O cavaco, o cherne e o coelho*

Filipe Diniz    12.May.12    Colaboradores

Uma das características mais marcantes dos protagonistas da política de direita ao longo dos últimos 36 anos - para além, está claro, da mediocridade - é a desfaçatez. Os actuais lacaios da troika seriam anedotas se para o povo não fossem tragédias.

Existe um “fórum “informal” chamado Conselho para a Globalização, constituído pela COTEC sob o alto e sempre brilhante patrocínio de Cavaco Silva.
Esteve reunido em Cascais, com o objectivo de trocar opiniões sobre o seu tema e “em última análise, sobre o relançamento da economia portuguesa”. Nele participaram “gestores de topo” de amigos do relançamento da economia portuguesa como são o Lloyd’s Banking, o Crédit Suisse, o ABB Group (a cujo apoio a economia portuguesa deve o desmantelamento da Mague e da Sorefame), o Unite Investment Bank, a Peugeot/Citroen, a Renault/Nissan, entre vários outros do mesmo calibre.
Participaram também Cavaco Silva, Durão Barroso e Passos Coelho, igualmente interessados no relançamento da economia portuguesa, “em última análise”. E o que esse trio (mais uma “troika”…) disse é de registar.
Cavaco manifestou a sua preocupação pelo desemprego existente. Mas confia em que melhore “já no segundo semestre”. Porquê? Primeiro, porque tem pessoalmente “recolhido indicadores positivos um pouco por todo o país”. Depois, porque confia nas capacidades do INE em martelar as estatísticas. Está certo que os dados do INE serão “muito menores” do que os do Eurostat.
Barroso e Coelho repetiram a habitual ladainha dos “factores de competitividade e da reforma do mercado laboral” (leia-se mão-de-obra barata, precária e sem direitos). Barroso, um dos responsáveis pela situação a que o país chegou, teve a lata de dizer que, “para corrigir os enormes e insustentáveis desequilíbrios a que Portugal chegou, é necessário executar um corajoso programa que combine ajustamento orçamental com reformas estruturais. É o que Portugal está a fazer e, até agora, muito bem”. E acrescentou ainda uma nota de intimidação contra a resistência dos trabalhadores e do povo: “Quanto maior for a determinação e consenso nacional nesses países, mais será evidente a solidariedade dos países europeus com Portugal».
Coube a Passos Coelho a formulação mais sincera, e também a mais indigna. Disse aos participantes: “aqueles (os ”gestores de topo”) que já vendem Portugal no estrangeiro podem ajudar a reforçar a imagem do país”.
É gente desta que anda a apelar à auto-estima do país.
O país só terá verdadeira auto-estima quando correr com eles de vez.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2006, 10.05.2012

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