O discurso da Assembleia Federal; Putin promete pôr rédea no capitalismo predador e reforçar a soberania

Mike Whitney    30.Ene.20    Outros autores

O preconceito anti-russo domina de tal forma os grandes media norte-americanos que são incapazes de reportar objectivamente os acontecimentos mais simples. Atribuíram as mais perversas intenções ao recente discurso de Putin na Assembleia Federal (e os media portugueses reproduziram fielmente a cartilha). Mas esse discurso merece ser ouvido com atenção.

As elites ocidentais e seus lacaios nos media desprezam o presidente russo Vladimir Putin e não se preocupam em disfarça-lo. As razões para isso deveriam ser bastante óbvias. Putin reverteu as ambições dos EUA na Síria e na Ucrânia, alinhou-se com o maior rival estratégico de Washington na Ásia, a China, e está actualmente a fortalecer os seus laços económicos com a Europa, o que representa uma ameaça de longo prazo ao domínio dos EUA na Ásia Central. Putin também actualizou o seu arsenal nuclear, o que torna impossível a Washington usar as mesmas tácticas de intimidação usadas em outros, mais vulneráveis países. Portanto, é compreensível que os media queiram demonizar Putin e menosprezá-lo como cínico “rufia do KGB”. Isso, é claro, não é verdade, mas encaixa-se na falsa narrativa de que Putin está conduzindo de forma maníaca uma guerra clandestina contra os Estados Unidos com fins puramente perversos. De qualquer forma, a profunda russofobia dos media tornou-se tão extrema que são incapazes de cobrir eventos simples sem loucamente derrapar para a terra da fantasia. Tomemos, por exemplo, a cobertura do New York Times do recente discurso de Putin à Assembleia Federal, que ocorreu em 15 de Janeiro. A disparatada análise do Times mostra que seus jornalistas não têm interesse em transmitir o que Putin realmente disse, mas preferem antes usar todos os meios disponível para convencer os seus leitores de que Putin é um tirano calculista, impulsionado pele sua insaciável sede de poder. Confira este trecho do artigo no Times:
“Ninguém sabe o que está agora a acontecer dentro do Kremlin. E talvez essa seja exactamente a questão. O presidente Vladimir V. Putin anunciou mudanças constitucionais na semana passada que poderiam criar novas vias para governar a Rússia pelo resto de sua vida … (errado)
As letras em corpo menor da legislação mostraram que os poderes do primeiro ministro não seriam ampliados tanto quanto fora anunciado na primeira vez, enquanto os membros do Conselho de Estado ainda pareciam servir a vontade do presidente. Então talvez o plano de Putin seja permanecer presidente, afinal de contas? … (errado de novo)
Um jornalista, Yury Saprykin, disponibilizou um sentimento semelhante no Facebook, mas em verso:
Nós estaremos a debater sobre como ele não irá embora,
Estaremos a interrogar-nos se vai sair ou não,
Estaremos a interrogar-nos se quer sair ou não
E então - eis - ele não sai.
Ou seja, antes das eleições não sai,
E depois disso, ele definitivamente não se vai embora”. (Errado, uma terceira vez)
(”Grandes mudanças? Ou talvez não. Os planos de Putin mantêm a Rússia a interrogar-se”, New York Times)
Esta é uma análise realmente terrível. Sim, “Putin anunciou mudanças constitucionais na semana passada”, mas elas não têm absolutamente nada a ver com algum plano sinistro de permanecer no poder, e qualquer pessoa que leia o discurso sabê-lo-á. Infelizmente, a maioria das outras 100 ou tal variações sobre o tópico chegam à mesma absurda conclusão do Times, ou seja, que as mudanças que Putin anunciou no seu discurso apenas ocultam a sua real intenção de estender o seu cargo tanto tempo quanto possível. Uma vez mais, não há nada no discurso em si que apoie essas alegações, é apenas mais uma tentativa de difamar Putin.
Então, o que Putin é que disse realmente no seu discurso anual à Assembleia Federal?
