O autodenominado «movimento democrático» de Hong Kong

Renato Caputo    16.Jul.20    Outros autores

Em autênticos termos de reversão histórica, em Hong Kong as forças filo-oligárquicas e filo-imperialistas que mitificam o período colonial e defendem a meca do neoliberalismo mais desenfreado são chamadas “democráticas”. Todo o tipo de delinquentes que encontraram asilo na cidade e no seu apetecível paraíso fiscal as apoiam e promovem (e dirigem) lado a lado com forças “democráticas” estrangeiras, como é o caso de Trump, ou de Johnson, ou da UE, entre outros.

Hong Kong é considerada a meca do capitalismo desregulado, onde a negociação colectiva foi sempre considerada ilegal por razões políticas, o autodenominado “movimento democrático”, que estaria esgotado por um ano de “guerrilha”, encontrou pela primeira vez o apoio de alguns sindicatos corporativos menores. O que é notícia no Ocidente (e mesmo no único jornal italiano que se autodefine como comunista (1)) não é o facto de um movimento “democrático” se tenha reduzido após um ano de “guerrilha”, nem que esse dito movimento democrático se bata pela salvaguarda da independência da meca do capitalismo desregulado – no qual a mesma negociação colectiva sempre foi proibida - mas que sectores minoritários do mundo do trabalho apoiem o protesto.

Portanto, em primeiro lugar esse protesto, realizado por mais de um ano com métodos de guerrilha, não poderia ser chamado democrático. Em segundo lugar, apoiando o neoliberalismo mais extremo, não pode senão ser antitético seja de movimento democrático for. Democracia significa, de facto, domínio político da maioria dos subalternos, sobre os oligarcas, coisa que obviamente nunca existiu em Hong Kong. Pelo contrário, em Hong Kong, coerentemente com a linha neoliberal radical, sempre dominou uma oligarquia. Portanto, é antes de mais absurdo e contraditório definir um movimento democrático que luta para salvaguardar um dos sistemas mais radical e descaradamente oligárquicos do mundo. Como Pino Arlacchi observou justamente em “Il Fatto Quotidiano” “uma parte dos habitantes de Hong Kong, portanto, cultiva o sonho de um retorno ao passado que preserve um status de hub financeiro” (2).

Um passado idealizado pelo suposto movimento democrático de Hong Kong, que tem início com a ocupação da cidade pelo imperialismo britânico, durante a Guerra do Ópio, desencadeada porque os chineses se recusavam a aceitar a venda livre de drogas no seu território por parte do Reino Unido, que a fazia cultivar pelos pobres agricultores indianos, submetidos ao jugo colonial inglês. Sem esquecer que a Grã-Bretanha, depois de mais de um século de domínio colonial, introduziu a democracia em Hong Kong somente quando, em 1997, expirado o tratado desigual imposto à China, a cidade voltaria a fazer parte da mãe pátria. Portanto, os autodenominados democratas de Hong Kong reivindicam uma democracia, que foi introduzida em seu país depois de mais de um século de domínio colonial, apenas no momento em que o grande Hub financeiro deveria voltar a integrar a mãe pátria.

Como Alberto Bradanini observou, com razão, a esse respeito: “em Hong Kong, durante os 156 anos de domínio, os britânicos nunca sonharam em introduzir a democracia. O governador era nomeado de Londres, o Conselho Legislativo era um mero órgão consultivo e a participação da população era mínima. De repente, em 1997, levar a democracia a Hong Kong torna-se fundamental para Londres! ” (3) Por outro lado, o movimento “democrático” reacionário - que tende a idealizar o passado colonial de Hong Kong - baseia-se num falso mito, segundo o qual a sorte do país resultaria de ter adoptado, graças ao domínio colonial, um modelo económico superior. Pelo contrário, a economia do país permanecera estagnada por mais de cem anos. O seu súbito milagre económico deve-se à abertura - após a derrota da ala esquerda do partido da República Popular da China em 1978 - ao mercado mundial (capitalista). Isso fez a fortuna de Hong Kong subitamente transformada “na porta de entrada para os negócios ocidentais na China”. Uma posição que dura até 2001, quando a China adere à Organização Mundial do Comércio e HK perde lentamente esse privilégio, porque as empresas estrangeiras podem agora dirigir-se directamente à China.

