O golpe de Estado financeiro na América
Raiz do crash de 2008

Crise Financeira“Criou-se um verdadeiro sistema alimentado por uma rede de instituições que passaram a viver dessa «criatividade financeira» que veio dos anos 1980 e do próprio crime financeiro de alto colarinho-branco organizado. O sistema cresceu e consolidou-se porque beneficiou de toda uma cultura americana de viver a débito e de enriquecer com rendas nos instrumentos «tóxicos», nas bolsas ou na exportação de capitais.” Foi o que se chamou «um verdadeiro golpe de Estado financeiro», pelo que não se pode falar de falhas na regulação.

Qual a origem da actual crise financeira, é provavelmente a interrogação mais repetida pelo que se designa por «Main Street», o cidadão da rua americano.

O dedo foi apontado aos instrumentos financeiros «tóxicos» que nasceram como cogumelos desde que uma Lei de 1933 (conhecida por Glass-Steagall Act ou Banking Act) foi revogada pelo Congresso americano, então de maioria republicana, e pelo Presidente Clinton em 1999. Esta lei pós-«crash» de 1929 pretendia proteger a banca americana dos excessos das operações puramente financeiras.

Um dos expoentes dos grupos de pressão a favor da eliminação dessa cautela que vinha desde o «crash» de 1929 foi o senador Phil Gramm, do Texas, actual conselheiro económico do candidato à presidência americana John McCain. Os lóbis da Wall Street investiram, na altura, 300 milhões de dólares nesta operação política.

Esta revogação abriu as portas à «revolução financeira» propagandeada por Alan Greenspan, o então presidente da Reserva Federal. À sombra dessa e de outras «desregulações» multiplicaram-se os especialistas na Wall Street em instrumentos «tóxicos». Muitos políticos e analistas acusam, agora, esses «criativos» de crime. Muitos dos críticos de hoje tiveram as mãos enfiadas nos bancos de investimento, nas empresas consultoras, nos grupos de especialistas ou no usufruto das «bolhas» que, entretanto, fizeram a riqueza e esplendor da América durante trinta anos.

O sistema «tóxico»

«O problema é muito mais profundo e vem detrás», diz-nos a consultora de investimentos Catherine Austin Fitts, que se tornou numa «ex-insider» maldita. Catherine trabalhou vários anos numa firma da nata de Wall Street entre 1978 e 1989 e foi secretária do comissário do Departamento federal para as questões da Habitação (conhecido pelo acrónimo HUD) durante 18 meses em 1989-1990, ao fim dos quais foi demitida sumariamente.

Ela percebeu como «funcionava a coisa» tanto em Wall Street como em Washington DC. Apercebeu-se rapidamente no HUD do mecanismo «tóxico» em torno do que viria a ficar famoso como o escândalo do S&L – Savings and Loans, que levaria à falência de 747 instituições entre 1985 e 1995, a um total de 1.600 instituições envolvidas em problemas financeiros e a um custo para os contribuintes americanos no montante de 160 mil milhões de dólares. Apelidaram-na altura de «Senhora da Limpeza».

E como funcionava a coisa? Criou-se um verdadeiro sistema alimentado por uma rede de instituições que passaram a viver dessa «criatividade financeira» que veio dos anos 1980 e do próprio crime financeiro de alto colarinho-branco organizado. O sistema cresceu e consolidou-se porque beneficiou de toda uma cultura americana de viver a débito e de enriquecer com rendas nos instrumentos «tóxicos», nas bolsas ou na exportação de capitais. Os gloriosos trinta anos de esplendor económico da América com três «bolhas» sucessivas (dos anos 1980, depois das «dot-com» e finalmente do crédito hipotecário) alimentaram-se dessa criatividade.

Catherine chama a este movimento de fundo, silencioso, não transparente, à revelia do controlo democrático dos cidadãos, de «verdadeiro golpe de estado financeiro». Como ela nos diz em entrevista, o processo levou à «reengenharia global da governação», colocando-a fora do controlo das famílias, do cidadão, das comunidades e mesmo de governos soberanos, centralizando-a numa rede (num «network», na expressão inglesa mais popularizada) de alta finança, cuja osmose com os políticos profissionais e os burocratas é cada vez mais conhecida. A esse «network» alguns já chamaram de «sistema financeiro sombra».

Esse «golpe de estado» do período dos trinta gloriosos anos permitiu, inclusive, segundo Catherine, a expansão de investimentos directos e indirectos americanos em todo o mundo, particularmente na Ásia e nos emergentes, «alavancando um dólar então valorizado comprando activos desvalorizados em países arrasados por crises».

O modelo bancário de guerra

Ora, como diz Catherine, todos os sistemas complexos têm um limite e acabam por implodir. As implosões dão origem a «crashes» cíclicos devastadores e às consequências que se sucedem. Não basta, por isso, mexer na regulação – é indispensável dinamitar o sistema «rentier» que se formou, como lhe chamavam os economistas políticos franceses de há séculos atrás. Catherine vai ao ponto de apelidar este sistema de «modelo bancário de guerra», que é suportado pelo actual poder de projecção global dos Estados Unidos.

Poder de projecção que tem levado a coligação dos principais detentores de reservas mundiais e credores da América – Japão (que detém 6.000 mil milhões de dólares, 6 triliões na designação anglo-saxónica, em títulos do governo americano), China, Estados do Golfo e Brasil – a aceitar a suserania financeira americana, aguentando algumas perdas, para manter os actuais equilíbrios geopolíticos mundiais. Catherine ironiza: funciona como que um sistema de «párias», uma taxa paga ao poder suserano. Alguns sinais recentes começam a deixar o alerta de que os credores começam a estar cansados – esta semana o guru japonês Kenichi Ohmae apelava a que os Estados Unidos dessem prioridade a uma coligação com os donos das reservas; e um ex-primeiro ministro da Tailândia propunha no Financial Times a criação de um título asiático baseado nos dólares «offshore» das imensas reservas de «dólares externos», como ele lhes chamou.

Catherine apela, por isso, à vigilância democrática dos cidadãos americanos, pois os pacotes de emergência de muitos milhares de milhões, suportados pelos contribuintes (que, de uma forma, ou de outra, terão de pagar a factura deste intervencionismo seja através de impostos, de inflação, do colapso do dólar, do desemprego ou da perda de bens imobiliários), são geridos pelo tal «network» e destinam-se a limpar a sujidade, mas a deixar o mesmo sistema «rentista» a funcionar.

E, provavelmente, irão permitir um movimento de consolidação jamais visto em vários sectores económicos, com a «mão visível» do Governo por detrás, incluindo participações temporárias do Estado nas instituições intervencionadas. Alguns analistas designam este período (transitório) que temos pela frente de «capitalismo de regulação» ou «capitalismo colete de salvação» (life-jacket capitalism). «O pacote de salvação ataca um sintoma de curto prazo, para impedir deslindar-se as raízes do problema», frisa a conselheira de investimentos que dirige a Solari.


Texto publicado em http://janelanaweb.com/novidades/o-golpe-de-estado-financeiro-na-america-raiz-do-crash-de-2

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