O desafio e o fardo do tempo histórico*

Istvan Mezaros**    30.Ene.08    Colaboradores


O trabalho de István Meszaros que hoje publicamos é a Introdução do seu livro « O Desafio e o Fardo do Tempo Histórico», cuja edição em português acaba de ser lançada pela Editora Boitempo, de São Paulo, Brasil. Nessa obra, o eminente marxista húngaro ,nosso amigo e colaborador especial, move-se entre a economia politica, a teoria social e a filosofia para esboçar estratégias de ruptura com o capitalismo. A partir de uma análise lúcida do presente, o autor conclui que a única alternativa à barbárie capitalista será um socialismo de contornos a definir após a aniquilação pelos povos do monstruoso sistema do capital.

INTRODUÇÃO

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Este livro é dedicado à memória de três grandes seres humanos do século XX, Antonio Gramsci, Artila József e Che Guevara: setenta anos após a morte trágica dos dois primeiros e quarenta anos após a execução do terceiro. Pois, contra todas as probabilidades, desafiando inexoravelmente as trágicas consequências que se tinha de sofrer, eles enfrentaram os permanentes desafios de uma época dilacerada pela sucessão de crises extremas e carregaram o fardo de seu tempo histórico aos últimos limites. Tempo ao qual foram confinados pelas circunstâncias mais desfavoráveis que, contudo, foram capazes de transcender, graças a seu compromisso exemplar e a sua visão perspicaz, em direção à perspectiva conscientemente adotada do único futuro viável – socialista – da humanidade, que defenderam apaixonadamente.

Gramsci, József e Che foram testemunhas da crise, cada vez mais profunda, da ordem social do capital no decorrer do século XX. Tinham plena consciência da intensidade sem precedentes dessa crise que começava a ameaçar a própria sobrevivência da humanidade. Em primeiro lugar, pela violenta tentativa fascista e nazi-fascista de redefinir as relações de poder político/militar internacionais e, posteriormente, nos anos finais de Che, pelo novo e agressivo desígnio, manifestado pelo imperialismo hegemônico global dos Estados Unidos, de dominar permanentemente a ordem mundial.

Todos os três percebiam claramente que somente a mais radical transformação societária, capaz de instituir uma verdadeira mudança de época, poderia oferecer uma saída da perigosa sucessão de crises que caracterizou o século XX como um todo. Essa mudança de época tornou-se necessária porque a ordem estabelecida prosseguiu produzindo destruição por todo o mundo, sem ter em vista um fim ao conflito de interesses devastador. Nem mesmo o terrível derramamento de sangue de duas guerras mundiais foi capaz de fazer a mais sutil diferença aos antagonismos subjacentes.

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Che compreendeu bem que a questão literalmente vital não era simplesmente de qual país particular procurava impor à humanidade os sofrimentos e os sacrifícios mais horrendos sob as circunstâncias históricas predominantes. Pois, com relação a isso, o papel do agressor poderia ser transferido da derrotada Alemanha nazista de Hitler ao antagonista capitalista vitorioso, os Estados Unidos. O que era realmente decisivo à questão não eram as contingências históricas mutáveis, e por vezes até mesmo reversíveis, mas as necessidades estruturais subjacentes. Em outras palavras, o fator decisivo de extrema importância era a natureza incorrigível do controle sociorreprodutivo do capital que não poderia encontrar solução para seus próprios antagonismos sistêmicos insuperáveis. Consequentemente, sob as condições do desenvolvimento imperialista monopolista, a potência esmagadoramente dominante – se não uma particular, então outra – tinha de tentar impor sua força (se necessário, na forma mais violenta, independentemente das consequências) sobre seus adversários reais ou potenciais.

É por isso que, na visão de Che, a luta contra o imperialismo norte-americano — na qual sacrificou heroicamente sua vida — era inseparável de uma inflexível dedicação ao estabelecimento de uma nova ordem social positivamente sustentável e historicamente viável em escala global. Essa era a única maneira plausível de enfrentar o desafio de nosso tempo histórico, aceitando o fardo da responsabilidade que dele emerge. Pois apenas a fundação positiva da nova ordem social visada poderia fornecer a garantia necessária contra a renovação, no fururo, dos antagonismos cada vez mais destrutivos. Assim, não poderia haver em absoluto nenhum tempo a perder. O dedicado trabalho voltado ao assentamento dos alicerces de tal ordem social genuinamente cooperativa, combatendo a difusão ubiquamente promovida do antivalor pela ordem estabelecida, tinha de começar no presente imediato, com a consciência clara de que nada menos do que a própria sobrevivência da espécie humana estava em jogo naquele perigoso momento da história.

Nesse espírito, apelando a nossa consciência da humanidade, Che se dirigiu ao povo durante seus anos em Cuba:
É preciso ter uma grande dose de humanidade, uma grande dose de sentido de justiça e verdade para não cair em dogmatismos extremos, em escolasticismos frios, no isolamento das massas. É preciso lutar todos os dias para que esse amor à humanidade viva se transforme em fatos concretos, em atos que sirvam de exemplo de mobilização. [1] . 1

Che compartilhava integralmente com Gramsci e József essa linha de abordagem que asseverava a necessidade vital de manter um compromisso intenso com os valores duradouros da humanidade, sob as circunstâncias da ameaça cada vez mais escancarada da barbárie. No tempo de Gramsci, os promotores da ascendente ameaça fascista não só denunciaram repetidas vezes em público o líder político italiano da resistência, que apaixonadamente elevava sua voz em nome da humanidade contra o fascismo, como também o prenderam cruelmente durante os melhores anos de sua vida, até que se tornasse um moribundo.

