O Acordo Abraham e a perigosa entrada de Israel no Golfo Pérsico em 27 notas

Nazanín Armanian    26.Ago.20    Outros autores

O Acordo entre Israel e os Emirados Árabes Unidos, patrocinado por Trump, é vantajoso para os sionistas, para a monarquia reaccionária dos EAU, de algum modo para Trump. Perdem o povo palestiniano e os povos do Médio Oriente no seu conjunto: «este tipo de “paz” injusta com um regime como o israelita significa apenas mais guerras contra outros milhões de pessoas indefesas».

Enquanto bombardeava a Síria e Gaza, e poucos dias após o misterioso incêndio do porto do Líbano e um mês após os discretos ataques a vários centros estratégicos do Irão, Israel anuncia com grande alarde a assinatura do Acordo Abraham com os Emirados Árabes Unidos (EAU), com o qual é oficialmente reconhecido pelo primeiro estado localizado no Golfo Pérsico. Será o terceiro regime árabe - depois do Egipto (1977) e Jordânia (1994) - que estabelece relações oficiais com o país que há 72 anos foi estabelecido em terras palestinas.
1. O facto considerado “histórico”, e vendido como “o triunfo da diplomacia por ter travado a anexação da Cisjordânia a Israel”, não foi uma decisão tomada nos parlamentos dos signatários, mas sim um acordo opaco entre uns homens corruptos de extrema-direita: Donald Trump, seu genro Jared Kushner, Benjamin Netanyahu, o príncipe herdeiro do Reino da Arábia Saudita (RAS) Mohammed bin Salman (MbS) e o presidente dos Emirados, Mohammed bin Zayed (MbZ).
Em que consiste o acordo?
2. É falso que os EAU se tenham sacrificado com este pacto para que Netanyahu abandonasse o plano de anexar grande parte da Cisjordânia que anunciou em julho, porque:
3. Israel nunca parou de ocupar mais terras palestinas, nem o fará. Na verdade, o próprio Netanyahu garantiu que se trata apenas de uma suspensão temporária do projecto, que actua como uma espada de Dâmocles pendurada sobre o pescoço dos países “muçulmanos” para os colocar ainda mais de joelhos. O objectivo de Israel foi e é impossibilitar um Estado palestino e forçar seu povo a assimilar com um sorriso a sua submissão a um sistema de Apartheid.
4. No momento em que todas as potências mundiais, excepto os EUA, se opuseram a este projecto, tal como o seu parceiro de governo Benny Gantz e os sionistas liberais - que priorizam a resolução do conflito com a Palestina a fim de garantir a segurança de Israel - o velho político judeu percebeu que levar a cabo o projecto seria um grave erro estratégico. Pelo que tirou esta carta da manga, tapando um escândalo com outro, disfarçando-o em papel rosa, para sair de uma situação embaraçosa: Quem mais pode, com uma única ameaça e sem dar nada em troca (nem mesmo a paralisação de novos assentamentos), obter tanto e até mesmo passar de “corrupto e incompetente” diante de seu próprio povo a “herói”?

