O Ano dos Carrascos

Correia da Fonseca    12.Ene.12    Colaboradores

O actual governo gosta de caracterizar-se a si próprio como sendo de centro-direita. Mas é difícil imaginar que muito mais poderia fazer em tão pouco tempo um governo de assumida direita «pura e dura», excepto se se tratasse de um regime de nazi-fascismo clássico, com direito a farda e braçadeira a condizer.

1. Há muitas maneiras de tentar assassinar um povo sem que o crime corresponda propriamente à total liquidação física, esta poucas vezes realizada ao longo da História. Vejamos quais são algumas dessas outras maneiras. Retirando-lhe o acesso ao trabalho que lhe permite angariar os meios de subsistência. Impedindo-lhe ou dificultando-lhe enormemente o acesso a médicos e medicamentos que o protejam das doenças. Expulsando-o do lugar onde as famílias se abrigam e desse modo multiplicando o número dos sem-abrigo que se arrastam até que sobrevenham a morte prematura ou o desespero que enlouquece. Enchendo o espaço comunicacional de mensagens que injectem a desesperança, que induzam a todas as desistências ou que conduzam à opção pelas delinquências que justificarão todas as repressões. Utilizando os grandes media para que na cabeça das gentes a atracção pelo que é superficial e tosco se substitua ao interesse pelo lúcido entendimento da vida, o hábito dos consumos medíocres e reles impeça o gosto da cultura e o prazer da sua fruição. Escusado seria acrescentar que estes últimos métodos têm tudo a ver com o fluxo televisivo que quotidianamente recebemos em nossas casas.

2. Na tarde do passado dia 31, numa esplanada ao ar livre, ouvi um empregado de mesa dizer para um pequeno grupo de turistas brasileiros que se extasiava perante o dia esplêndido e talvez também perante a comida saborosa: «– Em Portugal é tudo bom! Excepto o governo, só o governo é que é mau!». Com razão ou sem ela, senti que aquele homem aproveitara a minúscula oportunidade para um desabafo que coincidia com o sentimento da maioria dos portugueses, sobretudo com o da grande maioria dos trabalhadores portugueses, relativamente ao grupo que conseguiu apoderar-se da governação de Portugal aproveitando o compreensível descontentamento com o governo anterior e beneficiando do apoio da totalidade dos grandes meios de comunicação. É um governo que gosta de caracterizar-se a si próprio como sendo de centro-direita, pormenor em que volta a poder contar com a cumplicidade da generalidade dos media com o habitual destaque para a televisão, que é o que para estas colunas mais interessa. Mas é difícil imaginar que muito mais poderia fazer em tão pouco tempo um governo de assumida direita «pura e dura», excepto se se tratasse de um regime de nazi-fascismo clássico, com direito a farda e braçadeira a condizer.

3. Recapitulemos sumariamente o que tem vindo a ser a obra verdadeiramente sinistra deste governo, para isso nos servindo apenas do que nos tem contado a televisão, pois é ela que cada vez mais se constitui em fonte de informação neste País que muito pouco lê jornais não-desportivos e quase só se socorre da rádio para ouvir música de raiz anglo-americana. Este governo pilhou uma grossa fatia das remunerações de quem trabalha; fez com que a muitas crianças fosse cortada a alimentação que recebiam nas escolas e que se tornasse mais fácil e barato lançar os seus pais no desemprego; decidiu agravar os custos dos cidadãos doentes que buscam cuidados médicos enquanto pressiona a classe médica de modo a que em parte dos seus profissionais se avoluma o ímpeto para o abandono do Serviço Nacional de Saúde por troca com o superprotegido sector privado; não deixou sequer de perseguir os cidadãos deficientes reduzindo-lhes deduções fiscais que eram magra compensação para a sua infelicidade; terminou o ano anunciando legislação que vai multiplicar e apressar os despejos habitacionais, isto é, aumentar o desespero.

4. Esta enumeração está longe de ser exaustiva mas dará uma ideia da prática governativa deste executivo que, de facto, está a executar um País no sentido de que está a matá-lo, sobretudo porque um País é a gente que o habita, não um nome inscrito num mapa ou uma colecção de postais com lindas paisagens. Assim, em face do que se anuncia, o ano em que entrámos agora tende a ser um Ano dos Carrascos. Resta saber o que queiram ou possam fazer os muitos milhares que por agora estão marcados para serem meramente executados.

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