Portanto, a fortuna de Hong Kong não se deve à Grã-Bretanha, mas exclusivamente à China. A economia da cidade de momento de carácter oligopólico, tipicamente colonial, baseada na riqueza fundiária, na propriedade da terra, uma estrutura que nem mesmo o retorno à China modificou “(4). Tanto mais que nos projectos da ala direita do Partido Comunista Chinês, no poder desde a morte de Mao, a cidade chinesa de Shenzhen, mais próxima da China do que Hong Kong, deverá ter esta última como referência. A liderança de direita do PC chinês ficaria surpresa com as “mudanças que ocorreram naquela obscura vila. Shenzhen tornou-se o centro tecnológico mais importante da China, perdendo apenas para Silicon Valley em capacidade de inovação no mundo, enquanto Hong Kong manteve o mesmo modelo de antes, gerando sempre e apenas riqueza fundiária”(5). Um modelo social em defesa do qual surgiria o movimento “democrático” de Hong Kong, não surpreendentemente exaltado pelas potências imperialistas de todo o mundo.

Então, de que democracia se trata? Naturalmente que se trata da democracia para o povo dos senhores, ou seja para os colaboracionistas e seus descendentes que se enriqueceram graças a este espantoso paraíso fiscal e que não pretendem abrir mão de seus enormes privilégios obtidos com as especulações financeiras mais sujas. A esse respeito, já Karl Marx observava: “entretanto, o governo chinês [que procurava defender o país da agressão das potências imperialistas] ao mesmo tempo que enviava ameaçadoras notas de protesto aos comerciantes estrangeiros, punia os comerciantes indígenas de Hong Kong, que notoriamente os apoiavam”(6). Portanto, é uma história antiga a dos “comerciantes indígenas” de Hong Kong, colaboracionistas com os invasores imperialistas, que defendem com unhas e dentes o seu paraíso fiscal e a sua meca do neoliberalismo. Os seus violentos protestos estão essencialmente ligados ao terror de perderem os seus cada vez mais irracionais e injustos privilégios quando em 2047 Hong Kong será finalmente equiparado às outras províncias chinesas, pondo assim fim à democracia para o povo dos senhores, dos grandes burgueses que dominaram Hong. Kong por quase dois séculos. Pelo contrário, do ponto de vista da República Popular da China, Hong Kong representa a memória plástica de uma época a esquecer, a era colonial, filha do século de humilhação do país por parte das grandes potências imperialistas.

Além disso, obviamente, este paraíso para especuladores e lobos do mercado de acções em todo o mundo significa literalmente um inferno para a grande maioria dos proletários explorados, já que Hong Kong é um dos lugares do mundo com maior polarização da riqueza, devido à qual os milhões de trabalhadores que produzem são forçados a sobreviver com salários de fome. Não é por acaso que, enquanto os primeiros viram as potências imperialistas como um modelo durante os mais de cento e cinquenta anos do domínio colonial britânico, o proletariado de Hong Kong durante o século e meio do domínio colonial olhou, pelo contrário, para a República Popular da China. Portanto, a base do movimento “democrático” é a atitude de afirmar que Hong Kong continua a ser um assunto exterior ao resto da China, da qual deve permanecer separado como se fosse ainda uma colónia.

Além disso, é absurdo definir como democrático um movimento que até agora nunca encontrou qualquer ponto de encontro com as organizações que defendam os interesses dos trabalhadores. Sendo estes últimos, num país oligárquico, o sector decididamente mais amplo dos subalternos, não é possível entender como terá existido até agora um movimento “democrático” alheio, para não dizer contrário e oposto aos interesses do proletariado.

Por outro lado, esses novos sindicatos que estariam a aproximar-se do autodenominado “movimento democrático” fazem parte de um fenómeno certamente oposto aos interesses dos trabalhadores, ou seja o surgimento de uma miríade de micro organizações sindicais que são necessariamente ultra-corporativas. Naturalmente, esta proliferação de pequenas siglas sindicais ultra-corporativas só pode enfraquecer o grande sindicato confederal, a Federation of Trade Unions desde sempre aliada, é claro, com a República Popular da China e em luta com a oligarquia de Hong Kong, sob cuja tutela surge este pseudo movimento democrático em defesa dos seus privilégios absurdos, e que coincidentemente encontra apoio total de todas as forças internacionais filo-imperialistas e, escusado será dizer, em primeiro lugar do governo ultrarreacionário liderado por Trump, conhecido campeão da democracia a nível nacional e internacional. De resto o movimento sindical em Hong Kong foi desde sempre formado por trabalhadores chineses ultra-explorados pelos colonialistas britânicos e pelos colaboracionistas locais. Portanto, tradicionalmente, o movimento sindical foi sempre apoiado pela República Popular da China e sempre foi fortemente atacado pelos aparelhos repressivos de Hong Kong.

