O Fascismo ameaça de novo

A antidemocracia e o anticomunismo são as constantes que estão nas origens da ideologia fascista.

Com o desmascaramento e a condenação internacional do nazi-fascismo depois da sua derrota na Segunda Guerra Mundial, os activistas remanescentes procuraram cobertura e novas designações. Porque a ideologia fascista, aprendendo com as suas derrotas, tal como o camaleão procura adaptar a sua cor (designação e palavras de ordem) aos novos tempos. E assim como o camaleão muda de cor, os neonazis (ou neofascistas) encobrem-se sob palavras de que deturpam o sentido, usando até despudoradamente a palavra democracia para exigirem o direito de aparecer numa pseudo-legitimidade, até conseguirem obter a força para atacar e liquidar as liberdades democráticas.

A adulteração da história é a táctica corrente dos revivalismos fascistas em todo o mundo, processo que passa pela atenuação (e muitas vezes a negação) dos crimes do nazi-fascismo e, simultaneamente, pela criminalização do comunismo e dos comunistas e pela deturpação da sua ideologia e dos seus objectivos.

Assistimos em Portugal a um surto preocupante de actividades e iniciativas das forças de extrema-direita, que divulgam as mais retrógradas concepções, numa operação de branqueamento do fascismo que pretende fazer esquecer os seus crimes, desculpabilizar os seus responsáveis e criar condições para abrir caminho aos que querem fazê-lo regressar. São formas de promoção do regime fascista em termos absolutamente incompatíveis com a Constituição da República e o Portugal Democrático.

O projecto de criação do Museu Salazar promovido pela Câmara Municipal de Santa Comba Dão, como um monumento simbólico de louvor a Salazar e ao fascismo, insere-se na mesma campanha que levou à classificação de Salazar na categoria de grande português num programa da televisão pública.

Organizações fascistas estão a convocar uma romagem ao túmulo de Salazar, em Santa Comba Dão, para o próximo dia 28 de Abril, data do seu nascimento.
Trata-se de uma articulação de várias acções de propaganda orientadas para a valorização da personalidade e obra do ditador.

Na mesma linha, pseudo-historiadores defendem a teoria de que não existiu em Portugal uma ditadura fascista, mas sim um regime de “autoridade paternalista”.

Adulteração da História que pretende fazer esquecer a “ditadura terrorista do grande capital monopolista, aliado ao imperialismo estrangeiro, e dos latifundiários”, como Álvaro Cunhal a definiu com rigor no seu “Rumo à Vitória”. Uma ditadura responsável pelo subdesenvolvimento, o atraso económico, social e cultural, a exploração e miséria do povo e a guerra colonial, que dominou o país graças a um feroz aparelho repressivo comandado pela polícia política, a PIDE, com os seus campos de concentração, as prisões, as torturas e os assassinatos, a censura, as perseguições e o medo, que dominaram o país durante quarenta e oito anos.

Os mesmos que negam que o fascismo existiu, hoje, tal como nos tempos da ditadura, fazem do anticomunismo uma arma ao serviço do reforço do papel e da natureza opressora e exploradora do grande capital. É com esse objectivo que a extrema-direita se reorganiza, em Portugal e no Mundo.

Marcada para o próximo dia 21 de Abril está a ser preparada uma reunião de topo de organizações da extrema-direita europeia em Lisboa. Pela primeira vez desde o 25 de Abril e tão perto da data da nossa Revolução, há na proximidade das datas algo de provocação. Tal iniciativa não está desligada da reactivação do Partido Nacional Renovador (PNR), que a promove e que, segundo o seu responsável admite em entrevistas às revistas Focus e Sábado, que nas suas fileiras “quase todos” são salazaristas, muitos são skinheads, e admiradores de Mussolini. Subentende que existem estreitas ligações a Le Pen e a neonazis alemães.

Uma das dirigentes do PNR, de 24 anos e organizadora da reunião internacional, diz em entrevista ao Público de 15 de Abril, que estarão presentes nacionalistas, fascistas e neonazis de quase toda a Europa.

Embora não sejam oficiais, nem muito claras as ligações do PNR à Frente Nacional (organização ilegal à qual foram apreendidas em Junho de 2004 propaganda nazi e armas ilegais, responsável pelos confrontos racistas no Bairro Alto que levaram à morte do cabo-verdiano Alcino Monteiro), o que é verdade é que neste 19 de Abril de 2007, no âmbito da preparação da Reunião Europeia da Extrema Direita em Lisboa, aquando da prisão de ários dirigentes da Frente Nacional, carregados e tatuados de símbolos nazis, numerosos membros do PNR se manifestaram com gritos de apoio e saudações nazis de braços no ar.

Também eram do PNR os estudantes de extrema-direita que há poucos dias entraram em confrontos na Faculdade de Letras de Lisboa com jovens da JCP que pintavam um mural com um cravo vermelho e as palavras: “Em defesa dos direitos, liberdades e garantias”. Esse grupo neonazi tinha anteriormente pintado inscrições, as siglas e os símbolos do PNR e da Frente Nacional sobre um outro mural dos jovens comunistas.

Em termos de organização e de arrogância, é notória uma evolução qualitativa dos grupos de extrema-direita, quer em iniciativas e acções provocatórias, quer no forte investimento na internet, através de blogues e cartoons como veículo estratégico de captação e recrutamento de novos simpatizantes e adeptos, bem como de propaganda e concertação de iniciativas comuns.

Todos estes factos inserem-se numa acção mais vasta que no plano nacional e internacional visa o avanço das forças da extrema direita e da ideologia neofascista em que as ameaças à liberdade e à autonomia dos povos tomam graves contornos, passando pelas agressões imperialistas comandadas pelos Estados Unidos da América e pelo apertar das medidas repressivas contra os movimentos populares emancipadores e as suas vanguardas, os Partidos Comunistas.

20 de Abril 2007

* Margarida Tengarrinha é pintora e amiga e colaboradora de odiario.info

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