O declínio do dólar… e dos Estados Unidos - As grandes potências e o embuste global

Jorge Beinstein*    28.Ene.07    Colaboradores

Os EUA há muito entregam dólares de valor futuro incerto a troco de bens e serviços. Todos os países o sabem, mas sem este decisivo cliente mundial, “a crise de sobreprodução crónica que o capitalismo mundial sofre há mais três décadas converter-se-ia num desmoronamento imparável” (…) Qual é a solução? Nenhuma”, todos o sabem: a crise é estrutural e as guerras do Afeganistão e do Iraque, não só não deram o domínio do petróleo do Médio Oriente aos EUA, como agravaram a crise.

Desde o princípio de 2002, o dólar iniciou uma descida que prossegue e que, segundo a maior parte dos especialistas, agravar-se-á nos próximos meses. O declínio arrancou pouco tempo depois dos atentados (ou auto-atentados) do 11 de Setembro de 2001, ou seja, quando do lançamento da ofensiva belicista global dos Estados Unidos. Há uma relação causal, naturalmente, entre a decadência económica do império e a tentativa desesperada dos seus dirigentes para a travar através de vitórias militares sucessivas na Ásia Central e Médio Oriente. Se esta estratégia tivesse tido êxito aquela superpotência controlaria hoje a maior parte da franja euro-asiática que se estende desde os Balcãs até ao Paquistão, atravessando a Turquia, a bacia do Mar Cáspio, o Iraque e o Irão, dominando assim cerca de 70 por cento dos recursos petrolíferos mundiais. O que teria permitido assegurar a sua hegemonia financeira internacional, simbolizada pelo reinado universal do dólar.

Mas a aventura fracassou e hoje os norte-americanos estão encurralados no Iraque e no Afeganistão, enquanto a sua influência na Eurásia se vai reduzindo.

Andre Gunder Frank considerava que o poder dos Estados Unidos assenta sobre dois pilares decisivos: o dólar e o Pentágono, o primeiro (a hegemonia financeira) sustentando o segundo e este último impondo os privilégios económicos do Império. Esta dupla fortaleza predominou desde o fim da Segunda Guerra Mundial e teve o seu auge no período entre 1945 e 1971, ano em que a Casa Branca, ameaçada pelas reservas de dólares das outras potências industriais, decidiu liquidar a conversão de dólares em ouro.

A partir desse momento desenvolveu-se uma etapa monetária turbulenta, onde o dólar continuou a reinar no planeta graças a um jogo perverso acordado pelos países ricos e que culmina agora com um «empapelamento» global que pode conduzir a uma sucessão incontornável de crises financeiras.

O declínio do dólar

A partir de 1971, o dólar deixou de ser a moeda de uma superpotência económica ascendente para se tornar dinheiro-papel emitido por uma economia que ia perdendo competitividade e cuja produção petrolífera tinha entrado em declive. O seu consumo continuou no entanto a crescer e consequentemente as suas importações, transformando-a no principal mercado internacional. Europeus, japoneses, sulcoreanos e mais recentemente chineses encontram nos compradores norte-americanos clientes cuja procura, pelo seu volume, não pode ser substituída.

Alguns indicadores ilustram bem a decadência da economia norte-americana. Em primeiro lugar o défice comercial que, passando de valores modestos em meados dos anos 70 para mais de 700 milhões de dólares em 2006, levou a que neste último ano por cada dólar de bens exportado se importasse dois.

Numa primeira abordagem ao tema poder-se-á distinguir dois factores. Por um lado, a espiral ascendente de gastos públicos e privados, em que se combinavam o consumismo próprio de uma sociedade privilegiada com a expansão do aparelho militar e outras distribuições parasitárias. Por outro lado, a perda de competitividade industrial, o atraso relativo ao nível das inovações produtivas. Ambos os processos fazem parte, porém, de um fenómeno mais amplo de decadência cultural que inclui também a degradação institucional, a crescente apatia da população face ao sistema político representativo, o aumento da criminalidade, etc.

Um segundo indicador de deterioração é a redução do saldo entre as receitas dos negócios norte-americanos no exterior e as dos negócios estrangeiros nos Estados Unidos, saldo que no passado compensava em parte os défices comerciais. Em 2006, contudo, e pela primeira vez em noventa anos, este valor foi negativo.

Em terceiro lugar, e como resultado da evolução dos indicadores anteriores, o défice da conta corrente cresceu vertiginosamente: 140 milhões de dólares em 1997, 389 mil milhões em 2001… 834 mil milhões em 2006.

