. E Tico International Ltd.;
- Muitas das empresas mais contaminantes do mundo, incluindo uma refinaria de petróleo e outra que tem uma fábrica de papel, que um estudo demonstra provocar doenças em crianças, enquanto a fundação procura salvar os seus pais do SIDA;
- Empresas farmacêuticas que vendem os seus medicamentos a preços que estão completamente fora das possibilidades dos doentes com SIDA, que a fundação tenta tratar.

Utilizando os mais recentes dados disponíveis, uma reportagem do The Times demonstrou que centenas de investimentos da Fundação Gates – pelo menos um total de 8.700 milhões de dólares ou 41% dos seus activos, sem incluir títulos do Estado dos EUA e estrangeiros – foram feitos em empresas que contradizem os objectivos caritativos ou a filosofia de preocupação social da fundação.

Este é o “segredo vergonhoso” da imensa maioria dos filantropos, afirmou Paul Hawken, um perito em investimentos sociais que dirige o Natural Capital Institute, um grupo de investigação dos investimentos. As “fundações doam a grupos que se dedicam a prever o futuro, disse Hawken numa entrevista, “mas os seus investimentos roubam esse mesmo futuro”.

Mas o mais prejudicial não é investirem em empresas destruidoras e não éticas, afirmara Hawken e outros peritos, incluindo Douglas Bauer, vice-presidente da Rockfeller Philantropy Advisors, um grupo sem fins lucrativos que assessoria as fundações sobre questões políticas e éticas. O pior, dizem, é investir somente pelo lucro, sem qualquer preocupação de melhorar os métodos de trabalho das empresas.

Esta forma cega de investir, sublinham, compensa o mau comportamento.

Na fundação, o investimento cego é imposto pela existência de uma barreira intransponível entre o sector das doações e o dos investimentos. Não se permite que os objectivos das primeiras interfiram nos investimentos dos segundos.

A Fundação Gates anunciou recentemente um plano para institucionalizar esta barreira, mudando os seus activos para organizações separadas, o Trust Fudation Bill e Melinda Gates. “Estivemos a trabalhar assim durante muitos anos”, declarou Harrington, “ mas a promoção da separação deixa as coisas mais claras”.

Com excepção das companhias de tabaco, os gerentes dos activos não impedem investimentos em companhias cujas actividades são contraditórias com a missão beneficente da fundação.

“Como queremos centrarmo-nos no trabalho programático”, acrescentou Harrington numa resposta escrita a perguntas de The Times, “temos como política não comentar as carteiras de investimento”.

Finalmente, a fundação não investe as doações especificamente em companhias que fomentam a sua missão filantrópica.

No entanto, grande parte da filantropia começa a apresentar uma contradição entre as doações para melhorar o mundo e os investimentos que o degradam. De acordo com estudos recentes, muitas fundações, inclusive algumas das maiores do país, adoptaram políticas básicas para investir em formas que apoiem a sua filantropia.

Entre as grandes fundações que consideram essenciais a justiça social e a defesa do meio ambiente estão a Fundação Ford, com um valor de 11.600 milhões de dólares, a segunda organização filantrópica privada do país, a Fundação John D. and Catherine T. MacArtur, a Fundação Rockfeller e a Charles Stewart Mott.

Além de que, quase um terço da fundações participa directamente em acções de accionistas junto dos direcções das empresas com vista a melhorar o seu comportamento. Nos últimos anos, por exemplo, a Nathan Cummings Fundation, com 481 milhões de dólares de capital, tem exercido pressão sobre as empresas em defesa do meio ambiente e da transparência política.

Harrigton disse que os directores de investimentos da Fundação Gates votam as administrações das empresas mas recusou-se a dar qualquer informação específica. A fundação não autorizou o administrador responsável pelos investimentos, Michael Larson, a dar-nos qualquer entrevista. Em Maio, Harrington contou ao Chronicle of Philantropy que a Fundação Gates não se envolvia em questões das administrações.