O que obtém Israel

3 - Entrar no Golfo Pérsico e estabelecer-se a poucos quilómetros do Irão, país que já está cercado por bases militares dos EUA e da NATO por todos os lados. De facto, todos os contactos oficiais prévios ao acordo entre os dois estados desde 1996 giraram em torno de como conter a República Islâmica do Irão (IRI). A teocracia xiita, num erro gravíssimo, apenas nascida em 1978 declarou guerra religiosa contra Israel, os Estados Unidos e também os regimes sunitas, tanto as repúblicas (como o Iraque de Saddam Hussein ou a Líbia de Khadafi) como as monarquias, colocando os iranianos e a integridade territorial do Irão em sério perigo ante o poder esmagador dos EUA e seus parceiros, que impiedosamente varreram vários estados do mapa.
4. Criar uma aliança militar conjunta contra o inimigo iraniano, agora que a prioridade da política externa dos EUA - independentemente de quem seja seu presidente - é a China, não a IRI. Desde 2016, as forças aéreas de ambos os países participam de exercícios militares da NATO.
5. Um imenso mercado de armas. Israel receberá uma boa parte do orçamento anual de defesa dos Emirados Árabes Unidos, uns US $ 23.000 milhões. A empresa Group 42 dos Emirados Árabes Unidos associou-se com a Israeli Aerospace Industries e Rafael Advanced Defense Systems, para adquirir drones, dispositivos de reconhecimento facial (AnyVision), vigilância cibernética e até mesmo o sistema antimísseis Iron Dome, que após o misterioso ataque contra as instalações de petrolíferas sauditas da Aramco, encontrou mercado nesta zona. Israel, aliás, rouba este cliente dos Estados Unidos, que em 2019 assinou um contrato de armamento de 5,5 mil milhões de dólares, que inclui o sistema de mísseis Patriot. Agora, embora os EUA possam vender armas avançadas a este país árabe, incluindo os “proibidos” F35s recebendo dele milhares de milhões de dólares, nunca lhe darão os seus códigos para que possam usá-las de forma independente: Israel terá sempre superioridade militar.
6. A possibilidade de assumir o controlo do Comando Central dos EUA no Golfo Pérsico, pelo que não só o Irão, mas nenhum Estado estará a salvo da chantagem israelita que vê o mundo apenas pela perspectiva dos seus próprios e mesquinhos interesses.
7. Poder infiltrar-se nos serviços de inteligência e na inteligência militar dos Emirados, para o tomar como refém. Os regimes do Iraque, Síria e Líbia, por exemplo, não poderiam ter sido desmantelados dessa forma se não fosse, em parte, porque os EUA os obrigaram a cooperar na suposta luta contra o terror, acedendo aos seus serviços de segurança nacional.
8. Mudar o alinhamento geopolítico da área: os países árabes, como RAS e Emirados Árabes Unidos, passaram da união contra Israel a unir-se com ele contra o Irão. Mike Pompeo disse que este acordo será um “pesadelo” para o Irão.
9. Isolar ainda mais o Irão, precisamente quando este estava a melhorar as suas relações com as monarquias do Golfo Pérsico. Não importa que a IRI tenha cessado de lançar o slogan “morte de Israel” (e os seus líderes querem que esta mudança seja conhecida no Ocidente), tenha suspendido a proibição aos atletas iranianos de competir com israelitas e tenha autorizado o Hezbollah a ter contacto com Tel Aviv, que é um reconhecimento indirecto daquele estado.
10. Converter os Emirados Árabes Unidos num parceiro e cúmplice das suas agressões militares a outras nações. Pois, o minúsculo país tem exércitos privados na Síria, Iémen e Líbia. Além disso, é o único país árabe com tácticas e estratégias claras e o mais bem organizado na sua política expansionista.
11. Obter uma fonte segura de petróleo. Israel importa cerca de 240.000 barris por dia, e os Emirados Árabes Unidos possuem imensas reservas, 6% das reservas mundiais: até a década de 1950, vivia do cultivo de tâmaras, da pesca e da colheita de pérolas por mergulho.
12. Enterrar a Iniciativa de Paz Árabe de 2002 que condicionava a normalização das relações com Israel à desocupação das terras palestinas.
13. Afasta dos palestinos outro poderoso e rico país árabe
14 Receberá investimentos milionários dos xeques, sangue injectado na economia israelita aflita pela crise económica. Os Emirados Árabes Unidos são a segunda maior economia árabe, depois da RAS.

E que alcançam os Emirados Árabes Unidos?

