O bombardeamento da Jugoslávia: vinte anos depois

Neil Clark    30.Mar.19    Outros autores

O bombardeamento da Jugoslávia inaugurou a escalada de agressões EUA/UE/NATO cuja dimensão actual ameaça povos em todo o mundo. Merece a pena recordar a cumplicidade dos governos da política de direita em Portugal em todos os passos dessa escalada: de Guterres quando da agressão à Jugoslávia, de Durão Barroso quando da agressão ao Iraque, até à actual participação do governo de António Costa nos ataques contra a Venezuela.

Passa agora o 20º aniversário do bombardeamento da Jugoslávia pela NATO. Começou em 24 de Março de 1999 e durou 78 dias. Não teve trégua, nem mesmo para a Páscoa Ortodoxa.
A guerra travada para supostamente impedir a limpeza étnica dos cidadãos de origem albanesa do Kosovo não se deparou – deve ser dito – com o mesmo nível de oposição que outras operações militares dos Estados Unidos. Na Câmara dos Comuns britânica, 13 deputados (incluindo Jeremy Corbyn, George Galloway e John McDonnell) tentaram, sem sucesso, forçar uma votação sobre o assunto.
Entre as personalidades de esquerda que se teria esperado que se opusessem à agressão militar liderada pelos EUA estava um certo Ken Livingstone.
Gente bem intencionada temia que acontecesse no Kosovo o que acontecera em Srebrenica em 1995, onde cerca de 8.000 homens e rapazes tinham sido massacrados pelas forças sérvias da Bósnia (no que mais tarde foi qualificado como genocídio pelo Tribunal Internacional de Justiça) e durante a operação “Tempestade” do mesmo ano, onde cerca de 200.000 sérvios fugiram de suas casas ou foram expulsos na região de Krajina pelos croatas.
No entanto, e tal como a invasão do Iraque que se seguiu quatro anos depois, o ataque à Jugoslávia foi um verdadeiro crime.
Está amplamente comprovado que essa agressão contribuiu para criar a crise humanitária que ela se suporia ir impedir, até porque milhares de pessoas foram forçadas a fugir dos bombardeamentos. A “Operação Allied Force”, como foi chamada, custou a vida a cerca de 500 civis jugoslavos.
Pelo menos 15 pessoas morreram quando os ataques da NATO atingiram um comboio de passageiros em Grdelica. Dezasseis morreram quando de um ataque à RTS, a televisão sérvia. Mais de sessenta albaneses do Kosovo foram mortos quando um piloto de caça norte-americano bombardeou a sua coluna. A NATO pretendeu inicialmente que as forças jugoslavas eram responsáveis ​​por este ataque.
Se os “humanitários” da NATO tivessem realmente pretendido reduzir as tensões entre Belgrado e Pristina e proteger os civis, poderiam ter negociado um verdadeiro processo de paz. Mas procuravam claramente uma escalada. Recordemos o que se passou no Castelo de Rambouillet.
Foi adicionado um anexo ao documento para autorizar a ocupação militar da Jugoslávia pela NATO, quando os Estados Unidos e o Reino Unido sabiam perfeitamente que Slobodan Milosevic, o líder iugoslavo, não a poderia aceitar.
Pouco mais de um ano depois, Lord Gilbert, o ministro britânico para as necessidades de Defesa, admitiu: “Penso que à época gente da NATO queria absolutamente a guerra. as condições impostas a Milosevic em Rambouillet eram absolutamente intoleráveis: como teria ele podido aceitá-las? Isso foi feito propositadamente ”.
Henry Kissinger, que dificilmente pode ser qualificado como “pacifista”, disse a mesma coisa: “O texto de Rambouillet, que exigia à Sérvia que deixasse entrar as tropas da NATO em toda a Jugoslávia, era uma provocação, um pretexto para desencadear o bombardeamento “.
A guerra contra a Jugoslávia era uma guerra económica e de maneira nenhuma uma guerra humanitária. Encontramos mais provas disso em outros parágrafos do Acordo de Rambouillet. Como escrevi no The Guardian em 2005, o parágrafo 1 do Artigo I do Capítulo Quatro apelava a uma “economia de mercado” e o parágrafo 1 do Artigo II à privatização de todos os activos do Estado.
Por foi isso incluído, se o objectivo era simplesmente de proteger os civis?