Bem, é aí que fica interessante. Anunciou mudanças na rede de segurança social, mais assistência financeira para famílias jovens, melhorias no sistema de saúde, salários mais altos para professores, mais dinheiro para educação, hospitais, escolas, bibliotecas. Prometeu lançar um sistema de “contratos sociais” que comprometem o Estado a reduzir a pobreza e elevar os padrões de vida. Comprometeu-se a fornecer refeições mais saudáveis ​​às crianças em idade escolar, menores taxas de juro para compradores de habitação pela primeira vez, maior apoio económico às famílias trabalhadoras, pagamentos mais altos aos aposentados, aumento do salário mínimo, financiamento adicional para uma “rede de tecnologia extracurricular e centros de engenharia.” Putin adicionou também esta pérola:
“É muito importante que as crianças que estão na pré-escola e na escola primária adoptem os verdadeiros valores de uma família numerosa - que família é amor, felicidade, alegria da maternidade e paternidade, que a família é um forte vínculo de várias gerações, unido pelo respeito pelos idosos e o cuidado das crianças, dando a todos um sentimento de confiança, segurança e confiabilidade. Se as gerações mais jovens aceitarem essa situação como natural, como parte moral e integrante e um apoio confiável para a sua vida adulta, seremos capazes de enfrentar o desafio histórico de garantir o desenvolvimento da Rússia como um grande e bem-sucedido país.”
Naturalmente, declarações sinceras como esta nunca aparecem nas páginas do Times ou em qualquer outro meio de comunicação ocidental, já agora. Em vez disso, os norte-americanos são inundados com o mesmo incansável bla-bla-psicopatia de Putin que se tornou o realejo das notícias por cabo. A torrente de mentiras, difamações e falsificações sobre Putin é tão constante e tão avassaladora que a única coisa de que podemos ter certeza absoluta é que nada do que está escrito sobre Putin nos MSM pode ser confiável. Sobre isso não há dúvida.
Dito isto, Putin é um político, o que significa que pode de todo não cumprir as suas promessas. Essa é uma possibilidade muito real. Mas se for esse o caso, porque então o seu ex-primeiro-ministro, Dmitry Medvedev, renunciou imediatamente após o discurso? Medvedev e todo o seu gabinete renunciaram porque perceberam que Putin abandonou o modelo ocidental de capitalismo e está a mover-se numa direção completamente diferente. Putin está agora focado no fortalecimento de programas estatais de bem-estar social que tiram as pessoas da pobreza, elevam os padrões de vida e diminuem a crescente desigualdade. E ele quer uma nova equipa para o ajudar a implementar a sua visão, e é por isso que Medvedev e a equipe receberam a guia de marcha. Veja como o The Saker resumiu a coisa num artigo recente na Unz Review:
“O novo governo indica-o claramente, especialmente com as nomeações do primeiro-ministro Mishustin e seu primeiro vice-primeiro-ministro Andrey Belousov: ambos são conhecidos como muito defensores do que na Rússia é chamado “capitalismo de Estado”: significando uma filosofia económica no país em que os estados não sufocam o empreendedorismo privado, mas em que o Estado está directa e fortemente envolvido na criação das condições económicas correctas para os sectores governamental e privado crescerem. Mais crucialmente, o “capitalismo de estado” também subordina o único objectivo do mundo empresarial (obter lucros) aos interesses do Estado e, portanto, aos interesses do povo. Em outras palavras, adeus ao turbo-capitalismo ao estilo integracionistas Atlantistas!” (“O Novo Governo Russo”, The Saker)
É exactamente isso que está agora mesmo a acontecer na Rússia. Putin está a rompendo com o modelo parasitário de capitalismo de Washington e a substitui-lo por uma versão mais benigna que atenda melhor às necessidades do povo. Esta nova versão de “capitalismo gerido” coloca autoridades eleitas à frente do sistema para proteger o público da selvajaria das forças de mercado e da abrasiva austeridade perene. É um sistema apontado a ajudar pessoas comuns, não Wall Street ou a Mafia bancária global.
