O Fastio

Correia da Fonseca    30.Sep.12    Colaboradores

Mesmo quando parecem informar, as televisões escolhem cuidadosamente o que querem mostrar, por exemplo de uma grande manifestação de massas. É o genuíno protesto? É o repúdio pela política do governo por parte de muita gente que há tão poucos meses votara nos partidos que o compõem? Não. É no “apartidarismo” e no “anti-partidarismo” de alguns. Porque os interesses ao serviço de quem existem sabem muito bem que o perigo não é o protesto. O perigo é o protesto organizado.

1.Nunca tal se vira nos ecrãs dos nossos televisores: um mar de gente a perder de vista, a não caber no enquadramento mesmo quando filmado em larguíssimos “plongés” com as câmaras decerto instaladas em helicópteros; abundantes planos intermédios que “desciam” até aos grandes planos da entrevistas sem que contudo se perdesse por muito tempo a visão de conjunto; demorada atenção prestada a cartazes e panos; recolha de muitos depoimentos indignados, alguns deles pungentes. Era sem dúvida uma gigantesca manifestação e, também sem dúvida, era a televisão empenhada em dar testemunho dessa dimensão inédita mediante uma cobertura também sem precedentes e de algum modo surpreendente. Porque, como bem se sabe, a televisão, quer a pública quer a privada, sempre deu sinais de não gostar muito de manifestações. Fornecia-nos delas algumas imagens, é certo, mas eram quase sempre umas coisinhas aparentemente recolhidas sem entusiasmo, no género não propriamente de cumprir serviços mínimos, mas antes de prestar serviços minimizados. Mas desta vez não foi assim, por vezes se diria que a reportagem era um complemento da manifestação, que com ela verdadeiramente fraternizava.

2.Quando se tratava de manifestações directamente ligadas a partidos políticos ou, o que para a televisão é o mesmo, convocadas pela CGTP, as reportagens incluíam momentos especialmente eloquentes quanto ao desafecto sentido relativamente ao acontecimento que se propunham reportar. Porque a televisão, e de resto não apenas ela mas também outros “media”, não gostam dos partidos, têm em relação a eles um invencível fastio, e agem em coerência com essa aversão. No caso das manifestações, porém, a questão simplifica-se porque, como é sabido, os partidos da direita política não descem às ruas para protestarem contra a sua própria prática governativa, e esta compreensível abstinência alargou-se também ao PS, o que não espanta. De onde um raciocínio simples: se havia uma manifestação, eram os comunistas ou equiparados que tinham resolvido descer a Avenida da Liberdade ou subir a de Almirante Reis. Surgiam então nos ecrãs uns velhinhos como prova de que os comunistas são gente que já não se usa, os planos gerais eram raros e fugidios, a transmissão da reportagem arrumava-se em escassos minutos e, de resto, era antecedida por notícias de inundações na Ásia ou incêndios na América. Pois uma regra geral de ouro impedia as televisões de reconhecer a uma manifestação relevo bastante para merecer abrir um noticiário.

3.Porém, esta manifestação do passado dia 15, além de enorme tinha um outro e provavelmente mais impositivo mérito que garantia a simpatia da televisão, isto é, da operadora pública e das estações privadas unidas por um sentimento comum: não havia sido convocada por nenhum partido (entenda-se: pelo PCP) ou pela CGTP, constava ser filha do Facebook, o que desde logo apontava para uma não-contaminação muito recomendável. Aconteceram mesmo breves apontamentos de reportagem em que manifestantes abordados individualmente diziam da sua repugnância pelos partidos, forma mais agressiva do tal fastio perante “os partidos”, indício de pureza política que sempre cai bem nos muitos em quem foi semeada ao longo de anos a inconsciente saudade das décadas em que não havia em partidos políticos em Portugal. E para melhor se entenderem as raízes deste sentimento, não será inútil lembrar que nos dias imediatos ao 25 de Abril de 74, o senhor general Spínola, supondo-se dono da Revolução havida, só queria admitia permitir a legalização de “associações cívicas” mas não de partidos e, num segundo tempo, de partidos mas não do Partido Comunista Português.

4.A moral desta estória, que é parte integrante da História destes nossos dias, é que a muito generalizada hostilidade para com os partidos políticos é, para muitos dos que a praticam, estimulam e multiplicam, uma forma de implantar na cabecinha das gentes a rejeição do Partido Comunista, o único que importa neutralizar. A questão é que as classes dominantes sempre governarão (leia-se: sempre se governarão) quer através de partidos com práticas de direita, ditos “do arco do poder”, em regime de democracia formal, quer em “regime autoritário”, como agora é meigamente designado o fascismo português. Daqui decorrem consequências de diversa dimensão, e uma delas é que uma manifestação dita “sem partidos” e mesmo com afloramentos “contra os partidos” se torna bestialmente simpática a alguma gente esperta e a muita gente tonta. Também à televisão que, afastando-se de habituais práticas anteriores, se aplica nesse caso a fazer reportagens como nunca víramos em tal extensão e qualidade.

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