Um quarto indicador é o crescimento do défice fiscal, que passou de 2.800 milhões de dólares em 1970 a 74 mil milhões em 1980, 240 mil milhões em 2000, até alcançar em 2005 os 430 mil milhões. A descida da produção foi compensada com uma avalanche de défices e dívidas que sustentaram a expansão do mercado norte-americano. O resto do mundo abriu-lhe o canal do crédito indefinido, entregando mercadorias e serviços a troco de papéis (dólares, títulos públicos, acções, dívidas empresariais, etc.); a nível interno, sucessivas ondas de créditos ao consumo e ao investimento, alimentadas sobretudo a partir de meados dos anos 90, por «bolhas» especulativas, que aumentaram o poder de compra dos norte-americanos.

Simultaneamente, a poupança pessoal descia. A parte dos depósitos destinados à poupança, que historicamente representava entre os 7% e os 8%, desceu para os 4,3% em 1998, para cair nos 2,4% em 2003, 2% em 2004 e valores negativos em 2005 e 2006 (respectivamente -04% e -1%).

No início da década actual, quando a bolha da bolsa rebentou, era evidente que a hegemonia financeira dos Estados Unidos tinha chegado a um ponto crítico.

A enorme desproporção existente entre o declínio do seu potencial produtivo e a massa de papéis-dólar em circulação no mundo (dólares reais e toda a espécie de papéis «dolarizados») começou a provocar os primeiros abalos na moeda norte-americana, que rapidamente se traduziram pela queda irresistível do seu valor em relação ao ouro e às outras divisas fortes, o euro e o yen.

O Governo de Bush respondeu impulsionando uma nova bolha especulativa baseada nos negócios imobiliários, a maior da história: inundou a economia com créditos baratos e reduziu os impostos dos ricos, o consumo e o Produto Interno Bruto cresceram a altos ritmos. Voltava a prosperidade… por quanto tempo? Ao mesmo tempo, a Casa Branca acentuou a tendência para a militarização, os gastos militares, que aumentavam desde a era Clinton, sofreram um forte incremento e, consequentemente, aumentaram o défice fiscal e o endividamento público

Os Estados Unidos tinham procurado travar o seu declínio por meio de uma louca fuga para a frente, expandindo o consumismo sem uma retaguarda produtiva interna e desenvolvendo uma desmesurada agressão imperialista na Ásia. Mas esta dupla aposta viu-se rapidamente encurralada pela sua própria debilidade estrutural, a aventura apoiava-se numa montanha de papel, na acumulação de dívidas de todo o tipo e nas reservas chinesas, japonesas e europeias de dólares, ou seja, em créditos concedidos ao império por esses países. Enquanto à superfície a festa militar e consumista aturdia o planeta, no fundo do sistema global ruía o reinado financeiro norte-americano.

Até meados da década actual, os dois pilares do império começaram a desmoronar-se ao mesmo tempo: desastre no Iraque e degradação do dólar.

Parasita ou lixeira?

O argumento corrente é que os Estados Unidos parasitam sobre a economia mundial, entregando dólares de valor futuro incerto a troco de bens e serviços. Mas a pergunta chave é: por que razão aceitam os japoneses, europeus, chineses, sulcoreanos e outros essa fraude?

A minha resposta é que tal «fraude» não existe e que, na realidade, o gigante doente está a ser engordado por esses países porque é o seu cliente decisivo. Sem ele, sem o seu consumo, sem o seu espaço de negócios, a crise de sobreprodução crónica que o capitalismo mundial sofre há mais de três décadas converter-se-ia num desmoronamento imparável. Um terço das exportações chinesas vai para os Estados Unidos e outro tanto para países asiáticos, cuja capacidade de pagamento depende estreitamente das suas exportações para a superpotência. Os outros países industrializados ou emergentes da Ásia, como o Japão ou a Coreia do Sul, têm uma dependência idêntica. A União Europeia, especialmente os países que a lideram, apresentam uma interpenetração industrial, comercial e financeira com o Império de tal dimensão que o seu destino está intimamente ligado a ele.

Em síntese, o parasita é na realidade uma enorme lixeira de bens, serviços e fundos e a decadência norte-americana não é outra coisa que a cara visível da decadência global do capitalismo.

O dólar, ou melhor dizendo o instrumento de «pagamento» da economia (deficitária) norte-americana, é a peça essencial de todo o embuste. A sua queda demasiado rápida provocaria uma contracção geral das importações dos Estados Unidos e do seu nível de rentabilidade interna (em relação às outras divisas), comprimindo directamente tanto as vendas como os investimentos de esses países no Império.

Além disso, essa descida provocaria a hiper-revalorização do yen e do euro, o que reduziria de maneira significativa as exportações da União Europeia e do Japão, com fortes impactos recessivos em ambas as potências. A China seria também negativamente afectada.