Foi totalmente irônico, na melhor das hipóteses, que os defensores da ordem vigente prometessem, em meio à Primeira Guerra Mundial, que os sacrifícios ali sofridos destinavam-se a “bem com todas as guerras”. Contudo, imediatamente prosseguiram-se os preparativos mais sinistros para um confronto ainda mais pernicioso, reunindo forças no período seguinte à “Grande Crise Econômica Mundial”, de 1929 a 1933. Esses preparativos foram levados a cabo pelos partidos rivais como sua garantia auto-enganadora contra a possibilidade de afundar ainda em outra crise econômica oniabrangente. A lógica perversa do capital tornou-lhes impossível compreender as desastrosas implicações de longo alcance do curso de ação que seguiam cegamente.

Por certo, os preparativos para a nova guerra trouxeram seu fruto suficientemente cedo, eclodindo em 1939 em um conflito armado global que duraria seis anos. Imediatamente antes da deflagração da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos estavam, de fato, a caminho de uma outra recessão severa, não obstante as tentativas de recuperação levadas a cabo pelo New Deal de Roosevelt. Mas seu envolvimento militar e industrial ativo na guerra rapidamente reverteu essa tendência, trazendo ao país uma expansão econômica antes inimaginável. Entretanto, o fato de os Estados Unidos terem emergido da guerra como a potência econômica de longe mais poderosa não resolveu nenhuma das contradições fatais do sistema do capital. Apenas proporcionou aos Estados Unidos a esmagadora vantagem de assumir no devido tempo, de um modo ou de outro, o papel de dominador imperialista antes exercido pelos impérios coloniais inglês e francês, ao mesmo tempo consignando ao esquecimento as potências coloniais menores, como Portugal e Holanda. Assim, sob a promessa fundamental¬mente falsa do fim do imperialismo e o suposto início da nova era de democracia e liberdade universalmente benéfica, bem como plenamente igualitária, o país com o maior arsenal militar de destruição, capaz de exterminar facilmente a humanidade em questão de horas, assentou sua pretensão de dominar o mundo, em primeiro lugar, durante o chamado “Século Norte-Americano” – o século XX –, e, em seguida, anunciou ainda sua firme determinação de também exercer seu domínio no decorrer do autodecretado “Milênio Norte-Americano” que temos à frente.

Gramsci e József morreram muito antes de os Estados Unidos assumirem o papel de potência hegemônica imperialista global. Mas Che já seguira, de maneira apaixonada e perspicaz, o desdobramento da Guerra do Vietnã, que apontava nessa direção. Pois, na Guerra do Vietnã, os Estados Unidos tentaram impor sua força militar esmagadora sobre uma área antes dominada pelos franceses, na esperança de estabelecer com isso uma cabeça-de-ponte inatacável para suas aventuras futuras ao serviço da dominação global. Isso era parte do mesmo desígnio imperial em que os Estados Unidos estão hoje engajados no Oriente Médio, enquanto prenunciam estender sua agressão militar no futuro “indefinido”, como eles dizem, também contra os países do “Eixo do Mal” arbitrariamente denunciado, sempre que esse tipo de ação se adequar a sua conveniência “preempriva”, ameaçando usar, a serviço desse fim – autoproclamado como “moralmente justificado” –, armas nucleares até mesmo contra potências não-nucleares.

No tempo de seu encarceramento, o Procurador Fascista Italiano, inspirado por Mussolini – o antigo editor vira-casaca do jornal socialista – escreveu com brutal cinismo:
“Temos de impedir por vinte anos que esse cérebro funcione” [2] 2. Esperava destruir o espírito de Gramsci e com isso tornar impossível a difusão de suas idéias. Em lugar disso, sob condições de inacreditável miséria, privação e mesmo de grave enfermidade sofridas na cadeia de Mussolini, Gramsci produziu seus Cadernos do cárcere, uma obra magnífica cuja influência permanecerá por longuíssimo tempo. Com efeito, tempo suficiente para conseguir dizer que o poder do capital foi irreparavelmente relegado ao passado, no espírito com que Gramsci o entrevia.

No mesmo período em que Gramsci teve de confrontar e suportar as desumanidades do fascismo, também o poeta socialista húngaro, József – que percebeu com sua visão profunda e sagaz as perspectivas devastadoras da vindoura aventura militar nazi-fascista global – colocou no centro de inúmeros de seus poemas sua fervorosa preocupação com o destino da humanidade, tentando soar o alarme contra a barbárie que se desdobrava e sublinhando que:

novas infâmias se erigem para pôr umas contra as outras as raças.
A opressão grasna em esquadrões, pousa sobre o coração vivo, como sobre pútrido cadáver – e a miséria babuja por todo o mundo, como saliva na face dos idiotas. [3] 3

E, em um poema dirigido a Thomas Mann, que fazia naquele momento a leitura de uma passagem de sua obra em um encontro público na Hungria, József escreveu:

Ainda ontem enterramos o pobre Kosztolányi [4] 4
e, como o câncer abriu em seu corpo um abismo,
Estados-Monstro roem sem trégua o humanismo.
Que mais virá, perguntamos– as almas plenas de horror –,
de onde nos incitam novas idéias-hienas?
Fervem novos venenos que querem infiltrar-nos?
E até quando haverá um lugar em que possas nos falar? [5] 5

