O futuro da UE está em jogo na Catalunha

Pepe Escobar    11.Oct.17    Outros autores

Um dos aspectos menos destacados da situação na Catalunha diz respeito ao comportamento da UE, inteiramente alinhada com Rajoy e aprovando a repressão policial que este desencadeou. Seria fácil imaginar a reacção da UE se o drama na Catalunha estivesse a acontecer em terras eurasiáticas distantes e “bárbaras”. O pacífico referendo na Crimeia foi condenado como “ilegal” e ditatorial, ao passo que um ataque violento contra a liberdade de expressão de milhões de pessoas vivendo na UE é tolerado.

O fascista Franco pode estar morto há mais de quatro décadas, mas a Espanha ainda se encontra atravancada com o seu cadáver ditatorial.
Foi cunhado um novo paradigma no próprio interior da arrogante União Europeia, autoproclamada e condescendente distribuidora doméstica de direitos humanos para as regiões inferiores do planeta:
“Em nome da democracia, abstenham-se de votar.”
Chamemos-lhe democracia estilo nano-Franco.
Nano-Franco é o primeiro-ministro espanhol Mariano Rajoy, cujas heróicas tropas de choque foram enviadas por motivo de um sério alerta nacional de terrorismo, para esmagar com bastões e balas de borracha não jihadistas, mas… votantes.
Pelo menos seis escolas foram terreno daquilo a que acertadamente se denominou como a Batalha de Barcelona.
Extremistas de direita até fizeram uma manifestação dentro de Barcelona, mas isto não foi mostrado na TV espanhola, pois contradizia a narrativa oficial de Madrid.
Conforme revela o La Vanguardia, o governo catalão venceu os fascistas com dois códigos muito simples. “Trouxe o Tupperware. Onde nos encontramos?” era o código de telemóvel pré-pago para as pessoas recolherem e protegerem as urnas de votação. “Sou o viajante de papel” era o código para proteger os boletins de voto. Julian Assange/WikiLeaks tinha avisado sobre a primeira guerra mundial da Internet desencadeada por Madrid para esmagar o sistema de votação electrónica. O contra-ataque foi literalmente de papel. A Agência Nacional de Segurança dos Estados Unidos deve ter aprendido qualquer coisa.
Tivemos assim um tecno-poder combinado com uma cobarde táctica repressiva franquista contra o poder popular, como foi o caso dos pais que organizaram ocupações nas escolas para garantirem que elas estavam a funcionar no dia do referendo. De acordo com os resultados preliminares, cerca de 90% dos 2,26 milhões de catalães que foram às urnas votaram a favor da independência de Espanha. A Catalunha tem 5,3 milhões de eleitores registados.
Aproximadamente 770 mil votos foram perdidos devido aos raides da polícia espanhola. A participação de cerca de 42% pode não ser elevada, mas não é de certeza baixa. À medida que o dia corria, havia um sentimento crescente em toda a Catalunha e envolvendo todas as classes sociais de que já não se tratava de independência, mas sim do combate contra uma nova forma de fascismo. O que é certo é que vem aí a Tempestade Perfeita.

Não passarão

A “declaração institucional” de avassaladora mediocridade por parte do nano-Franco Rajoy logo a seguir à votação não se podia acreditar. O destaque foi uma medíocre referência a Magritte: “Ceci n’est pas un referendum. ” Este referendo nunca aconteceu. E nunca podia acontecer porque “a Espanha é uma democracia amadurecida e avançada, fraternal e tolerante”. Os acontecimentos desse dia mostraram que era mentira.
Rajoy disse que “a grande maioria do povo catalão não queria participar no roteiro secessionista.” Outra mentira. Ainda antes do “não-existente” referendo, entre 70% e 80% dos catalães disseram que queriam votar, sim ou não, depois de um debate informativo sobre o seu futuro.
Rajoy exaltou de modo crucial o “incondicional apoio da UE e da comunidade internacional”. Claro: as “elites” não eleitas em Bruxelas e as principais capitais europeias estão absolutamente aterrorizadas que cidadãos da UE se exprimam.
Contudo, a principal mentira nano-franquista foi a de que ”a democracia prevaleceu porque a Constituição foi respeitada”.
Rajoy levou semanas a defender a repressão do referendo, invocando “como nosso o império da lei”. A “sua” lei, de facto. O âmago da questão são os artigos 116 e 155 de uma constituição espanhola retrógrada, a primeira a descrever de que forma os estados de alarme, de excepção e de sítio funcionam em Espanha, sendo o ultimo aplicado “de modo a obrigar a [comunidade autónoma] a cumprir forçosamente… obrigações, para a protecção de… interesses gerais.”
Bom, essas “obrigações” e esses “interesses gerais” são definidos por (quem mais?) Madrid e apenas Madrid. O Tribunal Constitucional de Espanha é uma farsa – não podia desprezar mais o princípio da separação de poderes. O tribunal reúne um grupo de mafioso/otários legalistas ao serviço dos dois partidos da situação, os chamados “socialistas” do PSOE (Partido Socialista Operário Espanhol) e o partido da direita medieval Partido Popular de Rajoy (PP).
Poucos fora de Espanha recordarão o falhado golpe de 23 de Fevereiro de 1981, quando houve uma tentativa de fazer regressar a Espanha à longa noite de trevas franquista. Bem, eu estava em Barcelona quando isso aconteceu e fez-me lembrar nitidamente os golpes militares sul-americanos dos anos 60 e 70. Desde o golpe, o que passa por “justiça” em Espanha nunca deixou de ser uma simples lacaia destes dois partidos políticos.
Agora, o Tribunal Constitucional suspendeu a lei do referendo catalão, argumentando que viola a medieval constituição espanhola. Para a maioria das pessoas na Catalunha, este desgraçado conluio é transparente. Aquilo que Madrid está a fazer representa igualmente um golpe – contra o governo da Catalunha e, evidentemente, contra a democracia. Por isso, não é de admirar que o mantra da imortal Guerra Civil regresse às ruas da Catalunha: “No pasarán!” Não passarão.

