O golpe da CIA contra o “mais leal aliado” é uma advertência da História em 2020

John Pilger    29.Jul.20    Outros autores

Os golpes da CIA contra governos legítimos são quase incontáveis. Há todavia casos menos conhecidos, como o derrube de um governo progressista na Austrália em 1975. E merece ser conhecido porque, para além dos aspectos mais habituais (corrupção e traição das elites dirigentes, em particular, como bem sabemos no nosso país) se juntou o facto da outrora poderosa Grã-Bretanha agir aqui sobretudo como pau-mandado dos EUA.

O Supremo Tribunal da Austrália decidiu que a correspondência entre a rainha e o governador-geral da Austrália, seu vice-rei na ex-colónia britânica, deixou de ser “pessoal” e pertença do Palácio de Buckingham. Porque importa isso?

Cartas secretas escritas em 1975 pela rainha e seu homem em Camberra, Sir John Kerr, podem agora ser divulgadas pelos Arquivos Nacionais - se o establishment australiano o permitir. Em 11 de Novembro de 1975, Kerr demitiu infamemente o governo reformista do primeiro ministro Gough Whitlam e entregou a Austrália às mãos dos Estados Unidos.
Hoje, a Austrália é um estado vassalo/inexistente: as suas políticas, serviços de informações, o sector militar e grande parte dos seus media estão integrados na “esfera de dominação” e nos planos de guerra de Washington. Nas actuais provocações de Donald Trump contra a China, as bases norte-americanas na Austrália são descritas como “ponta de lança”.

Existe uma amnésia histórica entre a sociedade polida da Austrália sobre os catastróficos acontecimentos de 1975. Um golpe anglo-americano derrubou um aliado democraticamente eleito num humilhante escândalo em que secções da elite australiana foram coniventes. Isto é em grande parte não mencionável. O vigoroso empenho e o sucesso da historiadora australiana Jenny Hocking em forçar a decisão do Supremo Tribunal são excepcionais.

Gough Whitlam foi removido do governo no Dia da Memória, 1975. Quando morreu há seis anos as suas realizações foram reconhecidas, ainda que de má vontade, os seus erros constatados com falso compungimento. Esperava-se que a verdade do golpe fosse enterrada juntamente com ele.

Durante os anos de Whitlam, 1972-75, a Austrália alcançou por um breve período a independência e tornou-se intoleravelmente progressista. Politicamente, foi um período surpreendente. Um comentador norte-americano escreveu que nenhum país “tinha totalmente invertido a sua postura em assuntos internacionais sem ter passado por uma revolução doméstica”.

As últimas tropas australianas foram mandadas regressar a casa do serviço mercenário prestado ao ataque norte-americano ao Vietnam. Ministros de Whitlam condenaram publicamente as barbaridades EUA como “assassínio em massa” e crimes de “maníacos”. O governo Nixon era corrupto, disse o vice-primeiro-ministro, Jim Cairns, e apelou ao boicote de produtos norte-americanos. Em resposta, estivadores australianos recusaram descarregar navios norte-americanos.

Whitlam levou a Austrália ao Movimento dos Não-Alinhados e apelou a uma Zona de Paz no Oceano Índico, à qual os EUA e a Grã-Bretanha se opuseram. Exigiu que a França cessasse os testes nucleares no Pacífico. Na ONU, a Austrália defendeu os palestinianos. Refugiados em fuga do golpe da CIA no Chile foram bem-vindos na Austrália: uma ironia que sei que Whitlam saboreou mais tarde.

Embora não fosse considerado como estando à esquerda do Partido Trabalhista, Gough Whitlam era um social-democrata independente com princípios, orgulho e decência. Acreditava que uma potência estrangeira não deveria controlar os recursos do seu país e ditar as suas políticas económicas e externas. Propôs-se “reapropriar a fazenda”.
Ao elaborar a primeira legislação sobre direitos aborígenes à terra e ao apoiar grevistas aborígenes, o seu governo fez surgir o fantasma do maior esbulho de terras na história da humanidade, a colonização britânica da Austrália, e a questão de a quem pertencia a vasta riqueza natural da ilha-continente.