Por outro lado, na Fundação Charles Stewart Mott, o director de investimentos, Michael Smith, disse que votar administrações para melhorar o comportamento das empresas se converteu numa necessidade financeira. E acrescentou que “as companhias com boas direcções estão na generalidade bem dirigidas e têm uma boa taxa de lucro”.

Até a relativamente pequena Needmor Fund, com um capital de 27 milhões de dólares, exclui dos seus investimentos as empresas com práticas ofensivas do meio ambiente, não reconhecimento dos direitos laborais ou tolerantes com governos repressivos.

A Fundação Gates tem o caminho aberto. Se Gates efectuasse os seus investimentos de acordo com a sua missão, disse Bauer numa entrevista, a deslocação no mundo da filantropia seria “sísmica”.

A fundação não respondeu às perguntas escritas sobre se ia mudar a sua política de investimentos.

A vida no “Vale do Cancro”

Na clínica de Isipingo, um subúrbio da cidade portuária de Durban, na África do Sul, onde a taxa de infecção com HIV ascende a 40%, Thembeka Dube tinha uma consulta de manutenção.

Dube tinha-se oferecido como voluntária para testes de um gel vaginal que os investigadores esperavam protegê-la contra o HIV. Os testes faziam parte de um estudo dirigido pelo Population Council de Nova Iorque, financiado com 20 milhões de dólares da Fundação Bill e Melinda Gates.

O noivo de Dube não quer usar protecção. Espera que os testes demonstrem que o gel microbicida, Carraguard, seja eficaz e deixe de ter preocupações com o SIDA.

A investigação de profiláticos, como Carraguar, pode combater o SIDA, dando poderes às mulheres, disse Bill Gates na Conferência Internacional do SIDA, realizada em Agosto passado em Toronto. “A mulher, seja ela mãe de filhos, normalmente casada, ou uma trabalhadora de sexo que tenta ganhar a vida num bairro marginal”, disse, “nunca deveria necessitar de autorização do seu parceiro para proteger a sua vida”.

Dois dias antes da alocução de Gates nasceu Kyrone Smith a alguns km da clínica de Isipingo. Ao mesmo tempo que a Fundação Gates tenta ajudar Dube, possui parte das companhias que prejudicam Kyrone.

Às seis semanas começou a ter problemas nos pulmões. Kyrone queria chorar, mas estava tão débil que não emitia som algum, apenas uma respiração rouca e cansada.

A sua mãe, Renée Smith, de 26 anos, apressou-se a levá-la ao hospital, onde lhe aplicaram oxigénio. Temia que aquela fosse a primeira de muitas visitas ao hospital. Sabia-o por experiência.

“O meu filho Teiago, entra e sai permanentemente do hospital desde os 3 anos”. Não conseguia respirar bem… Há muitas crianças nesta zona que têm os mesmos problemas”.

Dois dos principais contaminadores da região, a celulose Mondi e a gigantesca refinaria Sapref, que invadem os arredores de isipingo, como dragões adormecidos exalando vapores químicos noite e dia.

A Sapref, que desde 1998 já teve duas dezenas de derrames, incêndios, roturas de oleodutos e explosões, em conjunto com a celulose Mondi, lançam anualmente na atmosfera milhares de toneladas de produtos químicos fétidos e pútridos, mesmo de acordo com os sus próprios dados.

Em 2002, um estudo descobriu que mais de metade das crianças de uma escola perto de Merebank sofria de asma, uma das taxas mais altas da bibliografia científica. Um segundo estudo, publicado o ano passado, encontrou graves problemas respiratórios na região: mais de metade das crianças de 2 a 5 anos sofrem de asma, provocada, principalmente, pelo dióxido de enxofre e outros contaminantes industriais. Em grande parte produzidos por empresas com investimentos da Fundação Gates.

A asma não é o único perigo. Isipingo enquadra-se naquilo a que os ambientalistas chamam “Vale do Cancro”. As emissões de Benzeno, dioxinas e outros cancerígenos estavam “entre os níveis mais elevados encontrados em qualquer lugar do mundo”, disse Stuart Batterman na Universidade de Michigan, co-autor de ambos os estudos.

