O fosso económico permanente entre negros e brancos nos Estados Unidos

Joan Faus     14.May.14    Outros autores

Passou quase século e meio sobre a carta em que Marx saudava em Lincoln “o determinado filho da classe trabalhadora a quem coube guiar o seu país numa incomparável luta pela libertação de uma raça agrilhoada”.
Agora que têm em funções o primeiro presidente negro da sua história torna-se ainda mais chocante a longa persistência da discriminação racial na sociedade norte-americana. A própria ONU denuncia que essa discriminação é permanente em todas as esferas da sociedade: por cada dólar de uma família branca uma família negra tem cinco cêntimos. A disparidade na pobreza e no desemprego mal variaram em 40 anos.

Nada é às vezes mais revelador do que a crueza dos números para compreender pormenorizadamente uma problemática e deparar com uma desigualdade enquistada. Em 1970 a taxa de pobreza nos Estados Unidos entre os cidadãos negros era de 33,6%. Em 2012 era de 35%. Entre os brancos também surgiu um ligeiro aumento nesses 42 anos, de 10% para 13%, mas o pior é que o fosso entre as duas raças se manteve intacto. Entretanto, os latinos tiveram um aumento ainda mais severo, de 24,3% para 33%. Este padrão racial repete-se no desemprego: desde 1972, quando arrancou a estatística diferenciada, a taxa entre os negros foi sempre 60% mais alta que a dos brancos. Em Março a taxa global foi de 6,7; a dos brancos foi de 5,8% e a dos negros de 12,4%.
 
Martin, um negro de cerca de sessenta anos, afirmou desconhecer os pormenores destes números — que levaram a ONU a denunciar em Março que «na prática» a discriminação permanece constante em todas as esferas da sociedade norte-americana, e continua visível. «A discriminação piorou muito», reclama num misto de impotência e revolta. Sentado placidamente num banco, durante horas, conta que está sem trabalho, que faz milagres para sobreviver com o apoio do governo, que viveu a vida toda num apartamento entre as ruas 7 e U, no noroeste do centro de Washington DC. Um bairro que vem há anos a viver uma transformação drástica: os estabelecimentos humildes, edifícios e residentes afro-americanos vão sendo gradualmente substituídos por gente local e imóveis modernos habitados por brancos jovens da classe média. A mudança é bonita mas o racismo subsiste e afasta as pessoas pelo escândalo das rendas. Isto antigamente era a Broadway negra dos Estados Unidos, queixa-se de olhar perdido.
 
Mas o que mais aborrece Martin é que a mudança não o beneficia, nem faz com que cresça a economia dos Estados Unidos e de Washington e acaba gerando uma dupla perseguição policial, fundamentada segundo ele num racismo intrínseco. «Se estou a beber uma cerveja na rua a polícia prende-me mas se for um branco dos que vivem por aqui não lhe dizem nada”, denuncia. Recusa falar da sua vida, mas deixa escapar que esteve preso por drogas e que depois, apesar de ter um curso e direito a uma profissão técnica, o ferrete do cárcere impede-o de encontrar um trabalho de qualidade. «Fora da prisão o Governo não te ajuda, atira-te de novo para as ruas. E que fazemos? É fácil voltar a fazer o mesmo, e vamos outra vez para a cadeia”.
 
Nessa altura um amigo negro de Martin, Paul, da mesma idade, que andava pela rua e que também esteve preso, entra na conversa. «A educação é o mais importante, declara. Há que ajudar os jovens. No bairro muitos vão dizer-te “para quê trabalhar por 500 dólares se a vender droga consegues 800″. É esse o problema, mas que vamos fazer? Num círculo vicioso originado na conjuntura socioeconómica e na educação, que a polícia e a justiça podem agravar, não há saída. E o tempo não o melhora: a mobilidade social mantém-se parada 50 anos depois da aprovação da Lei dos Direitos Civis.
 
A desigualdade crescente de rendimento nos Estados Unidos e o impedimento da subida social afectam o conjunto da população, mas atingem sempre mais profundamente as minorias raciais. Antes da crise de 2007, o rendimento médio de uma família branca era de 135.000 dólares (muito inflada pelos mais ricos), enquanto o de uma família de cor era de 12.000, segundo um estudo de Derrick Hamilton, professor de Economia na New School de Nova Iorque. Isso significava que por cada dólar de riqueza de uma família branca, uma negra tinha nove cêntimos. Mas depois da crise a distancia aumentou: cinco cêntimos por cada dólar. E surgiram diferenças ainda maiores: 85% das famílias negras e latinas têm um rendimento total inferior à média de todos os brancos.
 
A população está muito consciente da brutalidade destas disparidades. Segundo um inquérito de 2913, 57% dos brancos acham que existe alguma discriminação para com os negros, enquanto entre os negros a proporção sobe para 88%. Mas afinal qual a explicação para estas tristes diferenças económicas? «Enquanto não houve apenas redução do fosso de riqueza nos últimos cinquenta anos, houve uma melhoria laboral até meados dos anos 70 graças a várias leis, programas de afirmação positiva e melhorias no acesso à educação», indica Hamilton por telefone. «Mas a partir daí o fosso manteve-se por falta de ênfase contra a discriminação. Paralelamente, influíram outros factores que, em geral, aumentaram a desigualdade de rendimento do país, como o enfraquecimento dos sindicatos, o auge da competitividade global, a disparidade salarial ou os lucros elevados de capital, que beneficiaram os mais ricos».
 
E além disso, afirma o professor, surgiu um tipo de preconceito racial permanente em algumas esferas. Por exemplo menciona um estudo que demonstrou que num processo de selecção num trabalho uma pessoa de cor que envia um currículo melhor tem menos opções de ser contratada do que uma branca com pior expediente. Por isso, é necessário tomar mais medidas, para que o Governo contrate mais trabalhadores e melhores condições para forçar o sector provado a melhorar as suas, que se crie um fundo de auxilio para crianças pobres a que se possa aceder como adultos «para nivelar o terreno do jogo» com os mais ricos, e que o sistema fiscal seja mais progressivo para que as famílias com baixos rendimentos não permaneçam «encarceradas na pobreza».
 
Desde que subiu à presidência dos Estados Unidos em 2009 Barack Obama evitou falar de discriminação racial. Salvo nalgumas iniciativas insistiu em que o verdadeiro debate se deve centralizar na criação de postos de trabalho e irritou alguns sectores afro-americanos ao falar de «responsabilidade pessoal» e de não aceitar a vitimização. Nos últimos meses, a luta contra a desigualdade transformou-se no epicentro do discurso de Obama, que em Fevereiro anunciou um aumento de salário mínimo federal de 7,25 dólares por hora para 10,10.
 
Embora agora retomem protagonismo, as reclamações económicas dos negros não são novas. Basta recordar a marcha para Washington em Agosto de 1963, que culminou com o famoso discurso de Martin Luther King, que reclamava mais trabalho e melhores salários. Pedia-se na época que o salário mínimo passasse de 1,15 dólares por hora para 2. De acordo com a evolução da inflação esses 1,15 dólares corresponderiam hoje a 8,80. No ano seguinte a vergonhosa segregação racial terminou oficialmente, mas meio século depois ainda permanece: a crueza dos números torna inegáveis os efeitos económicos da discriminação.

Washington 20 ABR 2014 - 03:41 CET
Fonte: El País 

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