Os apologistas do capital fizeram – e continuam a fazer – tudo o que puderam para obliterar a consciência do povo quanto ao tempo histórico, no interesse de eternizar seu sistema. Somente aqueles que têm um interesse vital na instituição de uma ordem social positivamente sustentável e, assim, em assegurar a sobrevivência da humanidade, podem realmente apreciar a importância do tempo histórico nessa conjuntura crítica do desenvolvimento social. Gramsci, na época em que já estava gravemente doente na prisão, prosseguia repetindo “O tempo e a coisa mais importante e um simples pseudônimo da vida” [6] 6. Os defensores da ordem vigente jamais poderiam entender o significado de suas palavras. Para eles, o tempo só pode ter uma dimensão: a do eterno presente. O passado para eles não é nada mais do que a projeção pregressa e a cega justificação do presente estabelecido; e o futuro é apenas a extensão autocontraditória atemporal da “ordem natural” do aqui e agora – por mais destrutiva, e, por conseguinte, também autodestrutiva – encapsulada no ditado reacionário e negligente, constantemente repetido, segundo o qual não há alternativa. Perversamente, supõe-se que isso deva resumir o futuro.

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Se as pessoas em geral realmente aceitassem essa concepção do tempo que faz a apologia do capital, afundariam inevitavelmente no abismo sem fundo do pessimismo. Gramsci, mesmo quando sofria pessoalmente a maior das misérias, e ao mesmo tempo percebia a proximidade da catástrofe nazi-fascista para a humanidade, recusou-se absolutamente a se render ao extremo pessimismo. Não obstante as nuvens mais negras que por toda parte cobriam o horizonte, ele rejeitou vigorosamente a idéia de que se devesse permitir que o pessimismo subjugasse a vontade humana, por mais desfavoráveis que pudessem ser as tendências e as circunstâncias visíveis, como eram indubitavelmente no momento. Adotou como uma de suas máximas as palavras de Romain Rolland, que falou sobre “o pessimismo da razão e o otimismo da vontade” [7] 7.

A convicção de Gramsci, que predica o “otimismo da vontade”, representou e representa a determinação irreprimível de uma força social radical de superação das tendências destrutivas de desenvolvimento, inspirada por uma visão sustentável do futuro e que desafia a relação de forças estabelecida. As “personificações do capital” estão mais do que felizes por glorificar o eterno presente em que não há alternativa, iludindo-se — apenas porque dominam a sociedade com todos os meios que têm à sua disposição – com a crença de que o próprio processo histórico já terminou. Até mesmo pontificam sobre o feliz “fim da história” neoliberal em miscelâneas propagandísticas pseudo-acadêmicas amplamente promovidas, à la Fukuyania, pregando de bom grado a si mesmos – os convertidos – a consumação da história para sempre livre de conflitos, enquanto empreendem guerras genocidas.

Entretanto, o tempo dos oprimidos e explorados, com sua dimensão vital do futuro, não pode ser obliterado. Tem sua própria lógica de desdobramento, como o tempo histórico irreprimível de nossa época de tudo ou nada. Somente a destruição total da humanidade pode pôr-lhe um fim. Esse tempo potencialmente emancipatório é inseparável da ação social capaz de asseverar por meio de sua luta o “otimismo da vontade” de Gramsci, a despeito de toda adversidade. Esse é o tempo histórico real do presente e do futuro que aparece em um dos poemas de József:

O tempo está erguendo a névoa, para que vejamos melhor nosso cume.
O tempo está erguendo a névoa, trouxemos o tempo conosco,
trouxemos com nossa luta, com nossa reserva de miséria. [8] 8

Nada e ninguém podem subjugar ou destruir esse tempo que ajuda a fazer os explorados e os oprimidos adquirirem consciência dos delineamentos de uma sociedade futura radicalmente diferente. Não pode haver ilusões quanto à árdua escalada que se deve empreender para alcançar esse cume. Pois o tempo presente, desumano, alienante e unidimensional da ordem sociorreprodutiva do capital ainda detém o controle da situação. Ele é retratado por József com grande força evocativa em outro de seus poemas:

Este tempo presente,
é o dos generais e banqueiros.
Forjado frio, reluzente
cutelo-tempo.

O céu gotejante está blindado.
A geada perfura, oprime o pulmão
e o peito nu por trás dos farrapos.
Em pedra de amolar chia o tempo.

Por trás do tempo, quanto pão silencioso
e frio!, e caixas de lata,
e um montão de coisas geladas.
Vitrine-vidro-tempo.

E os homens gritam: Onde está a pedra?
Onde o gelado pedaço de ferro?
Lança-o! Faz em migalhas! Penetra!
Que tempo! Que tempo! Que tempo! [9] 9

Mas, seja como for, o eterno presente do capital, com seu “tempo gelado de vitrine”, não pode em absoluto varrer a aspiração da humanidade pelo estabelecimento de uma ordem social historicamente sustentável enquanto houver opressão e exploração no mundo. No momento em que estas forem irreparavelmente consignadas ao passado, como cumpre que sejam para que a humanidade sobrevive, o próprio sistema do capital deverá ser apenas uma má lembrança.

