O Banco Mundial descobre, subitamente, mais 400 milhões de pobres

Eric Toussaint
O Banco Mundial, que a par do FMI constituem as principais instrumentos internacionais do imperialismo para o saque dos países não desenvolvidos, confirma nos seus documentos as acusações que há muito lhe são feitas

O Banco Mundial acaba de reconhecer importantes erros nos seus cálculos sobre a pobreza mundial. Na verdade, enquanto «as estimativas da pobreza estabelecidas pelo Banco Mundial melhoraram graças a dados mais fiáveis sobre o custo de vida», o resultado constitui por si mesmo um violento questionamento das estatísticas elaboradas por esta instituição, que há vários anos atravessa uma gravíssima crise de legitimidade: subitamente, o Banco Mundial acaba de descobrir que «400 milhões de pessoas mais do que as que pensava, vivem na pobreza». É mais de metade da população sub-sariana!

Isto reflecte, sobretudo, a falta de fiabilidade das estadísticas publicadas pelo Banco Mundial, estatísticas que servem, fundamentalmente, para avalizar as políticas neo-liberais impostas por todo o mundo pelos seus próprios peritos. Segundo o seu comunicado [1], «1.400 milhões de pessoas que vivem nos países em desenvolvimento (2 em cada 4) subsistiam com menos de 1,25 dólares diários em 2005», enquanto que as estimativas anteriores andavam à volta de dos mil milhões de pessoas. Porquê? Por que com a demografia mundial este número permite mais facilmente criar ilusões: é que, por exemplo, se o número de pessoas pobres se mantém, com o passar dos anos, a proporção de pobres reduzir-se-á automaticamente.

Por isso, o chamado «objectivo do milénio» consiste em reduzir para metade, entre 1990 e 2015, a proporção da população com rendimentos inferiores a um dólar por dia. Mas com os enormes erros do Banco Mundial nos seus cálculos sobre a pobreza, toda a estrutura das políticas internacionais actuais contra a pobreza se desmorona. As políticas de ajustamento estrutural (redução dos orçamentos sociais, recuperação dos custos nos sectores de sanidade e educação, agricultura orientada para a exportação e redução das culturas alimentares, etc.), impostas pelo FMI e pelo Banco Mundial desde o princípio dos anos oitenta, deterioraram as condições de vida de centenas de milhões de pessoas em todo o mundo.

Sobre isto, não faltam críticas ao Banco Mundial, como a de Thomas Pogge, professor da Universidade de Columbia, que escrevia recentemente: «Os sistemas de cálculo do Banco Mundial são extremamente duvidosos. Há razões para pensar que com um sistema mais credível se observaria uma tendência mais negativa e a pobreza mais alargada. […] Enquanto o sistema actual do banco Mundial e os dados em que se baseiam conservarem o monopólio nas organizações internacionais e na investigação universitária sobre a pobreza, não se poderá abordar seriamente este problema» [2].

O Banco Mundial demonstrou o seu fracasso, tanto no campo estatístico como no político. Mais do que nunca, há que definir um objectivo triplo: abandono da doutrina do ajustamento estrutural, a abolição do Banco Mundial, e a sua substituição no âmbito de uma nova estrutura institucional internacional.

Notas:
[1]Ver worldbank
[2 «Un dollar par jour. ¿Que savons-nous de la pauvreté dans le monde?», cadtm

* Damien Mollet é porta-voz do Comité para a anulação da dívida do Terceiro Mundo (CADTM), França, www.cadtm.org
Eric Toussaint é Presidente do CADTM, Bélgica

Tradução de José Paulo Gascão

Este artigo foi publicado em rebelión

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