O fim da era do petroleo na crise da humanidade

bakhtiari
Neste artigo, o prof. iraniano Bakhitiari, um dos mais eminentes especialistas na matéria, reflecte sobre as trágicas consequências da crise do petróleo. A persistir o esbanjamento de um recurso natural não renovável, como é o petróleo, a produção terá caído em 2020 dos actuais 81 milhões de barris diários para apenas 55 milhões.

PETRÓLEO:
O DEPOIS DE AMANHÃ

INTRODUÇÃO

O petróleo é um produto incomparável: é simultaneamente uma matéria-prima estratégica, um factor de produção industrial e o combustível mais essencial. É também «a forma de energia mais negociada e com mais interesse… e assim um elemento de equilíbrio da energia mundial.[1]

Actualmente, o consumo mundial de todos os hidrocarbonetos líquidos anda à volta de 81 milhões de barris por dia (mais milhão menos milhão). Assim, o negócio do petróleo atinge por dia US $ 6bilhões. O dobro disso é negociado (os chamados «barris de papel») nas transacções da NYMEX (Nova Iorque) e do IPE (Londres).

Outra característica importante é que, ao contrário de outros produtos que têm mercados livres «não há mercado livre em petróleo». [2]

Mas o petróleo é muito mais do que a soma das suas partes: é o principal pilar em que assenta o tecto da actual economia global. Não é de admirar que o seu preço seja o mais consultado pelos mídia todos os dias.

Mas na maior parte do século 20, o petróleo foi tomado como qualquer outro produto. O seu preço foi sempre relativamente barato e de fácil acesso em qualquer lugar. Geração após geração habituou-se a utilizar os seus derivados sem problemas. Aparentemente não havia nada de especial no petróleo…

HOJE

A produção mundial de petróleo atingiu o seu pico. Para determinar esse facto basta somar a produção total de todos os campos de petróleo (anotando o seu impacto negativo no abastecimento global e juntar depois o crude que jorra de todos os novos campos (com o seu influxo positivo) de modo a obter o impacto final no abastecimento global de petróleo, somando os dois. Qualquer que seja a perspectiva, a soma final é sempre negativa, apontando para um abastecimento em declínio.

Assim, um século e meio após o início da indústria moderna de petróleo em 1859, o mundo está a entrar numa nova era — a do declínio irreversível da produção de petróleo a nível mundial. De acordo com o modelo da «Minha Capacidade Mundial de Petróleo», (WOCAP), a produção de cerca de 81 milhões deverá cair para cerca de 55 milhões em 2020. [3] Curiosamente um grupo de académicos italianos a trabalhar sob a direcção do Prof. Renato Guseo chegou à mesma conclusão de 55 milhões para 2020 utilizando um modelo completamente diferente baseado em métodos menos lineares. [4]

Assim terão lugar sucessivos declínios em várias transições – a primeira das quais é a transição T1 seguida pela T2, T3 e T4 (5), sendo o intervalo calculado para cada transição entre três a cinco anos — com uma média de quatro anos por transição. Hoje estamos no início de T1; mesmo neste ponto inicial, tudo já mudou, porque as nossas regras pré-pico já não se aplicam e ainda estamos longe das novas regras pós-pico. Basta dizer que os negócios habituais já não constituem um cenário viável, porque já nada é viável.

AMANHÃ

Com a preponderância gradual do Abastecimento sobre a Procura conseguida durante T1, tanto os preços do petróleo como a volatilidade do preço aumentaram. Os pobres serão os primeiros a ser atingidos por estes preços em disparada — sejam pessoas ou nações. Os que mais irão sofrer são os que estão no fundo da pirâmide.

Entre pobres e ricos, as classes médias vão começar a adaptar-se às circunstâncias e às novas regras do jogo da energia. Isso não acontecerá sem tensões sociais que recairão sobre a política e levando a explosões domésticas que podem criar sérios problemas a nível nacional.

Internamente, as nações em luta pelos recursos decrescentes do petróleo vão entrar em choque. Não haverá semelhança com o Novo Grande Jogo; mas surgirão duelos mortais entre os que tentarem obter para os seus países o melhor de um legado pobre.

Esses países que usavam a era «pré-pico» e também (a T1) para se prepararem para os choques do futuro «pós-pico» conseguirão melhores resultados do que aqueles que perderam o seu tempo a deixar passar a oportunidade dourada.

