O caso do porta-aviões

Correia da Fonseca    12.Jun.12    Colaboradores

Numa altura em que o grande patronato e o capital bancário festejam um ano de desgoverno PSD/CDS, a situação deste não é das mais seguras. Não é só a luta popular com que se defronta. É o descrédito dos próprios figurões que o compõem, como Miguel Relvas, o braço direito de Passos. Dizia um comentador que a radical perda de respeitabilidade deste foi, para o governo, como «um tiro no porta-aviões» em jogo de batalha naval. De facto, porém, foi pior: Miguel Relvas está praticamente no fundo. Pode, é claro, permanecer por lá, mas não na qualidade de submarino, antes como destroço.

1. É de crer que a generalidade dos telespectadores portugueses só se tenha dado conta da existência de Miguel Relvas depois de ele ter surgido a integrar o ministério Passos Coelho com funções de primeiríssimo plano. Antes disso, é praticamente certo que ele já andasse por ali, que surgisse nesta ou naquela imagem de grupo que a TV trouxesse a nossas casas, mas é duvidoso que alguém o olhasse com atenção e lhe atribuísse importância. Até que. Até que PSD e CDS-PP se tornaram governo com o assumido objectivo de empobrecer a esmagadora maioria dos portugueses, de reduzir o País a um grau de miséria que agradasse enfim às exigências externas, de cometer sucessivas e escandalosas violências a que sem o mínimo pudor chamou «medidas corajosas». Foi a partir de então que Miguel Relvas passou a ser presença quotidiana nos nossos televisores, com frequência acompanhando o primeiro-ministro, noutras vezes a solo ou em contexto diversificado. Chegou a coisa a ponto de fazer lembrar uma antiquíssima fórmula popular: «não há festa nem dança onde não esteja a Dona Constança». Esta particularíssima Dona Constança era o ministro Relvas que, o cidadão comum pôde então vir a sabê-lo, já desde há muito acompanhava de perto o dr. Pedro Passos Coelho apoiando-o com as suas sabedorias, a sua experiência e presumivelmente a sua amizade. Tanto e de tal modo que era considerado como o seu braço direito.

2. A frequente presença de Miguel Relvas nos televisores permitiu, naturalmente, a configuração de qualquer coisa que pode ser designada como sendo a sua imagem televisiva, presumivelmente fiel às suas características e ao seu estilo fora da TV, no quotidiano real. E era a imagem de um sujeito dinâmico, quase hiperactivo, sobretudo desenrascado, desses que sempre têm o ar de tratar por tu os problemas e de colocar o vento no lado que mais convém. Para lá disto, que não tinha o ar de ser pouco, aconteceu que nas mãos de Miguel Relvas, supostamente desenvoltas, e na criatividade da sua cabeça, que se adivinhava liberta de hesitações decorrentes de escrúpulos obsoletos, foram colocadas a reconfiguração administrativa do País, eufemismo utilizável para designar mais uma grave agressão ao Poder Local, e a reconfiguração da partilha da televisão em sinal aberto, caminho para um eventual reforço da quotidiana lavagem de cérebros dos portugueses em benefício da propaganda do capitalismo puro e duro. Para lá desses dois encargos muitos outros haveria, um homem tão eficaz não pode esgotar-se em tão pouco, e decerto por isso era convicção generalizada que Miguel Relvas valia bem, pelo menos para o PM, por três ou quatro dos ministros «normais», isto é, sem os talentos específicos que eram visíveis em Relvas mais os que nele se podiam adivinhar.

3. Eis, porém, que de súbito se soube que entre os tais talentos adivinháveis se contavam relações inconfessáveis com indivíduos infrequentáveis. Mais e pior: percebeu-se que o ministro Relvas, desenrascadíssimo por natureza, aparentemente convencido de que seria fácil desembaraçar-se de perguntas incómodas recorrendo ao milenar recurso da mentira, não hesitava em usar esse método mesmo quando questionado na AR por deputados da República. E mais ainda: que, quando irritado com um jornal, terá tentado silenciá-lo mediante ministeriais ameaças e utilização de dados provavelmente fornecidos pelos serviços secretos. Foi o clamor que se sabe, que preencheu horas de televisão e muitas páginas da imprensa, que inevitavelmente resultou na impossibilidade de o senhor ministro continuar a ser ministro sem escândalo público. Um dos muitos comentadores que sobre o caso se pronunciaram na TV disse que a radical perda de respeitabilidade de Miguel Relvas foi, para o governo, como «um tiro no porta-aviões» em jogo de batalha naval. De facto, porém, foi pior: Miguel Relvas está praticamente no fundo. Pode, é claro, permanecer por lá, mas não na qualidade de submarino, antes como destroço. Nesse quadro, o governo até pode prosseguir: a sua capacidade para destruir Portugal não se concentra exclusivamente no Relvas. Mas este não será mais que um sobrevivente de si próprio.

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