O Exemplo da Alba

Luís Carapinha*    04.May.10    Outros autores

Luís CarapinhaO Manifesto Bicentenário aprovado pelos chefes de Estado ou Governo de todos os oito países que integram a ALBA, presentes na capital venezuelana, extravasa as fronteiras do Hemisfério americano. É o vigoroso clamor dos povos explorados de todo o planeta que ressoa naquelas linhas que a espessa malha da comunicação social dominante, naturalmente, decidiu quase por completo silenciar.

O bicentenário do início da gesta libertadora de Bolívar serviu de mote à IX Cimeira da ALBA, realizada dia 19 em Caracas. O acontecimento revestiu-se de profundo significado. Volvidos 200 anos, a Revolução Bolivariana na Venezuela é uma realidade tangível e uma das principais frentes das flamejantes batalhas em curso na América Latina em prol da soberania, a unidade anti-imperialista e a emancipação.

O Manifesto Bicentenário aprovado pelos chefes de Estado ou Governo de todos os oito países que integram a ALBA, presentes na capital venezuelana, extravasa as fronteiras do Hemisfério americano. É o vigoroso clamor dos povos explorados de todo o planeta que ressoa naquelas linhas que a espessa malha da comunicação social dominante, naturalmente, decidiu quase por completo silenciar.

Vale a pena, pois, reter algumas passagens do texto que actualiza o balanço e perspectivas da organização fundada em 2004 por Cuba e Venezuela.

Referindo que a «Aliança Bolivariana dos Povos da Nossa América se converteu num elemento de coesão e dinamizador para avançar no tempo histórico imediato para o objectivo superior que constitui a União das nossas Repúblicas e dos nossos povos» e ressalvando os princípios fundadores assentes na construção de «uma plataforma de União verdadeiramente alternativa, que promova a solidariedade, a cooperação, a complementaridade, o respeito, a justiça e a equidade, ao memo tempo que consolida as bases para (…) a ruptura com as dinâmicas e os mecanismos que hoje asseguram a hegemonia global do capitalismo», o Manifesto sublinha que a ALBA assume como guia fundamental o objectivo de selar o «fim definitivo do domínio colonial, consolidando a Independência e a soberania».

Mas vai mais longe, ao considerar que a «vitória do socialismo» - qualificada como a «Ayacucho do século XXI» (em analogia com a batalha de 1824 no Peru que finalizou as campanhas de independência na América do Sul) – representa a «única garantia de autêntica Independência e soberania com justiça para o povo».

Como perscruta a ALBA as vias deste «interface dialéctico»? - «Os países da ALBA começaram a esboçar experiências económicas de construção de um modelo alternativo de soberania económica. Numa nova etapa, propomo-nos transformar os mecanismos desenhados para a defesa contra os efeitos gerados pela crise do capitalismo em ferramentas centrais de construção e consolidação de um Espaço de Independência e Autonomia com uma perspectiva socialista». Objectivo sem dúvida ambicioso e audacioso, para o qual a ALBA convoca ao desenvolvimento dos projectos e instrumentos de cooperação económica, como as empresas grannacionais, o Tratado de Comércio dos Povos, a moeda comum, Sucre, e o Banco da ALBA.

Muitos outros aspectos do documento poderiam ser valorativamente destacados neste nosso tempo – globalmente, ainda, de refluxo revolucionário e acumulação de forças -, tais como o objectivo da União e soberania políticas da ALBA, a ênfase na articulação Sul-Sul ou a afirmação da luta contra todas as formas de hegemonismo, intervencionismo e a guerra.

Num quadro nacional diversificado e não isento de elementos e dinâmicas contraditórias, o exemplo da ALBA expressa hoje as intensas lutas de classe que perpassam os processos e batalhas continentais experienciados na América Latina. A sua existência, silenciada mas combatida impiedosamente pelo imperialismo, não deixou de impulsionar também as principais dinâmicas integradoras entretanto surgidas, casos da UNASUR e, recentemente, a CELAC.

O grande desafio da Aliança Bolivariana é inseparável do avanço real e consolidação dos processos nacionais em que assenta. Forjar e consolidar as forças políticas e sociais de vanguarda que assumam os duros combates da, mais ou menos longa, ruptura revolucionária será sempre um factor determinante na materialização do ensejo do socialismo.

* Analista de política internacional

Este texto foi publicado em Avante nº 1.900 de 29 de Abril de 2010

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