O factor Televisão

Correia da Fonseca*    05.Oct.09    Colaboradores

Correia da Fonseca
“A questão é que antes de serem cidadãos eleitores milhares de portugueses são telespectadores. Aliás, foi a direita quem ao longo de anos e anos os quis assim. Recebeu agora os dividendos envenenados desse sinistro investimento, e não direi que este foi um resultado injusto”.

São muitas, se não quase todas, as opiniões suposta ou efectivamente qualificadas que dão Paulo Portas como o grande vencedor das recentes eleições para a Assembleia da República. Com bons argumentos: aumento em flecha do número de deputados, boa posição para condicionar o próximo governo Sócrates, subida ao terceiro lugar como força política com assento na AR, contraste com o apagamento do partido ainda não há muito tempo aparentemente condenado a um inevitável declínio.

Também o Bloco é dado como co-vencedor, digamos assim, e por convincentes razões: mais votos, mais deputados, consolidação no lugar de quarta força parlamentar.

Quanto à doutora Manuela e ao seu partido, tiveram o que mereciam e facilmente se adivinhava sobretudo depois da involuntária ajuda que um desastrado professor Cavaco dera ao engenheiro Sócrates.

O PS, bem se sabe, foi o mais derrotado vencedor que a memória guarda: a difícil vida que o espera como partido do governo não pode fazer a inveja de ninguém.

Resta a CDU, isto é, o Partido Comunista Português e os seus companheiros de luta eleitoral. Logo após o encerramento das urnas, as três operadoras de TV esforçaram-se por sugerir que a CDU havia sofrido uma derrota.

Era mentira, o que aliás não surpreende: mais uns bons milhares de votos em todo o País, mais um deputado no Parlamento, podem ter tido o sabor de uma ainda magra colheita em confronto com legítimas expectativas, mas estão longe de consubstanciar uma derrota, antes pelo contrário. E se a esta avaliação adicionarmos as condições concretas em que o PCP resiste no quadro de uma sociedade mediatizada em que é alvo de calúnias, de silenciamentos escandalosos, de tentativas de assassínios do seu carácter de força política generosa cuja rota aponta o futuro, mais valorizado fica o avanço que no passado domingo conquistou.

Pois, como bem se sabe, a campanha contra os comunistas e quantos com eles caminhem não se limita a períodos eleitorais: é de todos os dias e não se deixa tolher por escrúpulos. É, de facto, uma indústria em laboração permanente, largamente subsidiada e altamente rendosa.

Nessa peculiar indústria a TV tem, é claro, uma posição de primeiríssima importância, mas o relevo da sua acção sobre as opiniões formadas nas cabeças dos cidadãos não se limita à área sinistra do anticomunismo sem princípios mas com fins.

O êxito eleitoral de Paulo Portas tem a ver com a desinibida demagogia do sujeito mas também com a desenvoltura supostamente juvenil de que ainda dá sinais apesar do aparente chinó em que transformou um penteado a lutar desesperadamente com a calvície. É que em TV a imagem é de fundamental importância.

O mesmo ar de juventude que aliás começa a revelar-se serôdia tem contribuído para a simpatia dispensada a Francisco Louçã, também ele mestre no palavreado que debita sonoramente.

Que a televisão forneça intensamente e ao domicílio os rostos e os sons de Portas e de Louçã não é, seguramente, um dado que possa ser esquecido por quem busque explicações para os seus êxitos eleitorais. Sabe-se que a televisão «vende». E bom será que nunca o esqueça quem queira entender as peripécias da vida política portuguesa.

Será ainda admissível que o factor televisão tenha contribuído para a derrota de Manuela Ferreira Leite. É certo que o seu percurso político vinha marcado por péssimas prestações nos ministérios por onde andara, que a gente que a rodeava não inspirava confiança, que surgia como provável que a sua candidatura fosse de facto a de um PR mordido pela tentação de vir a ser uma espécie de primeiro-ministro por interposta pessoa. Ainda assim, metendo-se literalmente pelos olhos dentro que a vocação de Manuela não é a de ser uma sedutora figura televisiva, esse facto havia de ter consequências, e parece-me que as teve.

A questão é que antes de serem cidadãos eleitores milhares de portugueses são telespectadores. Aliás, foi a direita quem ao longo de anos e anos os quis assim. Recebeu agora os dividendos envenenados desse sinistro investimento, e não direi que este foi um resultado injusto.


* Correia da Fonseca é amigo e colaborador de odiario.info

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