O grande “quebra-cabeças” do capitalismo

Jorge Messias*    01.Mar.09    Colaboradores

JORGE MESSIASA crise, como gostam de dizer, os epígonos do capitalismo, também pode ser uma «janela de oportunidade», A Igreja tem uma larguíssima experiência de enriquecer à custa dos necessitados.
Mas tudo exige preparação e planeamento, por isso, “em Fátima, nos últimos dias de Janeiro, realizou-se o Congresso Nacional das IPSS, com a presença invulgar do Presidente da República. Em Março, terá lugar o I Congresso do Voluntariado, uma iniciativa da recém-formada Confederação Portuguesa do Voluntariado». E como a caridade bem ordenada por nós é começada, “reclamam(os) mais apoios financeiros do Estado. Não basta falar. Estamos num momento em que temos de agir”, dizem…

Aparentemente é um mundo de loucos aquele em que vivemos. Revivem-se os anos vinte do século passado, a derrocada das bolsas, o regresso ao isolacionismo e à negação sistemática de tudo aquilo que em teoria o capitalismo considerava dado adquirido e conquista sua: os caminhos da paz, as liberdades, o respeito pelo indivíduo, o progresso e o bem-estar dos povos, a igualdade de direitos dos cidadãos, a livre iniciativa.

Se recordarmos o passado constatamos que os anos que se seguiram à bancarrota da Bolsa de Nova Iorque foram marcados pela ascensão do fascismo e do nazismo, pela brutal concentração da riqueza, pelo desenvolvimento do mundo do crime organizado, pelo desemprego, pela miséria, pelos salários baixos e pelas desigualdades sociais. No final desta curva negativa veio a guerra e a repressão, a xenofobia e o racismo. Foram os anos da fome, do império de Al Capone, do rearmamento acelerado, da expansão armada das hordas nazis com mira na conquista dos países férteis em matérias-primas ou dotados de tecnologias avançadas, das traições da diplomacia, da utilização política da mentira e do mais desavergonhado populismo. A crise económica dos países ricos foi debelada à custa do saque desumano dos povos subdesenvolvidos. Mais tarde, o roubo pagou também o preço do avanço fulminante das tecnologias ocidentais e o reforço da imagem do «milagre capitalista». Foi a era de oiro do petróleo, do motor, da rádio, da aviação, das telecomunicações, das máquinas da guerra e da propaganda. Nesse percurso, o mundo fragmentou-se e cindiu-se em dois blocos. O «capitalista», proclamava defender as pátrias, a liberdade democrática, respeitar os valores – mas entendia-se perfeitamente com os interesses fascistas e com os regimes totalitários. O «socialista», dava os primeiros passos na URSS e lançava as fundações de uma nova sociedade igualitária, democrática e com formação avançada, proletária e camponesa, defensora do entendimento pacífico entre as nações.

A médio prazo, tudo isto aparentemente falhou com as intrigas do capitalismo e as incertezas ideológicas de alguns responsáveis marxistas, escavando ainda mais o fosso que separa os povos e os estados. Ainda que a herança desses dias – social, política e cultural – continue presente e bem viva nos horizontes históricos actuais. A mensagem marxista continua intacta. Somos filhos desses anos contraditórios e cabe-nos a gigantesca responsabilidade política de negar a negação que aparentemente encerrou esse ciclo da história. Tudo está em aberto e por resolver. Dizia Karl Marx numa das suas cartas a Engels: «Nas grandes épocas históricas, vinte anos equivalem a um dia, ainda que em seguida possam apresentar-se dias que concentrem em si mesmos vinte anos».

É esta a dinâmica da história que nos deve animar na acção.

O começo da derrocada capitalista

Ainda a procissão vai no adro e a crise apenas mal começou, já os efeitos conhecidos são catastróficos. Em lugar de se atenuar, cresce a queda a pique dos investimentos e do poder de compra dos trabalhadores arrastando para a pobreza um número cada vez maior de desempregados e de pequenos e médios empresários. A economia global estagnou, retrocedeu, e as trocas comerciais a nível mundial sofreram, em menos de um ano, uma quebra brutal de 2.8%. Todas as grandes potências industrializadas estão em crise profunda. A economia islandesa colapsou, a britânica abeira-se da bancarrota, a francesa, russa, chinesa, japonesa, alemã, italiana, foram gravemente atingidas. Mesmo as dificuldades económicas e financeiras dos Estados Unidos da América, o estandarte do capitalismo, parecem ser insuperáveis.