Mas, embora as mudanças no modelo económico da Rússia sejam significativas, foram as mudanças políticas de Putin que chamaram mais atenção. Eis o que ele disse:
(Os) “requisitos do direito e tratados internacionais, bem como as decisões dos órgãos internacionais, só podem ser válidos em território russo enquanto não restringirem os direitos e liberdades de nosso povo e cidadãos e não contradizerem a nossa Constituição. ”
O que significa isto? Significa que Putin não respeitará o direito internacional ou os tratados que assinou com os seus vizinhos? Não, de facto não significa, Putin tem sido um defensor entusiástico do direito internacional e do Conselho de Segurança da ONU. Ele acredita firmemente que essas instituições desempenham um papel crucial na manutenção da segurança global, uma questão que leva a peito. O que o presidente russo parece estar a dizer é que os direitos do povo russo e do governo soberano da Rússia têm precedência sobre empresas estrangeiras, tratados ou acordos de livre comércio. A Rússia não permitirá que as poderosas e insidiosas multinacionais globalistas assumam o controlo das alavancas políticas e económicas do poder estatal, como fizeram em países por todo o mundo. Putin esclareceu ainda mais este ponto dizendo:
“A Rússia pode permanecer a Rússia apenas como um Estado soberano. A soberania da nossa nação deve ser incondicional. Fizemos muito para o conseguir. Restaurámos a unidade do nosso Estado e superámos a situação em que certos poderes no governo eram essencialmente usurpados por clãs oligarcas. … Criámos reservas poderosas, o que aumenta a estabilidade e a capacidade de nosso país de nos proteger de qualquer tentativa de pressão estrangeira.”
Para Putin a soberania, que é o poder supremo de um Estado para se governar, é o princípio fundamental que legitima o Estado, desde que o Estado represente fielmente a vontade do povo. Ele elabora sobre ponto mais tarde no seu discurso, dizendo:
“A opinião das pessoas, dos nossos cidadãos enquanto portadores da soberania e a principal fonte de poder deve ser decisiva. Em última análise, tudo é decidido pelo povo, tanto hoje como no futuro.”
Portanto, embora possa haver diferenças significativas entre a democracia russa e a norte-americana, o princípio básico permanece o mesmo, a principal responsabilidade do governo é realizar a “vontade do povo”. A esse respeito, a filosofia política de Putin não é muito diferente da dos autores da Constituição dos EUA. O que é diferente, no entanto, é a abordagem de Putin ao livre comércio. Ao contrário dos EUA, Putin não acredita que acordos de livre comércio devam diminuir a autoridade do Estado. A maioria dos norte-americanos não percebe que acordos comerciais como o NAFTA incluem frequentemente disposições que impedem o governo de agir no melhor interesse do seu povo. As leis comerciais globalistas impedem que os governos forneçam incentivos às empresas para diminuir a terceirização de empregos na indústria, minam regulações ambientais e leis de segurança alimentar. Alguns desses acordos até protegem os proprietários de fábricas de trabalho escravo e outros violadores dos direitos humanos de penalidades ou processos.
É de admirar que Putin não queira participar nessa golpada antiética? É de admirar que ele sinta a necessidade de afirmar claramente que a Rússia só cumprirá as leis e tratados que “não restringem os direitos e liberdades do nosso povo e cidadãos e não contradizem nossa Constituição”? Eis novamente Putin:
“Por favor, não esqueçam o que aconteceu ao nosso país depois de 1991. Após o colapso da União Soviética, (…) houve também ameaças, perigos de uma magnitude que ninguém jamais poderia imaginar. … Portanto, …devemos criar um sistema sólido, confiável e invulnerável que seja absolutamente estável em termos do envolvimento externo e garanta com segurança a independência e a soberania da Rússia.”
Então, o que aconteceu após a dissolução da União Soviética?