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O capital não pode tolerar limitações a seu próprio modo de reprodução sociometabólica. Por conseguinte, considerações sobre o tempo lhe são completamente inadmissíveis, caso demandem a restrição de seu incontrolável imperativo de expansão. Não pode haver nada isento desse imperativo. Nem mesmo quando as consequências devastadoras já são patentemente óbvias tanto no campo da produção como no terreno da ecologia. A única modalidade de tempo em que o capital pode se interessar é o tempo de trabalho explorável. Isso se verifica mesmo quando a exploração cruel do tempo de trabalho se torna um anacronismo histórico, em virtude do desenvolvimento potencial da ciência e da tecnologia a serviço da necessidade humana. Contudo, uma vez que o capital não pode contemplar essa alternativa, pois sua realização exigiria transcender as limitações fetichistas estruturais de seu próprio modo de operação, o capital se torna o inimigo da história. Essa é a única maneira pela qual o capital pode presumir desembaraçar-se de sua situação objetiva de anacronismo histórico.

Assim, o capital deve negar e aniquilar a história na sua visão do mundo, de modo que a questão da alternativa histórica a seu próprio domínio não deve sequer emergir concebivelmente, por mais anacrônico e perigoso – a despeito de toda a automitologia muito longe de ser economicamente eficiente – que seja seu controle de reprodução societária fundado na exploração do trabalho. Mas o problema é que a negação da história pelo capital não é um exercício ociosamente mental. É um processo prático potencialmente letal de acumulação ampliada do capital e concomitante destruição em todos os domínios, hoje até mesmo no plano militar.

Como sabemos, na fase ascendente de seu desenvolvimento o sistema do capital era imensamente dinâmico e, em muitos aspectos, também positivo. Somente com o passar do tempo – que trouxe objetivamente consigo a intensificação dos antagonismos estruturais do sistema do capital – este se tornou uma força regressiva perigosa. Se, entretanto, a ordem reprodutiva vigente não tem nenhum senso de tempo histórico, como, aliás, se verifica hoje, não pode sequer perceber a diferença, muito menos fazer os ajustes necessários de acordo com as condições transformadas.

A aniquilação da história é o único curso de ação plausível, inseparável da cegueira do capital ao futuro dolorosamente tangível que deve ser enfrentado. Eis porque o capital não tem alternativa ao abuso do tempo histórico. Sua máxima impiedosa segundo a qual não há alternativa é somente uma variante propagandística da negação geral da história correspondente à natureza recôndita do capital no estágio atual de nosso desenvolvimento histórico. Essa determinação do capital nem sempre se verificou, mas se tornou inalteravelmente presente. Assim, a única maneira de o capital se relacionar com a história em nosso tempo é abusar violentamente dela.

Temos aqui uma combinação óbvia de contingência histórica e necessidade estrutural. Se a humanidade tinha a suo disposição uma “infinidade de tempo”, então não se poderia falar de “abuso do tempo pelo capital”. A infinidade de tempo não poderia ser abusada por nenhuma força historicamente dada. Sob tais circunstâncias, a contínua expansão do capital seria um conceito quantitativo inofensivo, sem fim à vista. Mas a humanidade não tem a sua disposição uma infinidade de coisa alguma, como as personificações complacentes do capital absurdamente presumem, e certamente não a tem de tempo. Ademais, falar de uma infinidade de tempo histórico seria uma grotesca contradição nos termos.

Só a força mais insensível, desprovida de toda consideração humana, poderia ignorar as limitações do tempo. É isso que testemunhamos hoje de um modo característico. Nossa contingência histórica dada é o que ativa os limites estruturais insuperáveis - absolutos - do capital. São limites estruturais absolutos do sistema do capital que se tornam determinações destrutivas inclinadas a obstruir o futuro da humanidade. Nessa conjuntura da história, o capital não pode, sob nenhum aspecto, ser diferente do que efetivamente é. Eis como a necessidade estrutural do capital se torna fundida de modo devastador com sua contingência histórica brutalmente – mas totalmente em vão – ignorada. Isso ocorre precisamente porque o capital não tem, e não pode ter, a consciência do tempo histórico. Apenas aos sistemas sociorreprodutivos estruturalmente ilimitados é possível tê-la.

Consequentemente, não pode haver saída dessa armadilha destrutiva da humanidade sem erradicar o sistema do capital de seu controle há muito resguardado do processo sociometabólico.

No mesmo poema de que a epígrafe deste livro é extraída, József chama nossa atenção ao fardo do tempo histórico e à enorme responsabilidade que lhe é inseparável. Ele fala dos seres humanos que cumprem o grande desafio social e histórico de nossa época como “fiéis cumpridores das leis”, sublinhando que somente assim podemos nos qualificar para sermos herdeiros dignos do mandato que nos foi legado no decorrer do desenvolvimento histórico da humanidade. Ele tem plena consciência, como absolutamente se deve ter, tanto da continuidade histórica sobre a qual podemos erigir nosso futuro, como das diferenças vitais que cumpre instituir e consolidar devidamente no processo contínuo de transformação qualitativa. Eis as palavras do poeta:

a matéria real nos criou
despejando-nos ferventes e violentos
nos moldes desta
sociedade horrível,
para fincarmo-nos, pela humanidade,
no solo eterno.

