O almoço

Correia da Fonseca    21.Jun.12    Colaboradores

Numa daquelas iniciativas que realiza sem se saber muito bem com que fim, Cavaco Silva almoçou com “portugueses de sucesso”. Quisera o senhor Presidente conferir um cunho mais representativo à sua refeição, teria ido almoçar com um grupo de portugueses sem sucesso, sendo mais que certo que a dificuldade residiria então na escolha pois, fora de qualquer dúvida, portugueses sem sucesso são tantos que deles bem se pode dizer, utilizando uma expressão popular, que andam por aí aos pontapés. E uma das razões do insucesso de tantos portugueses é capaz de estar no “sucesso” de vários dos presentes no almoço de Cavaco.

1. O passado dia 9 era para ser uma data para lembrar. O dr. Pedro Santana Lopes diria que assim estava escrito nas estrelas. É certo que na altura decisiva as estrelas se toldaram e «a equipa de todos nós» foi derrotada pelos boches da senhora Merkel, mas o choque que daí decorreu para a generalidade dos portugueses não foi nada de esmagador e, aliás, já dias antes o senhor primeiro-ministro se antecipara com uma explicação de aplicação geral a esse e outros factos: é que, disse ele, os portugueses são pacientes. Pelos vistos, a sua relativa juventude, por sinal já um pouco serôdia, ainda não lhe permitiu aprender que a paciência também se esgota, mas é de crer que pelo actual caminho essa aprendizagem não vá demorar. De qualquer modo, a derrota na Ucrânia não impediu completamente que o referido dia 9 ficasse para lembrar. Foi nesse dia que os telespectadores portugueses tiveram oportunidade de ver o Presidente da República a viajar de eléctrico de Belém até ao Terreiro do Paço numa atitude de invulgar democraticidade e até um pouco «retro». É certo que aquele eléctrico não parou nas paragens do costume e, por consequência, não entrou nele a populaça que habitualmente o frequenta, mas ainda assim foi um gesto simpático. E essa simpatia não se ficou por ali: prolongou-se na notícia de que o senhor Presidente iria almoçar na Mouraria. Não para evocar a Maria Severa que, como é sabido, ali viveu e cantou, mas sim para almoçar com um grupo de portugueses. Portugueses «de sucesso», segundo a televisão teve o cuidado de precisar.

2. Ora, quanto a este ponto é que se justificará alguma discordância. É claro que, bem se sabe, o senhor Presidente não é perfeito, o que aliás se nota imenso e constantemente, notando-se também que sua equipa de assessores, decerto escolhidos a dedo, globalmente não se distingue do assessorando. De qualquer modo, seja permitido a um vulgar cidadão telespectador discordar da aparente pulsão que levou o senhor Presidente almoçar na Mouraria com «portugueses de sucesso» e atrever-se a apontar essa decisão como um erro. Compreende-se, é certo, que ao senhor Presidente, já que iria dar uma nota democrática, tenha apetecido almoçar com os que de algum modo são seus pares, pois é claro que também o senhor professor Aníbal Cavaco Silva é um português de sucesso, e não pouco. De qualquer modo, é hoje tristemente sabido que os portugueses de sucesso estão longe de corresponder à maioria dos nossos concidadãos, isto apesar de um ou dois deles constarem da lista dos detentores das maiores fortunas mundiais. Assim, quisera o senhor Presidente conferir um cunho mais representativo à sua refeição, teria ido almoçar com um grupo de portugueses sem sucesso, sendo mais que certo que a dificuldade residiria então na escolha pois, fora de qualquer dúvida, portugueses sem sucesso são tantos que deles bem se pode dizer, utilizando uma expressão popular, que andam por aí aos pontapés.

3. Bem se entende, é claro, que a escolha do senhor Presidente teve em vista demonstrar que, ao contrário do que parece, há, sim senhores, portugueses de sucesso. Em rigor, sempre se soube que os havia: ninguém duvida de que há portugueses a ganharem o euromilhões ou, mais modestamente, a lotaria nacional; a conseguirem um bom emprego (a prazo, naturalmente) entre um milhar de candidatos; a fazerem afirmar no mercado uma pequena ou média empresa à custa ou não de trabalho sub-remunerado. Um poucochinho à imagem e semelhança do que consta suceder nos Estados Unidos da América, nosso modelo e nosso mito. Porém, deixemos hoje a suposta exemplaridade americana e sublinhemos que no caso português o padrão, como agora muito se diz, é a pobreza a deslizar para a miséria e também para o desespero, pelo que facilmente se entende que melhor seria que o presidencial almoço na Mouraria, gesto óbvio de homenagem, tivesse sido oferecido a alguns dos muitos que, sendo hoje os sem-sucesso, poderão ser amanhã os sem-abrigo, e que seriam representantes dos já muitíssimos milhares de portugueses atirados para essa situação. Com esse gesto, é certo que o PR não remediaria nada. Mas escaparia talvez à suspeita de querer apontar como exemplo de êxito acessível o que não passa de excepção rara. Talvez, quem sabe? por vezes conseguida sem que se saiba bem como.

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