Os Estados Unidos enviaram um bando de economistas de faca na liga a Moscovo para participar na campanha de “terapia de choque” que fez colapsar a rede de segurança social, devastou as pensões, aumentou o desemprego, a carência de habitação, a pobreza e o alcoolismo em muitos escalões de magnitude, acelerando o ímpeto privatizador que alimentou uma geração de vorazes oligarcas e fez com que a economia real mergulhasse numa excruciante depressão de longo prazo.
O economista Joseph Stiglitz acompanhou de perto os acontecimentos na Rússia na época e resumiu-os assim:
“Na Rússia, foi dito ao povo que o capitalismo traria prosperidade nova e sem precedentes. De facto, trouxe pobreza sem precedentes, indiciada não apenas por uma queda nos padrões de vida, não apenas pela queda do PIB, mas também pela diminuição da expectativa de vida e por enormes outros indicadores sociais mostrando uma deterioração na qualidade de vida …
“O número de pessoas em situação de pobreza na Rússia, por exemplo, aumentou de 2% para … algo entre 40 e 50%, com mais de uma em cada duas crianças vivendo em famílias abaixo do limiar da pobreza. A economia de mercado era um inimigo pior para a maioria dessas pessoas do que os comunistas tinham dito que seria. … Em algumas partes da antiga União Soviética, o PIB, a renda nacional, caiu mais de 70%. E com esse bolo menor, ficou cada vez mais desigual, então algumas pessoas ficaram com fatias cada vez maiores e a maioria acabou com cada vez menos e menos …” (entrevista da PBS a Joseph Stiglitz, Commanding Heights)
Ao mesmo tempo em que os agentes de Washington estavam ocupados a saquear Moscovo, a NATO estava a movimentar as suas tropas, divisões blindadas e mísseis para mais próximo da fronteira com a Rússia, violando claramente as promessas feitas a Mikhail Gorbachev de que não iria mover nem “uma polegada para leste” as suas tropas. Actualmente, existem mais tropas de combate e armamentos no flanco ocidental da Rússia do que em qualquer outro momento desde a concentração alemã para a operação Barbarossa em Junho de 1941. Naturalmente, a Rússia sente-se ameaçada por essa força flagrantemente hostil na sua fronteira. (BTW, esta semana, “Os EUA estão a realizar a sua maior e mais provocadora movimentação na Europa desde a era da Guerra Fria. De acordo com tropas EUA no Europe Website:” O exercício DEFENDER-Europe 20 é a deslocação de uma força da dimensão de uma divisão em termos credíveis de combate dos Estados Unidos para a Europa …. O Pentágono e seus aliados da NATO estão imprudentemente a simular uma guerra total com a Rússia para impedir Moscovo de fortalecer os seus laços económicos com a Europa.) Mais de Putin:
“Estou convencido de que é tempo de uma discussão séria e directa sobre os princípios básicos de uma ordem mundial estável e os problemas mais agudos que a humanidade está a enfrentar. É necessário mostrar vontade política, sabedoria e coragem. O tempo exige uma consciência de nossa responsabilidade compartilhada e acções reais.”
Este é um tema que Putin reiterou muitas vezes desde o seu importante discurso em Munique em 2007 onde disse:
“Estamos vendo um desdém cada vez maior pelos princípios básicos do direito internacional. E normas legais independentes estão, de facto, aproximando-se cada vez mais do sistema jurídico de um Estado. Um Estado e, é claro, antes de mais os Estados Unidos, ultrapassou as suas fronteiras nacionais em todos os aspectos. Isto é visível nas políticas económicas, políticas, culturais e educacionais que impõe a outras nações. Quem gosta disso? Quem está satisfeito com isso? …” (”As guerras não estão a diminuir”: o icónico discurso de Putin em Munique em 2007, YouTube)
Aquilo a que Putin se opõe é os EUA agirem unilateralmente sempre que decidam fazê-lo. É o caprichoso desprezo de Washington pela lei internacional que desestabilizou vastas regiões do Médio Oriente e da Ásia Central e colocou líderes mundiais em tensão sem nunca saberem onde surgirá a próxima crise ou quantos milhões de pessoas serão impactadas por ela. Como Putin disse em Munique, “ninguém se sente seguro”. Ninguém sente que pode contar com a protecção do direito internacional ou das resoluções do Conselho de Segurança da ONU.