Bruxelas é demofóbica

Rajoy, rufia, medíocre e corrupto (essa é uma outra longa história), mentiu ainda mais quando disse que mantém a “porta aberta ao diálogo” . Nunca quis qualquer diálogo com a Catalunha, recusando sempre um referendo seja de que forma fosse ou a transferência de quaisquer poderes para o governo regional da Catalunha. O presidente regional da Catalunha Carles Puigdemont, insiste que tinha de convocar o referendo porque foi o que os partidos separatistas prometeram quando venceram as eleições regionais há dois anos.
E, claro, ninguém é inocente neste jogo de poder puro e duro. O PDeCaT (Partido Democrático da Catalunha), a principal força por trás do referendo, também se atolou na corrupção.
A Catalunha sozinha tem tanto poder económico como a Dinamarca; 7 milhões e meio de habitantes, cerca de 16% da população de Espanha, mas responsável por 20% do PIB, atraindo um terço do investimento estrangeiro e produzindo um terço das exportações. Num país em que o desemprego está nuns horríveis 30%, perder a Catalunha seria o desastre final.
Madrid subscreve com efeito duas prioridades apenas: obedecer fielmente às imposições de austeridade da UE e esmagar por todos os meios qualquer movimento regional pela autonomia.
O historiador catalão Josep Fontana identificou o nó da questão numa entrevista abrangente e esclarecedora: “Aquilo que para mim é escandaloso é o PP estar a atiçar a opinião pública dizendo que apoiar o referendo significava a secessão da Catalunha logo a seguir, quando ele sabe que a secessão é impossível. É impossível porque significaria que a Generalitat teria que pedir ao governo de Madrid para fazer o favor de retirar da Catalunha o exército, a Guardia Civil e a Polícia Nacional, e renunciar docilmente a um território que proporciona 20% do PIB… por isso, porque estão a usar esta desculpa para agitar um clima reminiscente de uma guerra civil?”

Para além do espectro da guerra civil, o Grande Cenário é ainda mais incendiário.

O Partido Nacional Escocês é uma espécie de primo direito dos separatistas catalães na sua rejeição de uma autoridade central que consideram ilegítima, com toda a litania negativa associada. Os membros do PNE queixam-se de serem forçados a lidar com línguas diferentes, imposições políticas vindas de cima, impostos injustos e aquilo que é sentido como uma absoluta exploração económica. Este fenómeno nada tem a ver com a ascensão do nacionalismo, populismo e xenofobia de extrema-direita em toda a União Europeia, conforme Madrid insiste.
E então, temos o silêncio dos lobos. Seria fácil imaginar a reacção da UE se o drama na Catalunha estivesse a acontecer em terras eurasiáticas distantes e “bárbaras”. O pacífico referendo na Crimeia foi condenado como “ilegal” e ditatorial, ao passo que um ataque violento contra a liberdade de expressão de milhões de pessoas vivendo na UE é tolerado.
A demofobia das elites de Bruxelas não conhece limites. O registo histórico mostra que os cidadãos da UE não estão autorizados a exprimir-se livremente, especialmente através de práticas democráticas, em questões relacionadas com a autodeterminação. Seja qual for a mudança de corrente que aí vier, o silêncio da UE denuncia o facto de Bruxelas estar a puxar os cordelinhos por trás de Madrid. Ao fim e ao cabo, o projecto da Admirável Europa Nova implica a destruição das nações europeias em proveito de uma eurocracia centralizada de Bruxelas.
Os referendos são animais indomáveis. O Kosovo foi um subproduto do bombardeamento/amputação da Sérvia pela NATO para ser democracia, um mini-estado de narco-gangsters útil para acolher Camp Bondsteel, a maior base do Pentágono fora dos EUA.
A Crimeia fez parte de uma acção de reunificação legítima com o objectivo de corrigir a idiotice de Nikita Khruschev ao separá-la da Rússia. Londres não enviou capangas para impedir o referendo na Escócia e está em curso uma negociação amigável. Não há regras pré-estabelecidas. Os neoconservadores clamaram em vão quando a Crimeia e a Rússia se reunificaram, depois de terem vertido lágrimas de alegria quando o Kosovo foi sacado à Sérvia.
Quanto a Madrid, deveríamos aprender uma lição com a Irlanda de 1916. No início, a maioria da população estava contra a rebelião. Mas a brutal repressão britânica levou à guerra da independência. E o resto é da História.
Após este histórico e (relativamente) sangrento domingo, haverá cada vez mais catalães a perguntar: se a Eslovénia e a Croácia, a República Checa e a Eslováquia, as minúsculas repúblicas do Báltico, para não mencionar os ainda mais pequenos Luxemburgo, Chipre e Malta, podem ser membros da União Europeia, porque não nós? E pode vir aí uma debandada: a Flandres e a Valónia, o País Basco e a Galiza, Gales e a Irlanda do Norte.
Através de toda a UE, o sonho centralizador eurocrata desfaz-se. A Catalunha pode estar a apontar para um mundo novo não tão admirável, mas mais realista.

Tradução: Jorge Vasconcelos

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