Não é por acaso que este dito movimento democrático, que há um ano empreende uma guerrilha para manter os seus privilégios em relação ao resto do país, surgiu para defender da extradição para a China dos grandes especuladores culpados das operações financeiras mais sujas que sempre encontraram refúgio neste mega paraíso fiscal, subtraindo-se assim à necessidade de prestar contas das suas irregularidades perante um tribunal popular. De facto, mais especificamente, as lutas do autodenominado movimento democrático tiveram originaram na defesa de um cidadão de Hong Kong, procurado por uma violação cometida em Taiwan, que com a nova lei arriscava a extradição para a China. Como Arlacchi observou a esse respeito, Hong Kong tornou-se assim: “um receptáculo da delinquência chinesa e internacional de todo tipo: de assassinos de alto calibre a contrabandistas, de políticos corruptos a mega-vigaristas financeiros que aqui residem e aqui colocam o seus saque (Hong Kong ainda é um dos maiores paraísos fiscais)”(7).

É realmente bizarro considerar um movimento criado para defender o direito dos grandes criminosos especuladores de encontrar refúgio escapando à justiça nesta meca do neoliberalismo mais desenfreado. A esse respeito, o ” Asia blog” observou com razão: “alguns banqueiros de Hong Kong referiram que muitos clientes estão a transferir as suas contas para Singapura com medo de que, entre os objectivos de Pequim, estejam precisamente funcionários e multimilionários chineses que se mudaram para a região autónoma para evitar procedimentos judiciais na pátria. (…) Uma perspectiva pouco atraente para a poderosa e grande comunidade dos negócios de Hong Kong, considerando também que, para os “crimes económicos” como a corrupção, o ordenamento jurídico da República Popular da China prevê a pena de morte para os casos mais graves”(8) Evidentemente, estas lutas lideradas pelos oligarcas e seus pequeno burgueses colaboracionistas para manterem os seus privilégios não podem senão assustar a República Popular da China, onde, com a “Nep” realizada nas últimas décadas, a burguesia recuperou cada vez mais força do ponto de vista económico e poderia um dia tentar novamente arrebatar mesmo o controlo político do Partido Comunista da China. Não por acaso, os últimos protestos em Hong Kong surgiram, apesar das proibições impostas pela pandemia, para reivindicar a possibilidade de comemorar todos os anos, juntamente com os líderes que encontraram refúgio em Hong Kong, a contrarrevolução tentada durante a prolongada ocupação da maior e mais importante praça do país.

Fonte: http://www.marx21.it/index.php/internazionale/cina/30598-il-sedicente-movimento-democratico-di-hong-kong

Notas:
1- Ver, mais recentemente, o artigo “Hong Kong, dificuldades para a China: sindicatos apoiam estudantes”, de Alessandra Colarizi, publicada no “Il manifesto” de 18.06.2020.
2 - https://www.sinistrainrete.info/articoli-brevi/15639-pino-arlacchi-hong-kong-la-storia-che-non-leggerete-2.html
3 - Alberto Bradanini, “Hong Kong deve despedir-se do seu passado”, em “Il manifesto”, de 10.2.2019.
4 - Ibidem.
5 - Ibidem.
6 - Artigo “Comércio livre igual monopólio” de Marx, de 3 de Setembro de 1858, publicado no “New York Daily Tribune”.
7 - https://www.sinistrainrete.info/articoli-brevi/15639-pino-arlacchi-hong-kong-la-storia-che-non-leggerete-2.html
8 - https://www.sinistrainrete.info/articoli-brevi/15644-nucleo-comunista-internazionalista-hong-kong-contro-la-democrazia-contro-la-liberta-del-businnes-e-dei-businnesmen-di-ogni-razza-e-colore.html

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