Putin:
“Basta olhar para a situação no Médio Oriente e no norte de África … Em vez de realizar reformas, intervenção agressiva destruiu instituições governamentais e o modo de vida local. Em vez de democracia e progresso, há agora violência, pobreza, desastres sociais e total desrespeito pelos direitos humanos, incluindo até o direito à vida …
O vazio de poder em alguns países do Médio Oriente e do norte da África resultou obviamente no surgimento de áreas de anarquia, que foram rapidamente preenchidas com extremistas e terroristas. O chamado Estado Islâmico tem dezenas de milhares de militantes lutando por ele, incluindo ex-soldados iraquianos que foram deixados na rua após a invasão de 2003. Muitos recrutas vêm da Líbia, cujo estado foi destruído como resultado de uma violação grave da Resolução 1973 do Conselho de Segurança da ONU…”
Está Putin a exagerar o papel de Washington em dizimar o Iraque, a Líbia, a Síria e o Afeganistão ou é uma justa avaliação do papel pernicioso e desestabilizador dos EUA na região? Civilizações inteiras foram destruídas, milhões foram mortos ou deslocados por toda a região para obter alguma nebulosa vantagem estratégica ou para ajudar Israel a eliminar os que toma como inimigos. E todo esse aventureirismo militar remonta à dissolução da União Soviética e à resposta triunfalista dos corretores de poder dos EUA, que viram o colapso da Rússia como um sinal verde para a sua Nova Ordem Mundial.
Washington regalou-se com a sua vitória e assumiu a sua capacidade de dominar a tomada de decisão global e de intervir unilateralmente onde achasse adequado. A nação indispensável já não precisava de se preocupar com formalidades como o Conselho de Segurança da ONU ou o direito internacional. Até a soberania foi descartada como uma noção arcaica que não tinha lugar no novo império corporativo sem fronteiras. O que realmente importava era disseminar o capitalismo de estilo ocidental nos quatro cantos da terra, particularmente naquelas áreas que continham recursos vitais (ME) ou explosivo potencial de crescimento (Eurásia). Essas regiões eram o verdadeiro prémio.
Mas então algo inesperado aconteceu. As guerras de Washington arrastaram-se ad infinitum enquanto novos centros de poder surgiam gradualmente. De repente, a utopia globalista deixara de estar ao alcance, o século americano havia terminado antes mesmo de começar.
Entretanto, Rússia e China estavam ficando constantemente mais poderosas. Exigiram o fim do unilateralismo e o regresso ao direito internacional, mas as suas reivindicações foram totalmente rejeitadas. As guerras e intervenções prosseguiram, embora as perspectivas de vitória se tornassem cada vez mais remotas. Eis novamente Putin:
“Não temos dúvidas de que a soberania é a noção central de todo o sistema de relações internacionais. O respeito por ela e a sua consolidação ajudará a garantir a paz e a estabilidade tanto nos níveis nacional como internacional … Antes de tudo, deve haver segurança igual e indivisível para todos os Estados.” (Encontro do Clube Internacional de Discussão Valdai, “O Futuro em Progresso: Moldando o mundo de amanhã, do gabinete do Presidente da Rússia)
Efectivamente, a soberania é o princípio fundamental sobre o qual repousa a segurança global e, no entanto, é a soberania que as elites ocidentais estão tão ansiosas para extinguir. As gigantes multinacionais querem eliminar as fronteiras existentes para facilitar o fluxo irrestrito e sem tarifas de mercadorias e pessoas numa gigantesca zona de comércio livre interconectada que abrange todo o planeta. E embora seu plano tenha sido inviabilizado por Putin na Síria e na Ucrânia, obtiveram ganhos em África, América do Sul e Sudeste Asiático. O vírus não pode ser contido, apenas pode ser erradicado. Eis Putin:
“Essencialmente, todo o projecto de globalização está hoje em crise e na Europa, como bem sabemos, ouvimos agora vozes dizendo que o multiculturalismo falhou. Penso que esta situação é, em muitos aspectos, o resultado de escolhas equivocadas, precipitadas e, em certa medida, excessivamente confiantes feitas pelas elites de alguns países há um quarto de século. Naquela época, no final dos anos 80 e início dos anos 90, havia uma possibilidade não apenas de acelerar o processo de globalização, mas também de lhe dar uma qualidade diferente e torná-lo mais harmonioso e sustentável por natureza.