As mudanças negativas processam-se de uma forma tão rápida que é necessariamente difícil apontar números de um panorama em constante mutação. Mas conhecem-se alguns casos que ilustram a crise nos EUA. Por exemplo, no dia 27 de Janeiro deste ano, num breve espaço de 12 horas, 72.500 trabalhadores foram pura e simplesmente despedidos indo juntar-se aos seus camaradas que em Dezembro de 2008 perderam os seus postos de trabalho, num total de 500.000 novos desempregados. Esta estatística norte-americana, sendo brutal nos números apresentados, mesmo assim disfarça a realidade. É que a maior parte das empresas responsáveis pelos despedimentos ou pelos salários em atraso não estão localizadas num só país mas integram gigantescos grupos multinacionais com filiais em todo o mundo para onde o recurso aos despedimentos maciços é depois exportado. São exemplos disto casos de extinção de postos de trabalho como os da Caterpiller, da General Motors, da Phillips, da Pfizer, etc., «trusts» que despediram maciçamente, não só nos EUA mas, também, nas suas muitas filiais situadas noutros continentes. Os despedimentos são uma autêntica bola de neve. A Nissan nipónica despediu 20.000 trabalhadores. A Sony, 15.000. A Metro AG, 15.000. O Bank of America, 45.000. O JP Morgan, 17.000. O Citigroup, 75.000.

Face a este pesadelo global os banqueiros e os grandes estrategas da alta finança reuniram-se recentemente em Davos, na Suíça, para fazerem o ponto da situação e traçarem esquemas adequados à solução dos problemas que se levantam. Mas não se entenderam nem qualquer ideia genial os iluminou. Isto porque a crise actual só é comparável à dos anos 30 no traçado geral das suas causas e efeitos. Mas as teias onde se cruzam interesses e as massas monetárias em risco são incomparavelmente maiores e mais complexas. Um tijolo solto pode fazer desabar toda a parede. Para as grandes fortunas, a crise financeira e económica apenas interessa na medida em que seja possível transformá-la numa plataforma que sirva como rampa de lançamento de um novo capitalismo promotor de mais exploração e de crescimento das mais-valias. Uma alquimia transcendente apenas possível nos contos da mitologia. É preciso reconhecer-se, pelo menos, que superar as contradições reais é operação de risco que precisa de tempo e que o tempo escasseia. Melhor será, pensam os banqueiros, deixar que a situação apodreça e exigir que sejam os trabalhadores e os pobres a pagar os astronómicos custos da medicamentação. Ainda há poucos dias, uma sumidade do capitalismo liberal, Pedro Arroja, levantou uma ponta do véu que esconde esta filosofia da reacção: «Nas economias modernas da Europa e da América do Norte, cerca de 60% do produto interno bruto depende dos serviços. A indústria já não é o sector dominante. Por isso, o proletariado está em vias de extinção». Delírio e alucinação.

O miraculoso negócio das “almofadas”

Estas palavras insensatas transportam um velho sonho do sistema capitalista: ser capaz de transformar em oiro tudo aquilo em que a riqueza toca. Para realizar esta utopia, no capitalismo «avançado» a economia cede o primado aos valores financeiros. Riqueza, significa apenas ter moeda sonante acumulada e capacidade para gerar mais e mais dinheiro. Não importa como, nem interessa sequer saber se esses novos capitais são fictícios ou não. Basta ter, ter sempre mais, ser mais rico do que os outros. Esta lógica patológica está na base da génese da actual crise, é irreversível e acabará por ditar o suicídio do capitalismo como sistema universal.

As fragilidades das políticas capitalistas e a sua incapacidade de resposta estão bem patentes nas informações que vão chegando. De forma avulsa, os vários governos no poder tentam responder à crise financeira global – gigantesca e universal – com medidas sectoriais de pronto-socorros. Nacionalizam os prejuízos da banca, prometem fazer obras públicas faraónicas, passam uma esponja sobre os crimes financeiros e tentam sobretudo, a todo o custo, iludir a opinião pública para melhor reinarem. Já falam, agora, em lançar a curto prazo um novo «Plano Marshal» destinado a repor o poder do grande capital.

