O “desarmamento” nuclear na Europa

Manlio Dinucci    23.Jun.17    Outros autores

A ONU abriu em 15 de Junho uma verdadeira negociação para proibir as armas nucleares. O Tratado de Não Proliferação foi até agora uma farsa. Tende a manter a vantagem militar que as potências nucleares actualmente têm sobre os demais países. O novo tratado será tanto mais viável quanto mais generalizada for a consciência de que se trata de uma questão de sobrevivência para a própria humanidade.

A cena de pânico que se produziu na Piazza San Carlo da cidade de Turim durante a final da taça de futebol europeia, com as suas dramáticas consequências, é emblemática da nossa situação. A psicose sobre os atentados terroristas, uma psicose que o aparelho político-mediático tem sabido alimentar sobre a base de um fenómeno real – cujos motivos e fins verdadeiros nos escondem – desencadeou ali o instinto primordial de sobrevivência sob a sua forma mais caótica.
Esse mesmo instinto de sobrevivência mantém-se todavia imerso em profundo letargo, anestesiado pela política e a imprensa, quando na realidade se deveria activar de maneira racional ante algo que põe em perigo a sobrevivência de todo o género humano: a corrida armamentista nuclear.
A consequência é que a grande maioria dos povos não sabe que na ONU está a realizar-se – de 15 de Junho a 7 de Julho – a segunda fase das negociações a favor de um tratado para proibir as armas nucleares.
O esboço de Convenção Sobre as Armas Nucleares, redigido após a primeira fase das negociações em Março, estipula que cada Estado subscritor se comprometeria a não produzir nem possuir armamento nuclear, nem a transferi-lo ou recebê-lo directa ou indirectamente. A abertura das negociações foi decidida mediante a adopção de uma resolução da Assembleia Geral da ONU votada por 113 Estados em Dezembro de 2016 face a 35 votos contra e 13 abstenções. Os EUA as outras duas potencias nucleares membros da NATO – França y Reino Unido –, tal como os demais países membros da aliança atlântica e seus principais associados – Israel (única potencia nuclear no Médio Oriente), Japão, Austrália e Ucrânia – votaram contra. Também votaram contra Rússia, India e Coreia do Norte, enquanto a China se absteve(1).
A Itália, tal como Espanha, está entre os países que votaram contra, seguindo os passos dos EUA. O governo do primeiro ministro italiano Gentiloni declarou em 2 de Fevereiro, numa pirueta linguística, que «a convocatória de uma Conferência das Nações Unidas para negociar um instrumento juridicamente vinculante sobre a proibição das armas nucleares, constitui um forte elemento de divisão que pode comprometer os nossos esforços a favor do desarmamento nuclear».
A Itália, continua divagando o governo Gentiloni, está seguindo um «percurso gradual, realista e concreto capaz de conduzir a um processo de desarmamento nuclear irreversível, transparente e verificável», baseado na «plena aplicação do Tratado de Não Proliferação (TPN), pilar do desarmamento».
A maneira como a Itália aplica o TPN, ratificado em 1975, é evidente à luz dos factos. Apesar de esse tratado comprometer os Estados militarmente não nucleares a «não receber de ninguém armamento nuclear nem o controlo desse tipo de armamento, directa ou indirectamente», a Itália colocou o seu próprio solo à disposição dos EUA para a instalação de armas nucleares (pelo menos 50 bombas atómicas B-61 instaladas na base aérea de Aviano e outras 20 na de Ghedi-Torre), e pilotos italianos treinam-se na utilização desse armamento.
E a partir do ano 2020, os EUA instalarão em Itália a bomba atómica B61-12, uma nova arma destinada a assestar um primeiro golpe nuclear, dotada de capacidades penetrantes para a destruição dos búnqueres subterrâneos dos centros de comando. Quando começar em 2020 – embora nada exclua que não se verifique antes – essa instalação de bombas atómicas B61-12 estado-unidenses, a Itália, que é formalmente um país não nuclear, ver-se-á convertida, ainda mais, em primeira linha de uma confrontação nuclear mais perigosa ainda entre, de um lado, a entidade EUA-NATO e, do outro lado, a Rússia.
Em Espanha, embora oficialmente não haja armas nucleares na base estado-unidense de Rota (Cádiz), sabe-se que aterram e descolam aviões com armamento nuclear, tal como atracam navios com essas armas. Em todo o caso não é permitida uma inspecção de nenhuma instituição oficial espanhola (no improvável caso de que a solicitasse) para comprovar se é certo que não se armazenam essas bombas. Assim, também essa zona, com mais de um milhão de habitantes, poderia ser objectivo de um ataque de represália por parte da Rússia.
E se o anteriormente dito fosse pouco, em Rota estão atracados 4 navios que fazem parte do inquietante escudo antimísseis da NATO. De facto, segundo vários analistas, o que impediu a entrada directa dos EUA na guerra síria foi que Rússia destruiu dois misseis, supostamente indetectáveis, lançados de um navio atracado em Rota.
¿Que fazer? Temos que impor que Itália (e Espanha, e outros países europeus) contribua para o lançamento do novo tratado que é proposto na ONU para a proibição das armas nucleares, que o assine e, ao mesmo tempo, temos que exigir também que os EUA, à luz do Tratado de Não Proliferação já actualmente em vigor, retire do nosso território nacional todo o armamento nuclear e que renuncie a instalar em Itália as suas novas bombas atómicas B61-12.
Para quase todo o «mundo político», trata-se de um argumento tabu. À falta de consciência política, apenas resta recorrer ao instinto primordial de sobrevivência.
Il Manifesto / Red Voltaire / La Haine
Texto completo em: http://www.lahaine.org/el-desarme-nuclear-en-europa

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(1) A informação que Manlio Dinucci dá sobre as votações na ONU diverge da referida em artigo de Tony Robinson no artigo publicado por odiario.info em 5.04.2017: http://www.odiario.info/voto-historico-na-onu-aponta-para/ (NdT)

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