Por trás dos sacerdotes, dos soldados e dos burgueses,
ao fim nos tornamos fiéis
cumpridores das leis:
por isso o sentido de toda obra humana
ressoa em nós
como um violão. [10] 10

A exigência vital de sermos “fiéis cumpridores das leis”, salientado por Jósef, não o se refere simplesmente às leis feitas pelos homens. Vale, sobretudo, para a lei absolutamente fundamental da relação da humanidade corri a própria natureza: o substrato objetivo de nossa própria existência. Esse tem de ser o fundamento último de todo o sistema de leis humanas. Contudo, essa é a relação que, em nosso tempo, vem sendo violada pelo capital de todas as maneiras possíveis, ignorando irresponsavelmente as conseqüências. Não é preciso ter uma apreensão profética para entender que a cruel violação da base natural da existência humana não pode continuar indefinidamente.

5
Por certo, as leis feitas pelos homens estão muitíssimo envolvidas no processo destrutivo geral. O apelo de József a nosso senso de necessidade inevitável e responsabilidade consciente - que exige que se cumpram fielmente as leis - também as inclui. É tudo uma questão de prioridade, concernente à relação entre o absoluto e o relativo. Deveria ser perfeitamente óbvio para nós qual dos dois deve ter a precedência. Só podemos inverter sua relação – absolutizando irresponsavelmente o relativo e relativizando negligente¬mente o absoluto – por nosso próprio risco.

Entretanto, o capital sempre operou com base nessa inversão. Pode-se dizer que o capital é “daltônico” com relação a isso. Não poderia operar de nenhuma outra maneira senão subvertendo essa relação vital em razão de sua natureza recôndita. Pois o capital sempre se definiu como o absoluto e tudo o mais em relação a essa autodeterminação primordial como o relativo dependente e dispensável. Com efeito, em um senti¬do positivo – enquanto era possível fazê-lo sem conseqüências destrutivas – esse modo de operação sempre foi o segredo de seu incomparável dinamismo e êxito, eliminando tudo o que encontrasse no caminho.

Além disso, na superficialidade não parece haver em absoluto nenhuma razão pela qual não devesse ser assim. Não há nada em princípio integralmente repreensível na destruição de determinadas partes ou formas da natureza por sua transformação em alguma outra coisa, ainda que somente em produtos combustíveis e desperdiça¬dos. Isso ocorre na própria natureza, de uma maneira ou de outra, o tempo todo. No entanto, o ponto é que no momento em que o capital, com seu dinamismo irrepreensível e não-problemático que tudo invade, apareceu no palco histórico, a margem de segurança de seu impacto objetivo sobre a natureza – independentemente da magnitude da destruição gerada por sua intervenção pródiga direta no processo metabólico – era tão imensa que as implicações negativas pareciam não fazer nenhuma diferença. lsso se verifica simplesmente porque o “momento da verdade” – que emerge necessariamente do intercâmbio entre a finitude de nosso mundo natural e certo tipo de controle reprodutivo (inalteravelmente, desperdiçador) – estava ainda muito longe de bater à porta. Eis o que proporcionou aos economistas liberais atitocomplacentes, mesmo no século XX, a espantosa ilusão de que seu sistema sempre se qualificaria à distinta caracterização de “destruição produtiva” (Schumpeter), quando na realidade já estava se tornando cada vez mais perigosamente infestado por sua tendência irreversível à produção destrutiva.

Como todos os valores, a produtividade e a destruição só obtêm seu significado no contexto humano, na relação mais estreita possível com as condições históricas relevantes. O que faz da destruição da natureza, que ora testemunhamos, um processo irredimivelmente – e no longo prazo catastroficamente – negativo é seu impacto último na vida humana como tal. Eis porque, sob as circunstâncias de nosso tempo, a absolutização pelo capital do relativo historicamente criado – o próprio capital – e a negligente relativização do absoluto (a base natural da própria vida humana) são muito piores do que jogar roleta russa. Pois carregam consigo a certeza absoluta da autodestruição humana no caso de o corrente processo de reprodução sociometabólica do capital não ser levado a um fim definitivo no futuro próximo, enquanto ainda houver tempo para tal. A subversão pelo capital da relação objetiva entre o absoluto e o relativo está conduzindo a humanidade na direção oposta, sem mesmo dar a chance casual de, no jogo de roleta russa, puxar o gatilho da arma algumas vezes antes do tiro fatídico estatisticamente provável.
Novamente, podemos ver aqui a perigosa combinação de contingência histórica e necessidade estrutural. A ampla margem de segurança original desapareceu para sempre. Nossa contingência histórica dada ativou irreversivelmente os limites estruturais do capital com uma vingança, transformando-os em determinações esmagadoramente destrutivas inclinadas a obstruir o futuro. A necessidade estrutural e a destrutividade voraz do sistema estabelecido estão agora inextricavelmente fundidas com sua anacrônica – mas, para o capital, inadmissível - contingência histórica. Pois o capital continua a negar, do alto de sua fictícia auto-absolutização, a possibilidade de ser historicamente superável.