Mas os factos falam por si. É impossível superar a crise e manter o sistema que a gerou. A questão não é a falta de dinheiro. É antes a sua superabundância, a sua má distribuição e o facto dele não traduzir a situação real da economia produtiva. Não há produto mas há fortunas brutais, como as que surgiram na Rússia pós soviética. Não há mercados mas a especulação campeia por toda a parte. Recua o comércio, a indústria e a agricultura. Na banca do estado surgem «buracos» colossais, como foi o caso recente da Banque Suisse que divulgou prejuízos da ordem dos 118 mil milhões de dólares! Ou o orçamento de Estado norte-americano que prevê um défice «público» de 1 bilião e 200 milhões !…

Quando falam em globalização de sucesso os grandes capitalistas apenas procuram anestesiar o povo com construções verbais e fantasias. Ocultam a percepção que têm dos perigos reais que os cercam e das reacções que temem quando os trabalhadores espoliados, sem trabalho e afogados na miséria, acederem a uma verdadeira consciência de classe e recusarem o ferrete da exploração. Em Portugal, ainda recentemente, veio à baila a história das «almofadas» que prova estar o governo capitalista a instalar, de braço dado com a igreja católica e a sua «sociedade civil», um esquema destinado a amortecer (ou almofadar) a indignação e a ira dos trabalhadores. Resumidamente, o negócio é o seguinte.

Como se sabe, compete ao governo o funcionamento dos sectores sociais que são definidos na Constituição, desde a Saúde à Segurança Social, à Educação, etc. São áreas atingidas em cheio pela crise económica e pelo desemprego. Sectores particularmente perigosos no caso da derrocada do sistema por serem potencialmente geradores de sentimentos de revolta social. O Estado não pode ser, simultaneamente, parte interessada na defesa dos interesses capitalistas e agente activo que se coloque decididamente ao lado dos cidadãos explorados. É-lhe necessário encontrar forças privadas organizadas para as quais transfira os seus direitos e deveres constitucionais, embora de forma encapotada.

Nenhuma instituição portuguesa (a não ser a igreja católica) possui uma rede instalada a nível nacional capaz de dar resposta a esta urgente necessidade político-caritativa. Pelo contrário, igreja tem a Sociedade Civil, com as suas Misericórdias, IPSS, Fundações, Centros Sociais, Escutas, Centros Paroquiais, Cáritas etc., servidos por um voluntariado que pode absorver e catequizar parte importante dos desempregados e das suas famílias, devolvendo à igreja parte de um prestígio actualmente corroído nas bases populares. O negócio é extremamente importante para ambas as partes. E embora os institutos religiosos se afirmem como promotores de actividades não lucrativas é natural e humano que venham a receber as verbas destinadas às diferentes áreas sociais e que a Constituição atribui ao aparelho do Estado. A igreja ganhará em dinheiro e em poder. O Estado aumentará um pouco as suas despesas mas sem consequências de maior: a parceria tem um terceiro membro que gira na sombra. Se houver dificuldades de dinheiro ou de crédito, a «banca cristã» privada não fugirá aos seus deveres caritativos, a troco da «compreensão» estatal. E se os recursos escassearem, não importa: cunha-se mais dinheiro.

A máquina bem lubrificada já está em marcha. Em Fátima, nos últimos dias de Janeiro, realizou-se o Congresso Nacional das IPSS, com a presença invulgar do Presidente da República. Em Março, terá lugar o I Congresso do Voluntariado, uma iniciativa da recém-formada Confederação Portuguesa do Voluntariado.

IPSS e Voluntariado são malhas da mesma rede. Dizem os dirigentes máximos destas federações: «As IPSS vão ser uma almofada e um amortecedor da crise social que o país enfrenta. Já se sentem os efeitos desta tempestade social, manifestada na existência de bolsas da exclusão e no aumento da pobreza. Seremos o último reduto deste «tsunami». E esclarecem depois: «Reclamamos mais apoios financeiros do Estado. Não basta falar. Estamos num momento em que temos de agir. O voluntariado português teve uma formação inicial que convém que seja mais homogénea para que o voluntário possa estar hoje numa organização e, amanhã, noutra. Fazem parte dos objectivos da nossa associação contribuir para a defesa dos interesses e dos direitos dos voluntários, através da representação do voluntariado de Portugal a nível nacional e internacional, da preservação e actualização da identidade do voluntário, da cooperação entre as organizações de voluntariado e da promoção da acção voluntária».

Tudo isto somado pode informar e dar um alerta acerca das eventuais consequências desta nova manobra que se prepara na penumbra. Dos cofres do Estado o dinheiro começa a jorrar.

Para bom entendedor meia palavra basta.

* Jorge Messias é amigo e colaborador de odiario.info

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