Mas alguns países que se viam como vencedores na Guerra Fria, não apenas se viam dessa maneira como o disseram abertamente, seguiram o caminho de simplesmente refazer a ordem política e económica global para se moldar aos seus próprios interesses.
Na sua euforia, eles essencialmente abandonaram o diálogo substantivo e igualitário com outros actores na vida internacional, optaram por não melhorar ou criar instituições universais e tentaram, em vez disso, colocar o mundo inteiro sob o alcance das suas próprias organizações, normas e regras. Escolheram o caminho da globalização e da segurança para as suas próprias queridas pessoas, para os escolhidos e não para todos.” (Encontro do Clube Internacional de Discussão Valdai)
Como Putin diz, houve uma oportunidade de “tornar a globalização mais harmoniosa e sustentável” (talvez a iniciativa China Belt and Road venha a fazer exactamente isso.) Mas as elites de Washington rejeitaram a ideia escolhendo, em vez disso, impor sua própria visão de auto-engrandecimento do mundo. Como resultado, manifestações e distúrbios surgiram em toda a Europa, partidos populistas de direita estão em ascensão e a maioria da população deixou de confiar em instituições democráticas básicas. A versão ocidental da globalização foi amplamente repudiada como uma farsa que despeja riqueza em cima dos ardilosos bilionários, enquanto deixa à seca os trabalhadores comuns. Eis novamente Putin:
“Parece como se as elites não veem a estratificação cada vez mais profunda na sociedade e a erosão da classe média … (mas a situação) cria um clima de incerteza que tem um impacto directo no estado de espírito público.
Estudos sociológicos realizados em todo o mundo mostram que pessoas em diferentes países e continentes tendem a ver o futuro como obscuro e sombrio. Isto é triste. O futuro não os atrai, assusta-os. Ao mesmo tempo, as pessoas não veem reais oportunidades ou meios de mudar alguma coisa, influenciar acontecimentos e moldar políticas.” (Reunião do Clube Internacional de Discussão Valdai)
É verdade que a vida está agora mais difícil e parece ir ficar ainda mais difícil, mas qual é o remédio de Putin ou tem ele um? Vai ele contrariar a maré e reverter os efeitos da globalização? Vai ele sabotar o plano de Washington de controlar recursos vitais no Médio Oriente, tornar-se o principal protagonista na Ásia Central e estreitar o seu controlo sobre o poder global?
Não, Putin nem de longe é tão ambicioso. Como ele indica no seu discurso, o seu objectivo imediato é reformar a economia para que a pobreza seja eliminada e a riqueza seja distribuída de forma mais igualitária. Esses são remédios práticos que ajudam a suavizar o capitalismo e a diminuir a probabilidade de agitação social. Também quer afastar possíveis ameaças ao Estado reforçando a soberania russa. É por isso que ele está a adicionar emendas à Constituição. O objectivo é proteger a Rússia de agentes estrangeiros perniciosos ou quintos colunistas que operam dentro do Estado. Conclusão: Putin vê o que está a acontecer no mundo e traçou um caminho que atende melhor aos interesses do povo russo. Os norte-americanos teriam sorte se tivessem um líder que fizesse o mesmo.

Fonte: https://www.unz.com/mwhitney/the-federal-assembly-speech-putin-vows-to-reign-in-capitalism-and-shore-up-sovereignty/

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