A Fundação Gates é um dos principais accionistas das companhias proprietários de ambas as instalações fabris contaminantes. Em Setembro possuía 295 milhões de dólares de acções da BP, co-proprietária da Sapref. Em 2005 possuía 35 milhões de dólares de acções da Royal Dutch Shell a outra proprietária da Sapref. A fundação tinha ainda 39 milhões de dólares investidos na Anglo American, proprietária da celulose Mondi.

Pelo menos desde 2002, a fundação efectuou grandes investimentos nas três empresas. Desde então, o valor das acções da BP disparou cerca de 83%, as da Shell uns 77% e a Anglo American 225%. Os dividendos incrementaram os activos em muitos milhões.

A fundação já obteve muito mais lucros com os seus investimentos nas empresas contaminadoras do que as quantias doadas ao estudo microbicida de Durban para combater o SIDA.

A Sapref disse que, desde 1997, tinha reduzido em dois terços as emissões de dióxido de enxofre e gasto mais de 64 milhões de dólares em iniciativas no meio ambiente, ao longo de 11 anos. Disse que, de há um ano a esta parte, reduziram o chumbo na gasolina e dióxido de enxofre do seu gasóleo. Funcionários da refinaria disseram que a “Sapref não admite nenhuma responsabilidade por qualquer questão de saúde pública em Durban do Sul”.

Mondi disse que a sua celulose Merenbak, em 2005, tinha reduzido a “procura de oxigénio químico” um grave contaminante e que estava reduzindo as suas emissões de dióxido de enxofre. Mas, segundo os seus próprios cálculos, a celulose liberta três vezes mais a quantidade conjunta de dióxido de enxofre produzido pelas instalações de outras unidades Mondi em 5 outros países, e estas unidades têm quase seis vezes mais capacidade produtiva. Merenank utiliza carvão, enquanto as outras queimam um combustível mais limpo.

Tal como os investimentos da Fundação Gates, na Mondi, BP e Shell têm sido muito rentáveis, também o têm sido os investimentos feitos noutros 100 contaminadores dos EUA, segundo a Universidade de Massachussets, e os principais 50 contaminadores, de acordo aom a publicação comercial Corporate

Segundo os dados da fundação de 2005, esta possuía 1.400 milhões de dólares em activos nestas empresas em 1969. Incluíam empresas tão notórias como a Chevron Corp. e a Ford Motor Co., bem como outras menos conhecidas como a Lyondell Chemical Co e Ameren Co..

O total combinado de investimentos da fundação ascende a 3.300 milhões de dólares.

A Fundação Gates não responde às perguntas apresentadas por escrito sobre os seus investimentos em companhias altamente contaminantes ou pouco preocupadas com o meio ambiente.

Medicamentos inexequíveis

Quase todas as manhãs, um soldado reformado de 56 anos chamado Félix percorre o curto trajecto entre a sua casa e uma fábrica situada nos arredores de Lagos, Nigéria, para adquirir um bloco de gelo por 40 cêntimos.

Félix tem uma razão poderosa para comprar o gelo: tem de evitar que o seu remédio se estrague.

Há dois anos a sua mulher morreu com SIDA e ele soube que era seropositivo. Disse-o aos seus seis filhos, agora com idades entre os 16 e os 24 anos, mas a mais ninguém. Temia o estigma do HIV. Aceitou a entrevista na condição de apenas ser identificado pelo nome próprio. ”Pensei que, para mim, o mundo tinha acabado”, disse-nos. “Toda a gente acredita que uma vez infectado, é um fantasma vivo”.

Tomou retrovirais e sentiu-se melhor. Mas teve que interromper frequentemente o tratamento por não poder suportar o seu custo: 62 dólares por mês. A sua pensão de ex sargento é de 115 dólares e o dinheiro chega esporadicamente.

