O aniversário de Amália

Correia da Fonseca*    17.Oct.09    Colaboradores

Correia da Fonseca
“Não dispõe a RTP de poderes de canonização, o que aliás por vezes parece fazer-lhe muita falta, mas neste décimo aniversário do passamento da Diva compensou essa carência dedicando-lhe muitas horas de emissão distribuídas por mais de um canal e até alongadas por mais de um dia. Ao fazê-lo, não apenas prestou homenagem à fadista e assim cumpriu o que se presume ser um dever de cidadania, como preencheu longos tempos de antena com baixo custo, o que é de uma flagrante virtude administrativa”.

Um dia destes completaram-se dez anos sobre o falecimento de Amália Rodrigues, desde há muito designada simplesmente por Amália, tout court, por não haver qualquer possibilidade de confusão com qualquer outra. Aliás, como bem se sabe, a admiração popular e oficial por Amália ascendeu a tais níveis que por vezes parece assumir aspectos de devoção e de poder competir com o culto de Fátima, talvez apenas lhe faltando o aparecimento de uma miraculada para cuja vista tenha saltado uma gota de azeite a ferver e posteriormente se tenha visto curada quando ouvia o «Fado Malhoa», um pouco à semelhança do acontecido em famoso caso.

Não dispõe a RTP de poderes de canonização, o que aliás por vezes parece fazer-lhe muita falta, mas neste décimo aniversário do passamento da Diva compensou essa carência dedicando-lhe muitas horas de emissão distribuídas por mais de um canal e até alongadas por mais de um dia. Ao fazê-lo, não apenas prestou homenagem à fadista e assim cumpriu o que se presume ser um dever de cidadania, como preencheu longos tempos de antena com baixo custo, o que é de uma flagrante virtude administrativa.

Para tanto, a RTP não apenas recorreu a antigas gravações, como era praticamente inevitável e aliás bem se justificava, como também lançou mão da transmissão de velhos filmes, e isso é que muitas vezes foi pena. Não está minimamente em causa, em qualquer dos casos, a altíssima qualidade de Amália como intérprete do fado, e é bom que isso aqui fique bem acentuado.

Outra coisa, porém, é o facto de ela nunca ter sido grande actriz, qualidade que de resto nunca lhe terá passado pela cabeça reivindicar. Entre parênteses não escritos, direi que nesta área apenas me restam algumas dúvidas quanto ao seu desempenho num filme de que nunca mais ouvi falar, pelo que suponho destruído: intitulava-se «Vendaval Maravilhoso» e falava-nos da vida do poeta brasileiro Castro Alves. Quanto aos filmes que a RTP agora nos reapresentou, não será demasiado severo dizer que eram globalmente mauzinhos, aliás em coerência com o tempo em que foram realizados e com os objectivos de utilização de Amália na função de «objecto» promocional do fado como elemento decorativo de um regime antipopular que contudo não desdenhava algum populismo como instrumento de propaganda.

Quanto a este aspecto, só por excesso de credulidade se poderá acreditar que Amália nunca se deu conta de estar a ser utilizada: ela era uma mulher «simples», como de resto se autodefinia, mas não era uma mulher parva, longe disso.

Aliás, um dos momentos mais interessantes desta telemaratona ocorreu quando, numa breve intervenção, ouvimos Fernando Lopes contar que assistira a que Alexandre O’Neill tivera uma grande relutância, «por razões políticas», a escrever as palavras do fado «Gaivota», só se resolvendo a fazê-lo por ter ficado fascinado pela música de Alain Oulman. O’Neill, que na sua deriva política já então não estaria tão perto do PCP quanto estivera anos antes, ainda assim terá tido alguma repugnância em ligar o seu nome à carreira de uma «colaboradora» do regime.

Hoje, sabe-se que Amália ajudou o Partido Comunista durante o fascismo com dádivas pecuniárias, suponho que por intermédio de Alain Oulman mas também talvez graças ao facto de, sendo mulher simples, não ser uma mulher imprevidente. De qualquer modo, o que mais importa em Amália não são as minúsculas peripécias da cidadã (nas quais se incluem as infelizes quadras que compôs em louvor do Salazar pós-queda), mas a sua grandeza como fadista.

Foi a esta que a RTP consagrou horas e horas de antena. Algumas delas foram bem medíocres como cinema, mas esse era o preço a pagar pela recuperação dessa espécie de História Antiga feita em homenagem a Amália: era o que há, e este implícito argumento intervém no sentido da absolvição da RTP. Como por vezes se diz em adaptação lusa de uma fórmula de origem estrangeira, tudo está bem quando acaba bem. Digamos que, neste caso, está bem o fundamental e não terá estado tão bem uma boa parte do circunstancial.

* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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