Todos estes países tratam portanto de sustentar o dólar, mas à medida que a economia norte-americana se vai debilitado (processo inevitável a médio ou longo prazo), devem tomar algumas precauções, ainda que não seja muito o que podem fazer. Os europeus estão apenas a prolongar a agonia porque sabem que o desenlace fatal prejudicá-los-á duramente. Os japoneses fazem o mesmo e os chineses tentam timidamente diversificar (desdolarizar) as suas megas-reservas, cientes de que se desdolarizam rapidamente podem provocar uma catástrofe financeira global que também os prejudicará. Chegaram todos à conclusão de que não podem ficar indefinidamente no reino do dólar, mas sabem também que não podem deixá-lo de um dia para o outro. Qual é a solução? Nenhuma (embora alguns esperem, sem o dizer, que com o passar do tempo surja alguma saída).

Por isso avaliam cada movimento com extrema prudência, intensificam as consultas entre si, espoliam-se mutuamente, dão-se golpes baixos, ajudam-se…

Sombras ameaçadoras

Contudo, para além dos subterfúgios das grandes potências, existem fenómenos que determinam a conjuntura e sobre os quais os estados dos países ricos têm uma influência limitada. Principalmente o processo de financeirização que foi avançando nas três últimas décadas e que pode em qualquer momento produzir acontecimentos catastróficos.

Pensemos, por exemplo, na especulação com «derivados», articulações complexas de negócios que se expandem vertiginosamente e que, segundo o Banco de Basileia, contabilizado o seu volume global estaria a aproximar-se dos 400 milhões de milhões de dólares (equivalente a quase dez vezes o Produto Bruto Mundial), prestemos atenção à sobre-acumulação de reservas (quase totalmente dolarizadas) nos países periféricos, que já ultrapassa os 3200 milhões de milhões de dólares, mas vejamos também o tamanho da «bolha» imobiliária global, equivalente ao Produto Bruto dos países ricos.

Algumas destas massas financeiras são relativamente controláveis, por exemplo as reservas, mas outras são muito menos, caso dos negócios com «derivados» ou da especulação imobiliária.

O dólar decai (gradualmente por enquanto) e aparecem os primeiros sinais de desconfiança sobre as moedas «fortes», como o yen ou o euro, cujas economias de retaguarda (Japão e União Europeia) estão estreitamente ligadas à dos Estados Unidos. Isso incita os especuladores a diversificar os seus negócios e a um «curtoprazismo» maior, mas também, em alguns casos, (cada dia mais numerosos) a procurar valores de refúgio, como por exemplo a especulação sobre o ouro, cujo preço tem vindo a subir desde o princípio da década actual, aproximando-se, em alguns momentos, do seu mais alto nível histórico (alcançado em 1980, com um pouco mais de 800 dólares a onça). Até onde poderá chegar o preço do ouro se apenas uma pequena porção da massa especulativa global se virar para esse metal?

Certamente uma tal euforia do ouro desencadearia outras euforias, precipitando uma turbulência internacional difícil de imaginar.

Mas a financeirização não é o único problema, a questão do esgotamento dos recursos energéticos não renováveis é igualmente grave. Como sabemos, as quatro principais potências industriais (Estado Unidos, União Europeia, Japão e China) são preocupantemente deficitárias em matéria energética, a sua expansão irá provavelmente desacelerar devido ao inevitável arrefecimento da economia norte-americana mas, mesmo com um baixo crescimento, irão continuar a sua pressão sobre as reservas energéticas globais (esgotando-as): o preço do petróleo, por exemplo, continuará a subir, ainda que em certos períodos com ritmos menos gritantes. E um esgotamento provoca outro, porque o desenvolvimento dos biocombustíveis tendente a compensar o declínio da produção petrolífera apropria-se das terras férteis, actualmente utilizadas na produção de alimentos, que sofrerá assim um impacto negativo. A «solução científica» para o problema é aumentar em ambos os casos a produtividade por hectare cultivado com a aplicação intensiva de transgénicos (e degradação a médio prazo da terra agrícola).

A crise financeira (simbolizada pelo declínio do dólar) – manifestação de uma crise crónica de sobreprodução global – e o esgotamento de recursos produtivos (crise de subprodução) juntam-se para marcar o aparecimento de um fenómeno sem precedentes na história da civilização industrial.

O declínio do dólar não é só o da moeda, mesmo que se trate da moeda global dominante. Se assim fosse as superpoderosas instituições financeiras dos países ricos poderiam impor alguma alternativa para o superar, naturalmente através de disputas ferozes entre as grandes potências. O que está em crise é a totalidade do sistema monetário mundial, incluindo o dólar e as outras divisas «fortes», expressão de uma crise-decadência estrutural alimentada por (e alimentando) desajustes que se vão agravando.

jorgebeinstein@yahoo.com

* Economista, Professor na Universidade de Buenos Aires

Tradução de Margarida Folque

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