15. Enquanto a festa pelo acordo em Israel era pública, em Abu Dhabi havia silêncio, não por estarem envergonhados, mas pelo medo de provocar mais protestos nos países “muçulmanos”, apesar de o ter vendido como um acordo para “salvar os palestinos da anexação.” Ainda assim, o xeque Zayed pode:
16. Apresentar-se como o líder da diplomacia na região, apesar das bombas que continua a lançar sobre “as nações muçulmanas” do Iémen e da Líbia. Vê-se que isso do “choque de civilizações” nada mais era do que um alibi da extrema-direita do Ocidente e do Oriente, no seu ataque aos direitos dos cidadãos, também em ambos os lados.
17. Apresentar o seu “modelo” de país muçulmano, agora que as versões iraniana, turca e saudita fracassaram. Tudo bem, as mulheres (estrangeiras) podem ir às praias de biquíni, mas a dissidência é castigada com tortura e desaparecimentos, tal como em todo o Médio Oriente.
18. Proteger-se das exigências de democratização do país por parte da sua própria população, tendo um “parente próximo” como Israel; a família real pensa que seria uma apólice de seguro. As ditaduras na região deram-se conta que a ameaça ao seu poder e privilégio vem mais de dentro do que de fora (Irão, 2009; as verdadeiras “primaveras árabes” de 2011). Os slogans contra Israel, lançados dos países árabes, Turquia e Irão, são uma simples distração para tais regimes de direita e corruptos, acusando os seus cidadãos críticos de estarem ao serviço de um regime nada apresentável como Israel.
19. Marcar um gol ao RAS em Washington, onde os sauditas perderam peso mesmo entre os republicanos. MBS não pode reconhecer Israel enquanto viver o seu pai, o rei Salman, muito anti-israelita, que chegou a apontar o Mossad como o autor dos ataques de 11 de Setembro.
20. Receberá não só tecnologia mas muitos turistas israelitas, que poderão desfrutar (não sei como) o Burj Khalifa, o edifício mais alto do mundo.
21. Apoiar-se-á em Israel no seu afã expansionista. Na Síria, ambos patrocinaram o Estado Islâmico. Quem teria pensado que uns minúsculos emirados poderiam obter o controlo das vias fluviais estratégicas nos mares Árabe e Vermelho, ocupando o sul do Iémen?
22. Substituir progressivamente as suas frágeis relações com os EUA por Israel, tal como outros países árabes. Bahrein, Kuwait, Omã e até Catar vão-se preparando para reconhecer o Estado de Israel ao preço da manutenção do status quo da ocupação das terras palestinas.
23. Utilizar a sua aliança com Israel para resolver as disputas que tem na região com países como Omã e Qatar. É curioso que o Irão também recorreu a Israel para lutar contra os seus inimigos: comprou-lhe armas na sua guerra contra o Iraque na década de 1980.

Os lucros de Trump

24. Após o seu fracasso em implementar o Acordo do Século e perder um Nobel da Paz, Donald Trump pode gabar-se da sua única vitória na política externa, após as suas derrotas com o Irão, Coreia do Norte, Venezuela, Afeganistão e China. Todavia, este acordo não se traduzirá em votos para as eleições presidenciais de Novembro: não só porque os americanos certamente nem sabem onde ficam os Emirados Árabes Unidos, mas porque estão indignados com a forma como o presidente gere a pandemia e a situação económica que deixa outros 22 milhões de desempregados. Jimmy Carter conseguiu o acordo de paz entre Israel e Egipto em 1978, mas perdeu as eleições de 1980 - em parte devido a uma aliança entre Teerão e o candidato republicano Ronald Reagan - e George Bush, o artífice da Nova Ordem Mundial, que supostamente expulsou o Iraque do Kuwait, perdeu a reeleição por ignorar o aumento da pobreza e do desemprego.
25. A indignação dos cidadãos é tal que Trump não ousou transformar este acordo numa grande celebração, como Carter fez em Camp David.

A Palestina terá a última palavra

26. O erro clássico das elites é menosprezar a força dos povos na luta pelos seus direitos, e este acordo vai morrer justamente por não ter contado com as sociedades palestina e dos emirados. Resta saber 1) se o uso de estratégias como a transmissão do desporto pela televisão, especialmente o futebol, pelos signatários de Abraham, normalizará a opressão dos palestinos entre os telespectadores, e 2) se a sociedade palestina consegue afastar a extrema-direita religiosa e a desfalecida e imóvel direita da liderança da sua batalha e traçar novas estratégias e tácticas para a nova situação e ser protagonista do seu próprio destino. Haveria que acabar com o erro de pedir solidariedade com a “causa árabe”, conceito que perdeu o foco da luta e a aliança de classes a nível nacional, regional e mundial.
27. O Médio Oriente, apesar de estar acostumado a resolver os seus problemas com a violência, tem sempre lugar para o “tit-for-tatismo”, “o toma lá dá cá” na teoria dos jogos. É verdade que os povos desta região estão cansados de tantas guerras e devem incluir o diálogo e a negociação com o inimigo na sua política externa, mas este tipo de “paz” injusta com um regime como o israelita significa apenas mais guerras contra outros milhões de pessoas indefesas. Não é tarde para organizar um movimento antimilitarista mundial e principalmente nesta região tão fustigada do planeta, e acabar com as guerras contra os palestinos, os curdos, iemenitas, iraquianos, afegãos, sírios, líbios e sudaneses, entre outros integrantes de uma longa lista de nomes.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6632/el-acuerdo-abraham-y-la-peligrosa-entrada-de-israel-en-el-golfo-persico-en-27-notas/

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