Para o saber, ouçamos George Kenney, antigo responsável no Departamento de Estado pela Jugoslávia. “Na Europa pós-Guerra Fria, não havia espaço para um grande Estado socialista independente que resistia à globalização”, disse Kenney, para explicar a agressão ao país.
Sob Milosevic, a República Federativa da Jugoslávia tinha um sistema económico no qual os antigos modelos de propriedade social da época comunista ainda predominavam. Grandes áreas da economia pertenciam ao Estado ou eram controladas pelos trabalhadores. E tudo isso, não o esqueçamos, dez anos depois da suposta morte do comunismo na Europa.
Embora ele fosse retratado na propaganda da NATO como “o novo Hitler”, Milosevic era na verdade um socialista que acreditava no antigo ideal jugoslavo de “fraternidade e unidade”. Foi diabolizado não porque era nacionalista sérvio puro e duro, mas porque não o era. Vinha da tradição política dos Balcãs, não da tradição Tchetnik.
Na altura do bombardeamento da NATO eu vivia na Hungria e, com um amigo que também era da Grã-Bretanha, organizamos uma manifestação em frente à embaixada britânica em Budapeste. Curiosamente, a primeira pessoa a assinar nossa petição pedindo a suspensão dos bombardeamentos foi uma croata que nos falou da gentileza com que croatas como ela eram tratados na Jugoslávia de Milosevic. O embaixador britânico convidou-nos muito amavelmente para a embaixada, ofereceu chá e biscoitos, e tentou vender-nos a guerra com o palavreado de Tony Blair. Mas não nos deixámos enganar pela retórica do primeiro-ministro britânico. Em Abril, voltei a casa em Inglaterra para a Páscoa e participei com minha mãe numa marcha contra a guerra em Londres. Tony Benn, o conhecido deputado trabalhista, estava à frente da manifestação. Pedi-lhe para assinar minha cópia de seu livro “Arguments for Socialism ” Ele fê-lo e eu disse-lhe que tinha comprado o livro numa livraria do Estado no centro da cidade (Belgrado) que a NATO estava a bombardear.
Foi durante essa mesma viagem à Grã-Bretanha que assisti a um excelente documentário televisivo contra a guerra, dirigido pelo premiado dramaturgo Harold Pinter.
“A operação militar da NATO na Sérvia viola sua própria carta, derroga as regras aceites do direito internacional e escarnece das Nações Unidas”, disse Pinter. Que também declarou numa manifestação contra a guerra: “Encaremos a verdade de frente. A verdade é que Clinton e Blair zombam dos albaneses do Kosovo. Trata-se de mais uma demonstração flagrante e brutal do poder dos EUA que utiliza a NATO como seu míssil. O seu único objetivo é consolidar o domínio americano sobre a Europa. É necessário estar plenamente consciente disso e resistir. ”
Em 1999, podia estimar-se que Pinter exagerava. Mas pensem no que aconteceu depois. O bombardeamento da Jugoslávia não foi uma operação única, foi o início de uma guerra contra países independentes e estrategicamente importantes que ousaram desafiar a ordem imperial dos falcões de Washington.
A invasão do Afeganistão seguiu-se em 2001 para derrubar um governo que não tinha chegado ao poder senão como resultado de tentativas anteriores dos Estados Unidos de derrubar governos de esquerda na região.
O ataque ilegal e catastrófico contra o Iraque foi lançado dois anos depois, com base no argumento fraudulento de que o país possuía armas de destruição em massa que poderiam ser montadas e lançadas em 45 minutos. O bombardeamento da Líbia pela NATO ocorreu em 2011, transformando um país cujo desenvolvimento humano era o mais elevado de África num parque de diversão para os jihadistas. Na Síria, os “rebeldes” foram apoiados com o objectivo de derrubar um governo secular que não representava qualquer ameaça para o Ocidente.
Hoje, são a Venezuela e o Irão quem está na mira e, é claro, há contínuas provocações contra a Rússia para intensificar as tensões da Guerra Fria 2.0.
Pode pensar-se que se tivéssemos sido capazes de prever o que aconteceria depois teria havido muito mais gente a opor-se ao bombardeamento da Jugoslávia em 1999!

Fonte: https://sputniknews.com/columnists/201903231073479642-nato-bombing-yugoslavia/

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