O imperativo da instituição de um sistema sociorreprodutivo ilimitado no futuro previsível emerge dessas condições. E é desnecessário dizer que não pode haver futuro sem que se cumpram fielmente as leis. Mas, para ser capaz disso, é preciso estabelecer a prioridade adequada em nosso sistema geral de leis. As leis do capital foram sempre baseadas na falsa prioridade da inversão da relação entre o absoluto e o relativo, no interesse de absolutizar seu próprio domínio mesmo ao custo da destruição da natureza; da mesma maneira como o capital teve - e sempre terá – de negar seu caráter historicamente determinado para eternizar sua própria dominação do processo sociometabólico. A humanidade jamais precisou tanto e tão fielmente ouvir e observar as leis do que nessa conjuntura crucial da história. Mas as leis em questão devem ser radicalmente refeitas: trazendo a uma harmonia plenamente sustentável as determina¬coes absolutas e relativas das nossas condições de existência, de acordo com o inevitável desafio e fardo de nosso tempo histórico.

6

O século XX testemunhou não apenas a primeira grande tentativa de estabelecer uma sociedade pós-capitalista, mas também a implosão desse tipo de sociedade tanto na União Soviética, como por toda a Europa oriental. Não é surpreendente, pois, que os defensores acríticos da ordem social do capital celebrem essa implosão como o retorno saudável à sua ordem “natural” após um desvio errático. Eles têm agora a ousadia de postular a permanência absoluta das condições estabelecidas, não obstante todos os perturbadores sinais de instabilidade perigosa, ignorantes das crises econômica e ecológica que se aprofundam e da guerra, mais ou menos permanente, endêmica a seu sistema.

Seria extremamente ingênuo imaginar que a passagem da ordem sociometabólica de reprodução do capital a uma alternativa historicamente viável poderia ter lugar sem dolorosas contradições, e mesmo reincidências. Pois nenhuma transformação social em todo o curso da história humana exigiu uma mudança qualitativa nem mesmo remotamente comparável. Isso ocorre não apenas em virtude da escala quase impeditiva e da magnitude da tarefa, que envolve uma grande variedade de grupos nacionais interrelacionados - com sua longa história e suas tradições profundamente arreigadas, bem como interesses diversos - em um cenário verdadeiramente global. O que, além disso, é radicalmente diferente de todas as mudanças historicamente testemunhadas de uma formação social para outra – isto é, o componente “não negociável” da exigida transformação socialista – é a absoluta necessidade de superar permanentemente todas as formas de dominação e subordinação estrutural, e não apenas a sua variedade capitalista. Em nosso tempo, nenhuma “mudança de pessoal”, por mais bem intencionada no início, poderia sequer começar a cumprir a tarefa. Em outras palavras, a relação conflitual adversa* entre os seres humanos - que foi demasiado óbvia em toda a história conhecida – é o que deve ser positivamente suplantada pela criação e consolidação firmemente assegurada da nova ordem social. Do contrário, as contradições e antagonismos incontroláveis começarão mais cedo ou mais tarde a se avolumar rapidamente sobre os novos fundamentos estabelecidos, como realmente ocorreu nas sociedades de tipo soviético, minando-os e destruindo-os ao final.

Somente um engajamento crítico - e autocrítica - genuíno no curso da transformação histórica socialista pode produzir o resultado sustentável, proporcionando os corretivos necessários conforme as condições se modificarem e demandarem a resolução de seu desafio. Marx o evidenciou com ampla clareza desde o início quando insistiu que as revoluções socialistas não deviam esquivar-se de criticar a si mesmas “com impiedosa consciência” para que fossem capazes de alcançar seus objetivos emancipatórios vitais.

O século XX transformou significativamente a maneira como se deve apreender a advertência de Marx. Pois à luz de sete décadas de experiência prática extremamente custosa, o aviso marxiano original quanto à necessária crítica prática da própria ação – uma advertência que não poderia, em meados do século XIX, ser mais do que uma exortação muito geral – adquiriu uma urgência inevitável no movimento socialista. Pois, por um lado, dada a crise estrutural cada vez mais profunda de nossa ordem sociometabólica estabelecida, a instituição bem fundada da alternativa socialista é mais urgente hoje do que nunca, a despeito do ataque propagandístico autocomplacente da ideologia dominante, visível por toda parte. Mas, ao mesmo tempo, por outro lado, devido à pesada evidência histórica do desenvolvimento de tipo soviético, e dos imensos sacrifícios que se tiveram de suportar em suas longas décadas, ninguém pode negar hoje a necessidade de confrontar “com impiedosa consciência” os problemas que tendem a aparecer. Pois apenas pelo reexame socialista plenamente consciente e autocriticamente comprometido dos passos tomados com intenção emancipatória – tanto no passado como no presente - será possível tornar os fundamentos do socialismo no século XXI mais seguros do que se verificaram no século XX.

Todos os três grandes seres humanos a quem este livro é dedicado abordaram a tarefa histórica da transformação socialista nesse espírito crítico vital. Gramsci e József asseveraram firmemente sua crença na integralidade socialista implacável da mudança de época radical não somente contra o adversário de classe, mas mesmo quando tiveram de sofrer a incompreensão sectária de seu próprio lado. E Che não hesitou em proclamar com extrema clareza sua discordância de princípio com o curso de ação seguido na União Soviética - indicando profeticamente que o modo de proceder dessa nação apontava na direção da restauração capitalista - muito embora essa franca discordância carregasse consigo a rejeição ao próprio líder guerrilheiro, considerado um herege e mesmo um aventureiro. Como Fidel Castro sublinhou em uma de suas entrevistas:
Minha admiração e sentimento de solidariedade por Che cresceu à medida que vi o que acontecia no campo socialista, porque ele se opunha categoricamente à utilização de métodos capitalistas para a construção do socialismo […] [Os escritos [de Che] são de enorme valor e devem ser estudados, pois penso que o uso desses métodos e conceitos capitalistas tinha uma influência alienante naqueles países. Penso que Che teve uma visão profética quando, já nos primeiros anos da década de 1960, previu todos os retrocessos e conseqüências dos métodos empregados para construir o socialismo na Europa oriental.”