Em termos domésticos, remuneração igual para as mulheres, educação superior universal gratuita e apoio às artes tornaram-se lei. Havia um sentimento de real urgência, como se o tempo político estivesse já a acabar.

Os latino-americanos reconhecerão a audácia e o risco de uma tal “libertação” num país cujo establishment estava fundido com uma grande potência exterior. Os australianos haviam servido em todas as aventuras imperiais britânicas desde que a rebelião Boxer fora esmagada na China. Na década de 1960, a Austrália pediu para se associar aos EUA na invasão do Vietnam, e depois forneceu “equipas negras” à CIA.

Os inimigos de Whitlam reuniram-se. Telegramas diplomáticos dos EUA publicados em 2013 por WikiLeaks divulgam os nomes das principais figuras dos dois principais partidos, incluindo um futuro primeiro-ministro e ministro das Relações Exteriores, como informadores de Washington durante os anos de Whitlam.

Gough Whitlam sabia o risco que estava a assumir. No dia seguinte à sua eleição, ordenou que a sua equipa deixasse de ser “examinada ou assediada” pela organização de segurança australiana ASIO, que estava então, como agora, ligada aos serviços de informações anglo-americanos. Um agente da estação da CIA em Saigão escreveu: “Foi-nos dito que os australianos bem poderiam ser considerados como colaboradores norte-vietnamitas”.

O alarme em Washington atingiu a fúria quando, nas primeiras horas de 16 de Março de 1973, o procurador-geral de Whitlam, Lionel Murphy, encabeçou um grupo de policias federais numa rusga aos escritórios da ASIO em Melbourne. Desde a sua criação em 1949, a ASIO tornara-se tão poderosa na Austrália como a CIA em Washington. Um ficheiro desarquivado sobre o vice-primeiro-ministro Jim Cairns descrevia-o como uma figura perigosa que provocaria “a destruição do sistema democrático de governo”.

O verdadeiro poder da ASIO derivava do Tratado UKUSA, com seu pacto secreto de lealdade a organizações de inteligência estrangeiras - nomeadamente a CIA e o MI6. Isto foi demonstrado dramaticamente quando o (agora extinto) National Times publicou trechos de dezenas de milhares de documentos classificados sob a manchete: “Como a ASIO traiu a Austrália aos norte-americanos”.

A Austrália acolhe algumas das mais importantes bases de espionagem do mundo. Whitlam exigiu saber o papel da CIA e se e por que a CIA estava a administrar a “instalação conjunta” em Pine Gap, perto de Alice Springs. Como os documentos divulgados por Edward Snowden revelaram em 2013, Pine Gap permite aos EUA espiar seja quem for.
“Tentem lixar-nos ou agredir-nos”, alertou Whitlam o embaixador dos EUA, Walter Rice, “[e Pine Gap] tornar-se-á uma questão contenciosa”.

Victor Marchetti, o agente da CIA que tinha ajudado a montar Pine Gap, disse-me mais tarde: “Esta ameaça de fechar Pine Gap causou apoplexia na Casa Branca … uma espécie de [golpe do] Chile foi posto em andamento”.

As mensagens ultrassecretas de Pine Gap foram decodificadas por uma contratada da CIA, TRW. Um dos descodificadores foi Christopher Boyce, um jovem perturbado pelo “engano e traição por parte de um aliado” que testemunhou. Boyce revelou que a CIA se tinha infiltrado na elite política e sindical australiana e estava a espiar telefonemas e mensagens Telex.

Numa entrevista com o autor e jornalista de investigação australiano William Pinwell, Boyce revelou um nome como especialmente importante. A CIA referia-se ao governador-geral da Austrália, Sir John Kerr, como o “nosso homem Kerr”.

Kerr não era apenas o homem da rainha e um monárquico apaixonado, tinha laços de longa data com os serviços de informações anglo-americanos. Era um membro entusiasta da Associação Australiana de Liberdade Cultural, descrita por Jonathan Kwitny, do Wall Street Journal, em seu livro ” The Crimes of Patriots”, como “um grupo de elite, somente para convidados … exposto no Congresso como sendo fundado, financiado e em regra administrado pela CIA “.

