O fim do dólar como divisa suprema?

Paul Kennedy*    09.Oct.09    Outros autores

PAUL KENNEDY

O abuso do dólar norte-americano no financiamento da dívida pública dos EUA e a emergencia de países como a China, a Índia e o Brasil, entre outros, colocam na ordem do dia o papel do dólar como meio de pagamento internacional por excelência, embora, “dado o actual nervosismo dos mercados mundiais é tão possível que vejamos uma melhoria do câmbio do dólar como uma queda repentina”.
O autor do texto, Paul Kennedy, director de Estudos sobre Segurança Internacional da Universidade de Yale chega mesmo a afirmar que, “se fosse gestor de dinheiro interessado em proteger interesses futuros dos meus clientes, julgo que olharia com mais cuidado a distribuição das minhas carteiras, apenas para assegurar que, quando chegasse a hora de «prestar contas», não parecesse totalmente desactualizado”.

Está em curso um interessantíssimo debate sobre o destino do dólar estadunidense a longo prazo como principal divisa para as transacções em moeda estrangeira e, o que é mais importante, para as reservas de divisas dos Governos nacionais, empresas multinacionais e produtores de petróleo, gás e restantes matérias-primas.

Na cimeira do G-20 que se realizou em Londres no passado mês de Abril, chamou a atenção dos jornalistas o facto de o Fundo Monetário Internacional receber dotação de 250.000 milhões de dólares em direitos especiais de saque. Dois meses depois, a questão voltou a surgir em Ekaterimburg (Rússia). A reunião dos líderes dos países do BRIC (Brasil, Rússia Índia e China) sugeriu aos comentaristas que uma coligação internacional de Estados emergentes poderia tirar o tapete debaixo dos pés do Tio Sam, em parte devido aos paíse que mudaram as suas divisas do dólar para essas unidades de conta do FMI.

Uma interpretação generosa de toda esta «confabulação» internacional é que, na relidade, é melhor para o mundo que as suas transacções monetárias se baseiem num «leque» internacional de divisas que numa só, pois, se esta cai por culpa da má gestão do seu Governo, poderá levar à ruína muitos actores inocentes, particularmente os Estados mais pobres que dependem do dólar estadunidense. Não foi o que propôs o economista John Maynard Keynes em 1944, a fim de evitar um mundo baseado num dólar que acabara por sofrer a maldição de carregar demasiado peso aos ombros?

Teria sido positivo para a comunidade internacional e para os Estados Unidos. Por que razão teria de cambalear o Titã Cansado sob o destino excessivo da sua carga ser a suprema divisa? Mas Washington, com todos os dólares que tinha no bolso, vetou o plano Keynes. Como é evidente por ser o mais forte. Além disso, o que possuir a divisa mais forte pode ter enorme deficit comerciais e de conta-corrente sem que seja por isso penalizado; um país com uma divisa pouco importante comoa Islândia ou a Coreia do sul não se pode dar a esse luxo.

Outra interpretação mais desagradável neste momento de acabar com a hegemonia do dólar é o anti-americanismo. É habitual que a primeira pot~encia desperte o ressentimento de outros países menos poderosos, inclusive quando essa pot~encia consegue distribuir muito bem o que os economistas chamam os «bens públicos». Por conseguinte, se as economias emergentes do Brasil, da Rússia, da Índia e da China decidem juntar-se, não é estranho que falem do sistema financeiro e comercial internacional, e sobretudo de como depender menos da capacidade que os Estado Unidos têm de descontrolar o domínio da divisa através de hipotecas lixo e péssimos bancos.

Para alguns, um dólar debilitado pode ser também um golpe contra a arrogância dos Estados Unidos e a lembrança de que os mais poderosos também podem tropeçar. Eliminar a «injusta» vantagem do dólar como divisa fundamental de reserva foi sempre uma ideia do agrado dos intelectuais franceses e, como demonstra a história, dos presidentes franceses desde De Gaulle a Sarkozy. Então porque não propor uma «cabaz de divisas» mais equitativo e facilitador das trocas comerciais ou, como variante, tentar organizar o comércio através dos direitos especiais de saque do FMI? Parece razoável – logo defensável – e baixaria a proa dos estadunidenses.

Acontece que há todo uma série de razões para que os direitos especiais de saque não sirvam actualmente como divisa comum, isto é, qualquer coisa em que podia fixar-se o preço de um Toyota ou qualquer coisa do que se poderia tirar um punhado de notas de uma caixa Multibanco. A sua função é de carácter intergovernamental e não tem nada a ver com, por exemplo, os departamentos de moeda estrangeira do Barclay’s.