Dessa maneira, mesmo após a sua morte, as observações de advertência de Che exerceram uma influência essencial no período de retificação de Cuba. Para citar novamente as palavras apaixonadas de Fidel:
Teríamos caído no lamaçal da burocracia, do excesso de funcionários, de normas de trabalho antiquadas, no lamaçal do logro, da mentira. “teríamos caído riu um conjunto inteiro de maus hábitos com que Che teria realmente se horrorizado. Se dissessem a Che que um dia, sob a Revolução Cubana, havia empresas preparadas tara roubar com o intuito de fingir que eram lucrativas, ele teria ficado horrorizado. (…) Che teria ficado horrorizado se lhe dissessem que o dinheiro estava se tornando a preocupação das pessoas, sua motivação fundamental. Ele, que tanto nos advertiu contra isso, teria ficado horrorizado.”

Os inimigos fascistas de Gramsci não queriam apenas impedir por vinte anos que seu cérebro funcionasse, mas também impedi-lo de exercer qualquer influência na história. Como todos sabemos, fracassaram sob todos os aspectos. Igualmente, no caso de Che, seus algozes - o regime boliviano cliente do imperialismo dos Estados Unidos - pretendiam para ele o destino do esquecimento, procurando fazer desaparecer para sempre até seus restos terrenos. Mesmo nisso fracassaram miseravelmente. A influência de Che se mantém viva hoje não apenas em Cuba, mas por toda a América Latina – como vimos testemunha¬do por um dos movimentos sociais mais importantes do nosso tempo, o Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) - e além, inspirando a admiração e a solidariedade tanto das gerações mais velhas como de incontáveis jovens de todo o mundo.

Examinando as últimas décadas dos desenvolvimentos globais, a mudança na relação de forças predominante pareceria sem dúvida favorecer o capital. Isso se deve em grande medida não somente à capitulação ignominiosa de Gorbachev e seus seguidores na União Soviética, após seu engajamento na estratégia totalmente infundada de “reestruturar o socialismo” pela adoção da glasnost e da perestróica (que se verificaram ser a promoção ativa da restauração capitalista, seguida pelo mesmo tipo de implosão na Europa oriental), mas também a uma transformação capitulados similar nos maiores partidos comunistas da Europa ocidental, notavelmente o francês e o italiano. Assim, para tomar apenas o último, precisamente porque foi uma vez o partido socialista militante de Gramsci, as estratégias sonoramente proclamadas - mas, de novo, totalmente infundadas - do “caminho italiano ao socialismo” e do “grande compromisso histórico”, que prometiam melhor assegurar uma transformação socialista internacional futura, na realidade mostraram ser a capitulação sem reservas às forças imperialistas do capital internacional dominadas pelos Estados Unidos, sob a bandeira partidária dos chamados “Democratas de Esquerda”.

Contudo, quando observamos o que foi efetivamente alcançado, o quadro é muito diferente. E isso não é sob aspecto algum surpreendente. Pois nenhum resultado dura¬douro pode ser construído sobre a capitulação. Como os anais da história social, política e militar provam abundantemente, a capitulação jamais pode ser a base do desenvolvimento histórico sustentável. Só pode proporcionar um ganho unilateral e o correspondente intervalo temporário até que a próxima rodada de antagonismos irrompa no palco histórico, em uma escala crescente e afirmando-se com intensidade cada vez maior como uma regra. Uma vez que podia ser racionalmente mantida – na formulação do general Carl von Clausewitz – essa guerra era “a continuação da política por outros meios”. Mas o outro lado da mesma equação - concernente à reciprocidade fatídica da política e da guerra - jamais foi explicitada no passado, porque suas penosas implicações para a destruição total da humanidade não eram claramente visíveis. A saber: que a política (baseada no antagonisnno) era o arauto da guerra necessária, porque - em vista da natureza irresoluta dos próprios antagonismos - ela tinha de terminar na capitulação de um lado e em última instância na instabilidade explosiva do intervalo resultante.

Apenas uma racionalidade substancialmente fundada - em contraste com os “compromissos” efêmeros adquiridos em nome de “atos equilibrantes” violentamente impostos ou taticamente racionalizados - poderia indicar a saída desse círculo vicioso, pela elimina¬ção permanente de todas as formas de confitualidade/adversidade antagônica. O grande desafio e fardo do tempo histórico é que a conflitualidade/adversidade antagônica deve ser permanentemente consignada ao passado, a fim de deixar para trás, e para sempre também, o círculo vicioso fatídico – em nosso tempo inevitavelmente fatal – da guerra e da política, como é conhecido por nós até o presente. Isso significa a refundação radical da política sobre as bases de uma racionalidade substantiva e historicamente sustentável, para ser capaz de administrar conscientemente todos os assuntos humanos na escala global exigida. Eis porque a instituição viável do socialismo baseado no “tudo ou nada” do século XXI apareceu na agenda histórica com grande urgência, impondo a necessidade de confrontar os fracassos do passado “com impiedosa consciência”, bem como explorar todas as vias de cooperação positiva sobre a única base plausível da igualdade substantiva.