Pior ainda: o seu organismo deixou rapidamente de reagir aos medicamentos. Os rins começaram a falhar e a sua carga imunológica para se proteger das infecções diminuiu.

Em Maio, Félix começou a tomar Kaletra, um medicamento necessário quando o primeiro tratamento deixa de fazer efeito.

A saúde recuperou, mas a um custo muito alto.

As cápsulas de gel Kaletra derretem no sufocante clima da Nigéria, onde as temperaturas costumam atingir os 100 graus Fahrenheit. Félix guardava o Kaletra numa caixa com gelo.

Diariamente, tinha de ir buscar mais gelo. E, todos os dias, tinha de tomar Kaletra: às 10 da manhã e às 10 da noite. Tinha dificuldade em trabalhar, mesmo em trabalhos esporádicos.

A nova versão de Kaletra não necessita de refrigeração. Mas o seu médico, dr. T.M.Balogun, que colabora no programa do SIDA do Hospital da Universidade Estatal de Lagos, disse-lhe para não desesperar.

O hospital é ajudado pelo governo nigeriano, que recebe dinheiro do Fundo Global de Luta contra o SIDA, a tuberculose e a malária. A Fundação Gates atribuiu-lhe 651 milhões de dólares. Mas o hospital não oferece o novo Kaletra. É demasiado caro.

Em Agosto, farmacêuticos privados disseram-lhe que podiam vender-lo por 265 dólares por mês. Mas esse é um preço fora das possibilidades de Félix.

Kaletra é um remédio dos laboratórios Abbott. Desde Setembro que a Fundação possuía 169 milhões de dólares de acções de Abbott. Em 2005 a fundação possuía quase 1.500 milhões de dólares em companhias farmacêuticas, com comportamentos que foram duramente criticados por restringirem o fluxo de remédios para os pobres dos países em vias de desenvolvimento.

Em termos médios, as acções destas empresas valorizaram-se cerca de 54% desde 2002. Os investimentos na Abbott e noutros fabricantes de medicamentos distribuíram à fundação centenas de milhões de dólares em dividendos.

Os fabricantes de medicamentos dizem que precisam de proteger os preços para a investigação e o desenvolvimento. “As nossas necessidades e sistemas globais estão em conflito”, escreveu o ano passado, no Finantial Times, Miles White, administrador executivo da Abbott. “Isto ameaça um objectivo, a inovação, em nome de outro, o direito ao medicamento”.

No entanto, em 1994, os fabricantes de medicamentos juntamente com outros negócios de investigação intensiva, defenderam fortemente e com êxito o Acordo Internacional sobre os aspectos comerciais dos direitos de propriedade industrial, o que dificultava a passagem das marcas mais caras aos genéricos baratos. O acordo protegia os novos monopólios farmacêuticos durante 20 anos ou mais.

Isto quer dizer que não existiriam genéricos baratos de Kaletra. O pacto concluiu que a Abbott era o único fornecedor de Kaletra e, como tal, a Abbott estabelecia o preço para todo o mundo.

Face à pressão de activistas, a Abbott e outras companhias reduziram os preços dos medicamentos principais contra o SIDA nos países pobres. Na Guatemala e na Tailândia o novo Kaletra custa 2.200 dólares/ano por paciente, mais impostos e outros emolumentos, uma fracção dos mais de 8.500 dólares que custa nos EUA. Na Nigéria, mais pobre, o preço oficial é de 500 dólares por ano.

Mas mesmo isto é demasiado caro para a maioria dos doeentes, incluindo Félix.

A abordagem da indústria “tem como efeito que os medicamentos só sejam acessíveis a um estreito espectro, a elite rica dos países em desenvolvimento”, disse Brook Baker, perito em propriedade industrial da Universidade de Northeastern.

Denominou a situação de “apartheid farmacêutico”.

