O circo mediático

Agostinho Lopes    01.Jun.21    Outros autores

A forma como a comunicação social dominante aborda a actividade da Comissão de Inquérito ao Novo Banco é tudo menos inocente. A empolada e persistente focagem nos “devedores”, no nome e crimes dos devedores, é uma questão decisiva para absolver o sistema capitalista e em particular a sua versão neoliberal e financeira, “esquecer” as políticas de direita e eliminar as responsabilidades políticas de PS, PSD e CDS, dos seus governos e grupos parlamentares, bem como dos supervisores.

O “circo mediático” em torno da Comissão de Inquérito ao Novo Banco (CI) é um retrato de alta definição da comunicação social dominante. Com poucas excepções. Não parece ter razão Pacheco Pereira (PP) quando se interroga no “Público” (22MAI21): “Porque há tanta indiferença face aos grandes devedores?” Bem pelo contrário, a focagem bem vincada e empolada nos “devedores”, no nome e crimes dos devedores, é uma questão decisiva para absolver o sistema capitalista e em particular a sua versão neoliberal e financeira, “esquecer” as políticas de direita e eliminar as responsabilidades políticas de PS, PSD e CDS, dos seus governos e grupos parlamentares, bem como dos supervisores.

São paradigmáticos os textos no “Expresso”, no “Jornal de Negócios”, no “Público”, entre outros. A primeira e habitual justificação para o que sucedeu passa pela adjectivação do capitalismo. Isto só acontece com “o capitalismo de compadrio”. A que se junta a inevitável idiossincrasia de ser o “nosso capitalismo”, “uma arte portuguesa”. Mas a manipulação mais frequente é a sua atribuição a “maus capitalistas”, a “falsos capitalistas”, a uma “estirpe (tal e qual um vírus) de supostos capitalistas”.

Tem razão o PP quando refere que “estes homens” (os empresários “maus”) são os que hoje são atirados às feras, que periodicamente precisam de ser alimentadas com os “maus” para não irem comer os “bons”. Como existiria o sistema sem os “bons” empresários!? E a aflição desencadeada pela audição dos grandes devedores/”maus empresários” foi tão grande que o director do “Expresso”, aflito, sugere que os “bons empresários” também devem ser ouvidos na CI, não vá o povo julgar que só há “maus”! Descobriu mesmo um que pagou tudo até ao último cêntimo! E até descobriu “os que criam fundações com objectos sociais nobres e obra feita” (?) e não para fugir a impostos através de paraísos fiscais (atenção Holanda vais perder clientes nacionais!).

Estes “empresários maus” têm uma outra vantagem. Fazem desaparecer as políticas que proporcionaram, facilitaram e incentivaram todas as manigâncias que vieram a público na CI. Nomeadamente, as privatizações e as liberalizações dos bancos e mercados financeiros; a reconstituição de poderosos grupos económicos privados e, por essa via, a subversão do princípio constitucional de subordinação do poder económico ao poder político; as políticas que liberalizaram a circulação de capitais e fizeram dos paraísos fiscais e sociedades offshores um sistema “legal”, fora do controlo dos estados.

E servem igualmente para ocultar a responsabilidade da União Europeia (UE) e Zona Euro, no caminho para uma União Bancária, por um Banco de Portugal reduzido a notário dos bancos alemães e franceses. Fruta podre de políticas nacionais subservientes à UE e ao euro, responsáveis igualmente pela condução dos processos e modelos de resolução de BES e venda do Novo Banco, conforme os interesses do grande capital nacional. E é claro que se foram os “caloteiros”, “a elite podre” os responsáveis pelo desastre do BES/Novo Banco, então PS, PSD e CDS estão absolvidos. Quando muito a responsabilidade é de governos que já lá vão… Não se absolvam os caloteiros e seus comparsas! Mas veja-se a floresta em toda a sua extensão e ramificações e não apenas as árvores de mais perto, que, aliás, fazem parte da floresta!

Fonte: “Jornal Económico”, 28-05-2021

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