Nada se resolveu de maneira durável pela implosão do sistema de tipo soviético, tampouco, de fato, pelo colapso dos maiores e mais antigos partidos comunistas em todos os lugares do mundo. A tentação do trabalho de seguir a linha de menor resistência, favorecendo a ordem estabelecida do capital, sem dúvida desempenhou e continua a desempenhar um importante papel nesses desenvolvimentos. Isso ocorre porque o estabelecimento da ordem reprodutiva socialista, como uma alternativa viável à ordem existente, é um empreendimento histórico imenso. Mas a linha de menor resistência não assegurará o futuro do capital. Pois essa linha é incapaz de gerar algo que não sejam retornos cada vez mais exíguos ao trabalho, sob as circunstâncias presentes de nossa crise histórica cada vez mais profunda, e em última instância absolutamente nenhum retorno, conforme o componente destrutivo da ordem reprodutiva do capital se inclina a escapar do controle.

Quanto aos sucessos falsamente alegados do próprio capital em sua fase histórica de crise estrutural, vemos na realidade seus países dominantes engajados em guerras genocidas, enquanto pregam cinicamente a democracia e a liberdade. Com efeito, o que testemunhamos no Oriente Médio e em outros lugares são conflagrações em uma escala cada vez mais destrutiva, em lugar de soluções duráveis aos graves problemas internos e internacionais da ordem sócio metabólica de controle do capital.

Muitas das realizações fundamentalmente autodestrutivas do imperialismo foram construídas no passado com base no genocídio na América do Norte e Latina. Hoje, a situação é ainda mais grave pois o imperialismo hegemônico global está conduzindo a humanidade ao extermínio. Tem de haver outro caminho. Os exemplos implacáveis de Gramsci, József e Che nos mostram esse caminho.

Rochester Inglaterra, Janeiro de 2007

Notas
1 Epígrafe significativamente escolhida pelo MST (Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra) para sua “Agenda 2004”, ano de seu vigésimo aniversário. Grifos meus.
2 “Per vent’anni, dobbiamo impedire a questo cervello di funzionare.” Extraído do memorando do Procurador Fascista, datado de 2 de Junho de 1928.
3 “Os patkány terjeszr kórt miküztünk” [Rato primevo dissemina a praga entre nós], 1937. [Citamos a versão usada por Mészáros: new infamy rises up to set/ against one another the races. / Oppression croaks in squadrons, / it lands on living heart, as on carrion –/ and misery feibbles all over the world, /as saliva on the face of the idiots. – N.T.]
4 Referência a um grande escrutor húngaro, Dezsö Kosztolányi (1885-1936), que morreu de câncer pouco tempo antes de József escrever o poema.
5 “Thomas Mann üdvözlése” [Saudações a Thomas Mann], 1937. Traduzido para o espanhol por Fayad Jamís. [“Saluso a Thomas Mann”: Al pobre Kosztoláyi enterramos ayer/ y, como abrio en su cuerpo un abismo,/ Estados-Monstuo roen sin trégua al humanismo./ Qué más vendra, inquirimos – las almas de horror plenas –,/ de donde nos azuzan nuevas ideas-hienas/ Hierven nuevos venenos que quieren infiltrarnos?/ Y hasta cuándo habrá un sitio en que puedas hablarnos? – N.T.]
6 “Il tempo ê la cosa più importante: esso è un semplice pseudonimo della vita.” Giuseppe Fiori, Vita di Antonio Gramsci (Bari, Editori Laterza, 1966), p. 324.
7 “Il pessimismo dell’intelligenza e l’otrimismo della volontà.” Ibidem, p. 323.
8 “SzocialistáV [Socialistas], 1931. [Time is lifting the fog, so that we can better see our summit./ Time is lifting the fog, we have brought time with us,/ we brought it with our struggle, with our reserve of misery – N. T]
9 “Fagy” [Geada], 1932. Traduzido para o espanhol por Fayad Jamís. [”Helada”: Este tiempo presente/ es el de los generales y banqueros./ Frio forjado, relumbrante/ cuchillo-tiempo.// El ciclo chorreante está blinda¬do./ La helada perfora, hiende el pulmón/ y el pecho desnudo detrás de los harapos./ En piedra de amolar chirria el tiempo.// Detrás del tiempo !cuanto pan silencioso/ y frio!, y cajas de hojalata,/ y un montón de cosas heladas./ Escapa rate-vidrio-tiempo.// Y los hombres gritan: ¿Dónde está Ia piedra?/ Dóndc el escarchado pedazo de hierro?/ iArrojaselo! iHazlo trizas! ¡Penetra!/ iQué tiempo! iQué tiempo! iQué tiempo! – N. T.]
10
* Em inglês, adversarial. O uso dos termos combinados na tradução para o português foi uma orientação do autor. (N. E.)
“A város peremén” [À margem da cidade], 1933, traduzido para o espanhol por Fayad lamís. [Ia materia real nos ha creado/ echhándonos hirvientes y violentos/ en los moldes de esta/ sociedad terrible,/ para afincarmos, por Ia humanidad,/ en el eterno suelo.// Tras los sacerdotes, los soldatos/ y los burgueses/ ai fim nos hemos vuelto fieles/ oidores de Ias leyes:/ por eso el sentido de toda obra humana/ zumba en nosotros/ como un violón. – N. T.1

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