Isto muito bem explicado pelo especialista financiero Swaminathan S. Anklesaria Aiyar, do Cato Institute de Washington (Na International monetary Fund Curercy toRival the Dollar? – Uma divisa Internacional que rivalize com o dólar? – Julho de 2009, para os leitores que queiram mais detalhes). Deve advertir-se que Aiyar não um desses comentaristas estadunidenss nacionalistas que parecem acreditar que a redução do papel do dólar no mundo é uma espécie de ameaça contra a sua virilidade. Mais, como investigador do Cato Institute, famoso pelas suas opiniõeslibertárias sobre política e economia, Aiyar argumenta sem reparos que q queda relativa do dólar irá seguramente dar-se devido ao contínuo crescimento do PIB chinês e a futura chegada do yuan como divisa totalmente convertível, e não porque os Governosmundiais recorram a um instrumento artificial do FMI como os direitos especiais de saque. Quando o yuan comece a fazer parte das grandes divisas, tal como o euro, o yen e o dólar, haverá menos pressões e menos razões para substituir os meios tradicionais de compra e venda de dinheiro.

Pouco depois de ler o ensaio de Aiyar, chamou a minha atenção um extraordinário artigo intitulado The World Supremacy of the Dollar at the Rendering (1917-2008), A supremacia mundial do dólar na hora de prestar contas, escrito pelo especialista italiano António Mosconi, do Centro Einstein de Estudo Internacionais (CESI). O título é tão bíblico – o prestar contas lembra o «dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus» – que imediatamente quis saber o que dizia.

Para os têm menos tempo livre que os professores de universitários, resumi-lo-ei assim: o dólar estadunidense viveu duas vidas, a primeira como divisa de um poderoso país credor, desde os anos vinte até aos anos sessenta, e a segunda como divisa de «um império da dívida», desde os anos setenta até aos nossos dias, ainda tem de chegar a um muito maior endividamento internacional apenas com a desgraçada liquidação semanal dos títulos do Tesouro.

É impossível resumir em poucas palavras a devastadora e elegantemente elaborada descrição de Mosconi da exploração pelo Governo dos EUA da sua capacidade de imprimir papel no papel de fiscal internacional. Mas a sua conclusão é clara: «Esta crise não é como as outras, é a última convulsão do papel internacional do dólar». Nalgum momento futuro, uma grande parte do mundo tomará as medidas necessárias para evitar que o seu destino dependa das decisões isoladas do Tesouro estadunidense e da Reserva Federal. Então chegará a hora de prestar contas…

Dado o actual nervosismo dos mercados mundiais é tão possível que vejamos uma melhoria do câmbio do dólar como uma queda repentina. Ora bem, normalmente estes artigos académicos têm muita lógica. Hoje vivemos num mundo em que um só país, que não tem mais de 5% da população mundial, possui aproximadamente 20% do PIB mundial, gasta quase 50% dos seus investimentos em defesa e imprime moeda que representa entre 65% das reservas mundiais de divisa estrangeira.

A acreditar na teoria da «convergência» que defendem alguns economistas – isto é, a aproximação do produto e da renda de empresas, regiões e países –, a conclusão é clara: à medida que a China, a Índia, a Coreia do Sul, o Brasil, o México e a Indonésia se «ponham em dia», a parte correspondente dos Estados Unidos diminuirá de forma proporcional, mesmo que os habitantes de Virgínia ou Vermont sejam mais ricos, em termos absolutos, no ano de 2050. Cedo ou tarde – e o que se discute é se vai ser «tarde» ou «cedo» e não se vai ser – vamos assitir a outra grande mudança nos equilíbrios do poder mundial.

Inclusive, a prazo, e sobretudo se fosse gestor de dinheiro interessado em proteger interesses futuros dos meus clientes, julgo que olharia com mais cuidado a distribuição das minhas carteiras, apenas para assegurar que, quando chegasse a hora de «prestar contas», não parecesse totalmente desactualizado. E, quando me faço pagar como autor internacional, gosto de receber os meus honorários e direitos em muitas moedas, apenas para ficar tranquilo.

* Paul Kennedy é director de Estudos sobre Segurança Internacional da Universidade de Yale.

Este texto foi publicado no El país de 10 de Setembro de 2009.

Tradução de José Paulo Gascão

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