As farmacêuticas dizem que os seus críticos passam por cima do facto delas doarem milhares de milhões de dólares em medicamentos aos países em desenvolvimento. A Abbott disse que doou medicamentos para o SIDA a 25.000 doentes, juntamente com milhões de amostras farmacêuticas, e que subscreveu um grande projecto para melhorar os serviços do SIDA na Tanzânia.

Os críticos reconhecem os medicamentos doados para casos de emergência. O problema, dizem, é que as doações afastam os fornecedores de genéricos. As doacções, diz Ellen’t Hoen, que dirige um programa de acesso para Médicos sem Fronteiras, “eliminam a perspectiva de qualquer fornecimento estável”. E quando acabam os fornecimentos gratuitos os doentes morrem.

A maioria dos medicamentos é muito rentável. No último trimestre, a Abbott teve uma margem de lucro bruto de 59% das vendas e recentemente pagou o seu 331º dividendo trimestral consecutivo. Uma análise do Congresso mostra que durante os primeiros seis meses de 2006, as 10 principais farmacêuticas obtiveram 39.800 milhões de dólares de lucros.

A principal prioridade da Fundação Gates é travar o SIDA, disse Bill Gates na Conferência Internacional de Agosto passado. Desde o seu início, a fundação doou mais de 2.000 milhões de dólares para combater a doença.

A fundação não respondeu às perguntas apresentadas por escrito, sobre os problemas dos doentes que não podem adquirir os medicamentos necessários para o combate ao SIDA, devido à política das empresas farmacêuticas.

Entretanto, a fundação tem muito mais apreço pelos destinatários das suas subvenções que pelas empresas donde tira os seus recursos. O impresso de subvenção diz esperar que os destinatários “exerçam os seus direitos de propriedade intelectual de forma consequente com os objectivos da Bill & Melinda Gates Foundation”, a fim de “fomentar… a disponibilidade dos inventos para o lucro a um custo razoável nos países em via de desenvolvimento”.

Alguns críticos dizem que o fracasso da fundação na utilização dos seus próprios investimentos para “fomentar… a disponibilidade dos inventos para o lucro a um custo razoável nos países em via de desenvolvimento” pode encontrar-se na origem da maior parte do seu dinheiro – a Microsoft –, cuja presidência é de Bill Gates.

Os monopólios da Microsoft nos sistemas operativos de computador e o negócio de programas dependem da mesma atitude em relação à propriedade intelectual e à lei comercial que defende as farmacêuticas.

“A Fundação Gates está em condições de mudar esta dinâmica, garantindo que os medicamentos sejam enviados primeiro para os países onde fazem mais falta”, disse Daniel Berman, subdirector de Médicos sem Fronteiras do Sul. “Mas isso entra em conflito com os interesses da Microsoft”.

Em resposta às perguntas por escrito, Harrington, responsável pela política da Fundação Gates, disse que esta tentava garantir que as descobertas feitas em associação com companhias lucrativas beneficiassem, pouco a pouco, as pessoas dos países em desenvolvimento.

“O objectivo da fundação é contribuir para assegurar que os novos conhecimentos científicos sejam amplamente partilhados… e que os avanços no campo da saúde para salvar vidas se criem, sejam postos à disposição e sejam acessíveis para aqueles que mais necessitam deles, e Harrington acrescentou: mas reconhecemos que a indústria privada necessita dos adequados incentivos para desenvolver novos medicamentos”.

Os investimentos da fundação em empresas farmacêuticas, disse Harrington, “estão totalmente separados do que se tem feito programaticamente para estimular o desenvolvimento e a distribuição de medicamentos/vacinas”.

*Sanders fez a reportagem da Nigéria, Dixon da South Africa e Piller em San Francisco. O redactor do Los Angeles Times, Doug Smith, a analista de dados Sandra Poindexter e os repórteres de investigação Maloy Moore e Robin Mayper contribuíram para este trabalho.

Para mais detalhes ver: latimnes.com/gates
Original em:
http://www.latimes.com/news/nationworld/nation/la-na-gatesx07jan07,0,6827615.story

Tradução de José Paulo Gascão

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