O «flagelo» das crateras do Mar Morto

Marie de Vergès    20.Abr.15    Outros autores

Este artigo ajuda a recordar que, entre os problemas do Médio Oriente que apenas a paz e a cooperação entre os povos permitirá resolver, estão agudos problemas ecológicos e de gestão dos recursos hídricos, como o demonstra a dramática situação do Mar Morto.

A altitude do kiboutz de Ein Gedi proporciona uma vista inesquecível sobre o Mar Morto, uma extensão de água azul-cobalto orlada de aglomerados de sal e bordejada por escarpas rochosas. Mas Yehuda Roth está acostumado a esta paisagem que há quarenta anos tem ocasião de contemplar. O que retém a atenção deste engenheiro hidráulico, habitante histórico do kiboutz, é um outro aspecto do panorama. «Repare, diz, designando um largo perímetro que se estende no sopé das falésias. Antes, este lugar estava coberto de palmeiras, tudo era verde. Hoje, metade das nossas plantações de tamareiras morreu.» Sobre uma parcela ergue-se tristemente uma fileira de árvores deixadas ao abandono, carbonizadas pelo sol.

Em Ein Gedi a cultura de tâmaras é directamente ameaçada pelo “dolines”, esses buracos que se abrem no solo à medida que o Mar Morto recua. A bacia aquática a menor altitude do globo vem inexoravelmente secando, e a multiplicação destas crateras é um dos mais alarmantes sintomas deste processo. Ao recuar, a água deixa para trás um terreno repleto de bolsas de sal. Em contacto com a água doce estas podem afundar-se bruscamente, engolindo tudo o que se encontre à superfície. Em Janeiro, uma secção da estrada 90, o grande eixo viário marginando o Mar Morto do lado israelita, abateu por causa de uma doline. A via está neste momento encerrada ao tráfego para baixo de Ein Gedi, obrigando os automobilistas a um fastidioso desvio através dos campos do kiboutz.

As primeiras fissuras formaram-se nos anos 1980. Em 2005 foi recenseado um milhar. Hoje existiriam perto de 5000, segundo as estimativas do geólogo Eli Raz, um dos mais eminentes especialistas israelitas neste fenómeno. Estão principalmente concentradas sobre a margem oeste, parilhada entre Israel e os territórios palestinos. «É um autêntico flagelo para as infra-estruturas, a agricultura, o turismo e o ecossistema; todavia não vejo delinear-se uma solução a curto prazo, lamenta o investigador, ele próprio, há uma quinzena de anos, caído num buraco do qual saiu incólume. Ou os responsáveis políticos não vêm o que se passa, ou recusam compreender o problema.»

O Jordão sobreexplorado

Todavia, o problema é bem conhecido: o nível do Mar Morto baixa continuamente, cerca de 1,20 metros cada ano. Em cinquenta anos, a sua superfície reduziu-se um terço. «E isto não tem nada a ver com o aquecimento climático. É resultado da intervenção humana e de uma má gestão dos recursos hídricos, sublinha Gidon Bromberg, o director para Israel da associação regional de defesa do ambiente EcoPeaceMiddle East. Agora, a natureza vinga-se.»
Alimentado desde sempre pelo Jordão, esta extensão de água ultrasalina não recebe nos dias de hoje praticamente nada. Israel, a Jordania e a Síria sobreexploram o rio bíblico para atender às necessidades de uma demografia em plena explosão, multiplicando barragens nos seus afluentes. Há lugares em que o Jordão não é mais do que um magro riacho de água lamacenta. Ao mesmo tempo, o Mar Morto paga um pesado tributo aos industriais especializados na exploração dos minerais que contém. Para extrair o potássio e o magnésio essas empresas bombeiam enormes quantidades de água que deixam depois evaporar-se.

Em diversos locais o recuo da margem é espectacular. Quando foi aberto, em 1984, o spa de Ein Gedi a água tocava as suas instalações. Hoje a praia encontra-se a mais de quilómetro e meio do edifício. Para lá chegar é necessário embarcar numa espécie de pequeno comboio puxado por um tractor. A cabine do nadador salva-vidas está montada sobre rodas para poder avançar à medida que a margem se afasta. «Há seis anos que aqui estou, e vejo a água recuar continuamente, suspira Esther Bem Ezra, uma responsável pelo spa. É um verdadeiro desafio.» Mais inquietante ainda seria a aparição de uma doline no meio do complexo turístico. A uma vintena de quilómetros a norte, uma enorme cratera abriu-se há algumas semanas no centro do parque de estacionamento de Mineral Beach, uma praia muito frequentada. O local está desde então interdito aos veraneantes, numa altura em que, após anos de obras, tinha aberto ali um novo restaurante.

Máxima inquietação entre os habitantes

É máxima a inquietação entre os habitantes da região, cujo principal ganha-pão é o turismo. «O impacto económico é dramático», insiste Gundi Schachal. Chegada a Ein Gadi há trinta anos, esta mulher de origem alemã exerceu um pouco de todas as profissões, da agricultura à educação passando pelo turismo. Hoje gere o pequeno zoo do kiboutz e sensibiliza os visitantes para as ameaças que pesam sobre o Mar Morto. Recorda que um parque de campismo teve de encerrar aqui nos anos 1990, privando a comunidade de milhões de shekel de receitas. Caminhando prudentemente na paisagem lunar que se formou no local de onde a água se retirou, mostra um buraco escancarado: «Este é novo, ou talvez se tenha alargado.» Algumas fissuras agregam-se umas às outras, formando abismos imensos com mais de uma dezena de metros de diâmetro.

Pode esta situação ser revertida? No final de 2013, a Jordânia e a Autoridade palestina assinaram um acordo para a construção de uma conduta ligando o Mar Vermelho ao Mar Morto. Uma vez concluída, o lago salgado deveria receber 100 milhões de metros cúbicos de água cada ano. Mas os trabalhos ainda não se iniciaram. E são numerosos os cientistas e os defensores do ambiente que duvidam das vantagens deste projecto. Alguns sublinham o risco de que a mistura das duas águas salgadas possa acarretar a proliferação de algas vermelhas e a formação de gesso, pondo em perigo a composição mineral única do Mar Morto.

«De qualquer modo, o fornecimento de água previsto nesse acordo representa apenas 10% do que o Mar Morto recebia graças ao Jordão, nota Alon Tal, professor de ecologia do deserto na universidade Bem Gurion de Néguev. Com ou sem a conduta, o seu nível continuará a baixar.»

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