Claro, que uma região muito especial conhecida como Médio Oriente vai surgir com ambições geopolíticas e problemas energéticos globais. Isso pode levar a uma situação ainda mais caótica do que a actual. Mas, para os jogadores que bem ou mal mantêm o ferro a aquecer, haverá melhores resultados depois das cabeças terem esfriado e os ânimos acalmado…

O DEPOIS DE AMANHÃ

É bom lembrar que as 4 transições indicadas acima são apenas um esquema geral para fases distintas do declínio do petróleo global. Quer dizer que, na prática, as coisas não irão passar-se com a facilidade das teorias porque as próprias transições irão chocar-se com políticas, estratégias e acontecimentos. Mesmo a benigna T1 poderá ter um desenvolvimento inesperado para derrotar os movimentos previstos pelos seus rivais. E se não forem indevidamente influenciados por T1, os acontecimentos irão inevitavelmente ser precipitados pela menos benigna T2. É assim difícil imaginar que o problema crítico do Médio Oriente não será afectado por algum tempo por estas Transições. Depois de ter tentado optimizar a demanda do petróleo pelo preço o maior espaço de tempo possível os poderes têm de aceitar o facto transparente de que não há petróleo suficiente para os que estão à espera de pagar preços estratosféricos. Depois, terão de virar-se para as quotas regionais e nacionais para encerrar o caos.

As lutas inevitáveis de poder e os conflitos mortais poderão decidir o destino não só do nosso século 21, mas também do porvir da humanidade. [6] Na era pós-pico mesmo os vencedores acabarão por perder.

No mundo que ainda tem a possibilidade de não se destruir temos de envidar os maiores esforços para evitar que empurrem o planeta da borda para dentro do abismo. Esperemos que os grandes Poderes não persistam com os seus jogos como têm feito nos últimos cinquenta anos [7] para não permitir que novos recém-vindos mais fracos estraguem o seu caldo.

CONCLUSÃO

Depois de mais de século e meio da era do petróleo com os seus milhares de derivados, o mundo de repente enfrenta uma situação nova de ter de com viver com o declínio do petróleo.

Em teoria, o declínio inicial deveria ocorrer em quatro períodos maiores de quase quatro anos cada. Na prática, os acontecimentos desenvolvidos pela era tensa de pós-pico pode perturbar estas transacções ordeiras, levando a explosões que parecem ter sido a regra e não a excepção durante a longa História do Petróleo.
De qualquer modo, os preços do petróleo e a sua volatilidade marcam novos recordes a cada ano que passa. Um dia, mesmo optimizado pelo preço, tudo será fútil e estará acabado.
Rivalidades, lutas e conflitos estarão na ordem do dia entre sociedades e nações pressionadas a arranjar petróleo onde quer que possam para tentar saciar a sede insaciável dos seus cidadãos por este líquido negro mágico.
Esperemos que o planeta sobreviva às vagas de choque das era pós-pico e as suas Transições inelutáveis. Mas, como Lord Tennyson escreveu no seu sublime poema «Locksley Hall Sixty Years After»

Quem poderá dizer como tudo irá acabar?»

XXX

Aproveito esta oportunidade para agradecer ao meu querido amigo Mr. Abdol Reza Khamneipur por me ter oferecido durante anos, milhares de artigos relevantes e outras informações pertinentes algumas das quais usei neste artigo.

NOTAS

As políticas do Petróleo do Médio Oriente» editado por Paul Tempest, Royaumont Group (London: Graha Trotman, 1993) p. 249.
Silvan Robinson, A verdadeira base do preço do petróleo não é o que pensamos na Petroleum Intelligence Weekly 3, 1989) pp. 6-7
A. M. Bakhtiari, O modelo da Capacidade de Produção do Petróleo Mundial (WOCAP) (20 de Dezembro website
R. Guseo e al. Modelos de Depleção do Petróleo Mundial: Efeitos de preço comparados com estratégias ou intervenção técnica, artigo apresentado pela conferência da Sociedade Italiana de Estatística (Bari, Itália, Junho)
Sobre «transições» veja-se o excelente artigo de Byron W. King em www. EnergyBulletin.Net
Para uma visão dramática do pos pico, Richard C. Duncan: A Teoria Olduvai: a caminho da Idade da Pedra pos industrial (Seattle: Instituto de Energia e Homem, 1996)
Embora hoje a palavra «distensão não tenha o significado dado por Gabriel Kolko

Tradução de Manuela Gouveia Antunes

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