O folhetim

Anabela Fino*    13.Feb.10    Outros autores

Anabela Fino
Num momento de uma profunda crise económica, social, política e moral devasta o país, as declarações dos responsáveis do Governo e do PS procuram esconder a “substância do que está em causa” numa sucessão de declarações dignas de um folhetim de cordel camiliano.

O País está a viver empolgantes dias de (mais) uma saga que, mal comparando – falta o fulgor e arte de Camilo presentes até na literatura de cordel – nos remete para o sempre actual e de sucesso garantido «Maria! Não Me Mates, Que Sou Tua Mãe!», folheto de dezasseis páginas que conta a história de uma filha que mata a própria mãe apenas para a roubar, publicado sob anonimato em meados do século XIX quando o escritor se viu compelido a vender o talento para matar a fome.

Primeiro foi o ministro Teixeira dos Santos a deixar os portugueses em suspenso ao convocar os jornalistas para fazer uma declaração sobre as finanças regionais, sem direito a perguntas. Marcada para a fatídica hora de abertura dos telejornais, a comunicação ocorreu mais de meia hora depois dando margem a todo o tipo de especulações: demite-se, não se demite, o que será que vai acontecer? Quem não fez apostas para passar o tempo enquanto deglutia o jantar deixou certamente arrefecer a sopa, que o suspense foi grande.

Apesar da dramatização a montanha pariu um rato, e o ignaro povo ficou a debater-se entre acintosos comentários sobre Jardim, o paraíso fiscal da Madeira e os 0,03 por cento do PIB que o Governo transformou numa espécie de desígnio nacional ou, se se preferir, num «Maria! Não Me Mates, Que Sou Tua Mãe!».

Depois foi o «buraco da fechadura» invocado por José Sócrates para apodar de jornalismo de cordel as notícias vindas a público na edição de sexta-feira do Sol dando conta do seu alegado envolvimento na tentativa de domesticar certos órgãos de comunicação social.

Nos entretantos, a propósito do «caso Mário Crespo», o ministro dos Assuntos Parlamentares Jorge Lacão falou de «calhandrices», e o seu antecessor, Santos Silva, agora na Defesa, voltou à liça para dizer que aquela é «a expressão certa» para qualificar o referido caso. Anteontem, terça-feira, Sócrates conseguiu finalmente vencer o pudor que aparentemente o acometeu durante os últimos dias – porventura por se ter dado conta da arma de dois bicos que é acusar alguém de andar a escutar atrás das portas ou a espreitar pelos buracos das fechaduras – e classificou como «um acto criminoso, ilegal» a informação veiculado pelo Sol, aproveitando para lamentar «que todos os partidos, todos sem excepção, não tenham tido o pudor de aproveitar o cometimento de um crime para com esse crime atacarem os seus adversários políticos e atacarem-me a mim em particular». Não chega a ser tão pungente como o «Maria! Não Me Mates, Que Sou Tua Mãe!», mas não anda longe.

Enquanto isso, como certamente muita gente reparou, aos costumes disse-se nada, ou seja, quanto à substância do que está em causa estamos como dantes, que é meio caminho andado para cada um tirar as ilações que mais lhe aprouver.

Como estamos no século XXI, na era da globalização, e Camilo já não está entre nós, o folhetim promete continuar. Para já temos a prestimosa ajuda dos peritos internacionais, que à falta de melhor se entretêm a brincar com os nomes dos países caídos em desgraça.

Depois de inventarem o clube dos PIGS (porcos, em inglês) com as iniciais de Portugal, Itália, Grécia e Espanha (Spain), criaram agora os STUPID (estúpidos – Spain, Turkey, UK, Portugal, Italy e Dubai). Isto ainda acaba em best seller.

* Jornalista

Este texto foi publicado no Avante nº 1.889 de 11 de Fevereiro de 2010.

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