Kerr era também financiado pela Asia Foundation, exposta no Congresso como um canal de influência e dinheiro da CIA. A CIA, escreveu Kwitny, “pagou as viagens de Kerr, construiu o seu prestígio, pagou até pelos seus escritos … Kerr continuou a dirigir-se à CIA por dinheiro”.

Quando Whitlam foi reeleito para um segundo mandato em 1974, a Casa Branca enviou Marshall Green para Canberra como embaixador. Green era uma figura imperiosa e sinistra que trabalhava na sombra do “estado profundo” dos EUA. Conhecido como “mestre golpista”, tinha desempenhado um papel central no golpe de 1965 contra o presidente Sukarno na Indonésia - que custou perto de um milhão de vidas.

Um dos primeiros discursos de Green na Austrália foi no Instituto de Administração Australiano, e foi descrito por um alarmado membro da plateia como “um incitamento aos líderes empresariais do país a levantarem-se contra o governo”.

Os norte-americanos trabalharam em estreita colaboração com os britânicos. Em 1975, Whitlam descobriu que o MI6 estava a operar contra o seu governo. “Os britânicos estavam efectivamente a descodificar mensagens secretas que chegavam ao meu escritório de relações exteriores”, disse mais tarde. Um de seus ministros, Clyde Cameron, disse-me: “Sabíamos que o MI6 tinha escutas nas reuniões do gabinete para os norte-americanos”.

Altos responsáveis da CIA revelaram mais tarde que o “problema Whitlam” tinha sido discutido “com urgência” pelo director da CIA, William Colby, e pelo chefe do MI6, Sir Maurice Oldfield. Um vice-director da CIA disse: “Kerr fez o que foi mandado fazer”.

Em 10 de Novembro de 1975, foi mostrada a Whitlam uma mensagem de telex extremamente secreta dirigida a Theodore Shackley, o notório chefe da Divisão da Ásia Oriental da CIA, que havia ajudado a executar o golpe contra Salvador Allende no Chile dois anos antes. A mensagem de Shackley foi lida a Whitlam. Dizia que o primeiro-ministro da Austrália era um risco de segurança no seu próprio país. Brian Toohey, editor do National Times, revelou que a mensagem era portadora da autoridade de Henry Kissinger, destruidor do Chile e do Camboja.

Tendo removido os chefes das agências de inteligência australianas ASIO e ASIS, Whitlam agora estava a mover-se contra a CIA. Pediu uma lista de todos os agentes “declarados” da CIA na Austrália.

No dia anterior à chegada do telex de Shackley em 10 de Novembro de 1975, Sir John Kerr visitou a sede do Defence Signals Directorate, o NSA da Austrália, onde foi secretamente informado sobre a “crise de segurança”. Foi durante esse fim de semana, de acordo com uma fonte da CIA, que as “solicitações” da CIA foram passadas a Kerr através dos britânicos.

Em 11 de Novembro de 1975 - o dia em que Whitlam iria informar o Parlamento sobre a presença secreta da CIA na Austrália - ele foi convocado por Kerr. Invocando arcaicos e vice-régios “poderes de reserva” nele investidos pelo monarca britânico, Kerr demitiu o primeiro-ministro democraticamente eleito.

O “problema Whitlam” foi resolvido. A política australiana nunca recuperou, nem a nação recuperou a sua verdadeira independência.

A destruição do governo de Salvador Allende no Chile, quatro anos antes, e de dezenas de outros governos que questionaram o divino direito do poder e da violência norte-americanos desde 1945, foi replicada no mais leal dos aliados, frequentemente descrito como “o país sortudo”. Apenas diferiu a forma de esmagamento da democracia na Austrália em 1975, juntamente com seu duradouro encobrimento.~

Imaginem um Whitlam nos dias de hoje enfrentando Trump e Pompeo. Imaginem a mesma coragem e o mesmo confronto de princípios. Pois bem, aconteceu.

Resumido de “The Coup”, no livro de John Pilger, A Secret Country, Vintage Books, Londres. Ver também o filme de Pilger, Other People’s Wars - http://johnpilger.com/videos/the-last-dream-other-peoples-wars

Fonte: http://johnpilger.com/articles/the-cia-coup-against-the-most-loyal-ally-is-history-s-warning-in-2020

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