O assassinio de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht

Rosa Luxemburgo
“Rosa Luxemburgo viveu e morreu num tempo de transição, como o nosso, em que o mundo velho se afundava e outro surgia dos escombros da guerra. Os seus companheiros tentaram construir o socialismo, os seus assassinos e inimigos ajudaram Hitler a subir ao poder”

Aniversário do assassinato da lutadora social alemã Rosa Luxemburgo

Na noite de 15 de Janeiro de 1919, em Berlim, foi detida Rosa Luxemburgo: uma mulher indefesa de cabelos grisalhos, magra e exausta. Uma mulher que aparentava muito mais que os 48 anos que tinha.

Um dos soldados que a rodeava, obrigou-a a seguir aos empurrões, e a pequena multidão, sarcástica e cheia de ódio, que se acotovelava no átrio do Hotel Éden mimou-a com insultos. Ela levantou a fronte diante da multidão e olhou os soldados e os hóspedes com os seus olhos negros e orgulhosos. E aqueles homens de uniformes diferentes, soldados da nova unidade das tropas de assalto, sentiram-se ofendidos pelo olhar desdenhoso, quase de compaixão de Rosa Luxemburgo, «a rosa vermelha», «a judia».

Insultaram-na: «Rosita, aí vem a velha puta». Odiavam tudo o que esta mulher tinha representado durante décadas na Alemanha: a firme crença na ideia do socialismo, o feminismo, o antimilitarismo e a oposição à guerra que tinham perdido em 1918. Nos dias anteriores os soldados tinham esmagado o levantamento dos trabalhadores de Berlim. Agora, os senhores eram eles. E Rosa tinha-os desafiado no seu último artigo:

«A ordem reina em Berlim! Ah, estúpidos e insensatos verdugos! Não vos dais conta de
que a vossa ordem está assente em areia. A revolução erguer-se-á amanhã e com a sua vitória o terror subirá aos vossos rostos ao ouvir anunciar com todas as trompetas: eu fui, sou e serei!».

Empurraram-na, bateram-lhe. Rosa levantou-se. Já quase tinham cegado à porta traseira do hotel. Lá fora, estava estacionado um carro cheio de soldados que a deviam levar para a prisão. Um dos soldados foi-se a ela de arma levantada e dá-lhe uma pancada na cabeça com a coronha. Ela cai ao chão. O soldado dá-lhe uma segunda pancada na têmpora.

O homem chamava-se Runge. O rosto de Rosa Luxemburgo jorrava sangue. Um pouco antes ele tinha derrubado Karl Liebknecht com a coronha da sua espingarda. Também o tinha arrastado pelo átrio do Hotel. Éden.

Os soldados levantaram o corpo de Rosa. O sangue brotava da boca e do nariz. Levaram para o carro. Sentaram Rosa entre dois soldados no banco detrás. Ainda mal o carro tinha arrancado quando dispararam um tiro à queima-roupa. Ouviu-se no hotel.

Na noite de 15 de Janeiro de 1919 os homens das tropas de assalto assassinaram Rosa Luxemburgo. Duma ponte arrojaram o seu cadáver ao canal. No dia seguinte Berlim inteiro sabia que a mulher que nos últimos vinte anos tinha desafiado todos os poderosos e que tinha cativado os assistentes de numerosas assembleias estava morta. Enquanto se procurava o seu cadáver, um Bertold Brecht de 21 anos escrevia:

Agora também desapareceu a Rosa vermelha.
Ignora-se onde se encontra.
Porque ela aos pobres disse a verdade
Foi assassinada pelos ricos do mundo.

Poucos meses depois, em 31 de Maio de 1919, encontrou-se o corpo de uma mulher junto a uma comporta do canal. Podia reconhecer-se as luvas, uma parte do vestido, um fio de ouro de Rosa Luxemburgo. Mas a cara estava irreconhecível, já que o corpo há muito estava tinha apodrecido. Foi identificada e enterrada a 13 de Junho.

Em 1962, 43 anos depois da sua morte, o Governo Federal alemão declarou que o seu assassinato tinha sido uma «execução de acordo com a lei marcial». Há apenas nove anos que uma investigação oficial concluiu que as tropas de assalto, que tinham recebido ordens e dinheiro dos governantes sociais-democratas, foram os autores materiais da sua morte e da de Karl Liebknecht.

Milhares de pessoas participam na marcha de homenagem a Rosa Luxemburgo, a «Rosa Vermelha», em Berlim

O mês de Janeiro costuma ser uma das épocas de maiores esperanças para os alemães que ainda acreditam numa alternativa de esquerda ao actual sistema neoliberal. Até 15 de Janeiro celebra-se a já tradicional conferência internacional «Rosa Luxemburgo», que acabará com a manifestação que nesse dia percorrerá, em honra de Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, as ruas de Berlim a caminho do «cemitério dos socialistas».

Esta manifestação, a que no ano passado assistiram 100.000 pessoas, juntamente com a Conferência organizada pelo diário de esquerda Junge Welt, realiza-se todos os anos, devido ao assassinato, a 15 de Janeiro de 1919, da lutadora social alemã de origem polaca, Rosa Luxemburgo, figura central do socialismo revolucionário internacional e fundadora do partido Comunista Alemão (KPD), partido político ilegalizado pelo governo alemão e actualmente proibido naquele país.

Rosa Luxemburgo foi assassinada pelas tropas de assalto ao serviço da social-democracia. Juntamente com ela morreu o seu camarada Karl Liebknecht. Nasceu a 5 de Março de 1871. Muita gente na Alemanha oriental segue a tradição de assistir à manifestação a recordá-la, manifestando o seu respeito, depositando cravos vermelhos no monumento dedicado à «Rosa Vermelha» e aos socialistas e comunistas que trabalharam para um mundo melhor.

A actualidade do pensamento de Rosa Luxemburgo

«Que extraordinário é o tempo que vivemos», escrevia Rosa Luxemburgo em 1906. «Extraordinário tempo que coloca enormes problemas e espicaça o pensamento, que suscita a crítica, a ironia e a profundidade, que estimula as paixões e, principalmente, um tempo frutífero, prenhe».

Rosa Luxemburgo viveu e morreu num tempo de transição, como o nosso, em que o mundo velho se afundava e outro surgia dos escombros da guerra. Os seus companheiros tentaram construir o socialismo, os seus assassinos e inimigos ajudaram Hitler a subir ao poder.

Hoje, quando o capitalismo demonstra uma vez mais que a guerra não é um acidente, mas uma parte irrenunciável da sua estratégia; quando os partidos e organizações «tradicionais» são obrigados a questionar as suas formas de actuar perante o abandono a que são votados pelas massas; quando a esquerda transformadora defende exclusivamente o parlamentarismo como via para a mudança social; quando nos encontramos perante uma enorme crise do modelo d democracia representativa e os argumentos políticos se reduzem ao «voto útil».

Hoje, dizemos que Rosa Luxemburgo se converte em referência indispensável nos grandes debates da esquerda. Não é apenas a sua voz que se escuta debaixo do lema aparentemente enovelado: «Outro mundo é possível». Ela formulou com um pouco mais de urgência: «Socialismo ou Barbárie».

O seu pensamento, o seu compromisso e a sua transbordante humanidade servem-nos de referência à nossa luta para que este século não seja também o da barbárie.

* David Arrabalí é membro do Conselho de Redacção da revista Mundo Obrero e mestre em Materialismo Histórico e Teoria Crítica pela Universidade Complutense de Madrid (UCM)

Tradução de José Paulo Gascão

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