O impacto da resistência iraquiana nas eleições dos EUA

John Catalinotto*    27.Nov.06    Colaboradores

John Catalinotto
“É um erro pensar que esta mudança eleitoral [nos EUA] irá por si mesma acabar com a criminosa ocupação do Iraque ou sequer levar a uma alteração a uma mudança substancial na política externa no imperialismo dos EUA. Sem uma luta de massas que ponha fim à ocupação, as tropas dos EUA permanecerão no teatro de guerra por bastante tempo”

Três anos de resistência dos iraquianos à guerra e ocupação criminosa dos EUA têm abanado Washington. Os eleitores estadunidenses sentiram-se furiosos com o desastre que está a ocorrer no Iraque, com o declínio dos padrões de vida dos trabalhadores e com os ataques da administração Bush à Segurança Social e a outros serviços sociais. Tudo isso contribuiu para o “baque” dos Republicanos nas eleições de 2006 para o Congresso e para o Senado. Os Democratas asseveraram uma clara maioria nas eleições para o Congresso e uma maioria mais relativa para o Senado.

Ver a habitual arrogante e agressiva retracção e retorcimento do gang de Bush depois desta derrota causou um impacto positivo na maioria das populações de todo o mundo. O Secretário de Estado Donald Rumsfeld, considerado o arquitecto da guerra no Iraque e a figura mais próxima às suas tácticas e às torturas de Abu Ghraib, foi demitido e substituído.

A questão central nas eleições foi a guerra, e a derrota dos Republicanos foi interpretado como uma rejeição nas urnas da guerra e ocupação do Iraque, e no geral da liderança de Bush.

Mas é um erro pensar que esta mudança eleitoral irá por si mesma acabar com a criminosa ocupação do Iraque ou sequer levar a uma alteração a uma mudança substancial na política externa no imperialismo dos EUA. Sem uma luta de massas que ponha fim à ocupação, as tropas dos EUA permanecerão no teatro de guerra por bastante tempo. Para se perceber porque é assim, será útil ter em conta uma visão aprofundada relativamente ao papel das eleições na luta de classes e especialmente nos EUA.

Visão marxista das eleições no capitalismo

As posições principais sobre as eleições burguesas podem ser encontradas nos escritos de Friedrich Engels, que na obra “A origem da família, da propriedade privada e do Estado”, escreveu que «o sufrágio universal é o termómetro para avaliar a maturidade da classe trabalhadora. Todavia, tal não é correcto no actual estado de coisas». Mais tarde Lenine citou esta frase em “O Estado e a Revolução”, mostrando que o movimento operário teria de esmagar o Estado capitalista – seu exército, polícia, tribunais, etc. – em ordem a realmente revolucionar a sociedade por parte da classe trabalhadora. E isto não é possível simplesmente apenas sendo eleito para um qualquer organismo estatal.

A eleição de 1998 de Hugo Chavez na Venezuela ou mais recentemente de Evo Morales na Bolívia chama a tenção para a frase de Engels. As massas nestes países indicaram estar preparadas para mudar, mas a eleição por si mesma é insuficiente para trazer essa mudança. O imperialismo dos EUA mostrou que está consciente que essa luta de classes está interessada na questão do poder de Estado. Isso foi demonstrado pela decisão de Bush de 9 de Novembro que «concedeu uma autorização para que as forças militares do seu país possam realizar treinos militares em 11 países da América Latina e do Caribe» (USA Today, 10 de Novembro).

Nos EUA, apesar de tudo, as eleições têm ainda menos significado do que Engels atribuiu, dando muito poucas possibilidades aos trabalhadores para escolherem uma alternativa séria. Desde 1912 quando o socialista Eugene Debs obteve 900.000 votos num total de 15 milhões (6%), ou mesmo em 1920, quando o mesmo Debs arrecadou os mesmos 900 mil votos num universo de 26 milhões de eleitores, que os partidos operários não têm conseguido desempenhar um papel independente nas eleições nacionais nos EUA. A classe capitalista estadunidense, que se encontra no centro dominante do imperialismo mundial desde pelo menos a II Guerra, teve o poder suficiente para impor o seu monopólio na arena eleitoral.

Nas eleições dos EUA, só os Partidos Republicano e Democrata conseguem competir numa escala nacional. Os Republicanos estão mais próximos com os ricos mais poderosos. Os Democratas incluem igualmente líderes sindicais bem como uma maior participação de afro-americanos e de outras nacionalidades oprimidas. Mas ambos são partidos pró-capitalistas e ambos são fiéis defensores dos interesses imperialistas dos EUA. Eles competem pelos privilégios advenientes de serem ou não o partido que melhor defende os interesses da classe dominante.

Os dois partidos capitalistas estão unidos especialmente nas agressivas aventuras externas dos EUA e são responsáveis de crimes com uma amplitude genocida. Os Republicanos recentemente lideraram invasões dos EUA sobre o Afeganistão e o Iraque. Nos últimos 61 anos, o Partido Democrata presidiu ao bombardeamento de Hiroshima e Nagasaqui, o ataque à Coreia, a escalada da guerra contra o Vietname e o bombardeamento da Jugoslávia.

O enviusamento das eleições americanas contra os pobres, os trabalhadores e os oprimidos

O facto de o voto ser opcional e de as eleições se realizarem sempre em dias da semana encoraja a abstenção em geral e desencoraja mais ainda a população pobre e especialmente os afro-americanos, os latinos e os indígenas de votar. A proporção de votantes que exerceram o seu direito de voto em 2006 foi considerada alta, mesmo que se tenha cifrado em apenas 40,4 por cento.

As regras eleitorais estão cheias de armadilhas antidemocráticas. Não há uma representação eleitoral nos votos, já que em cada eleição quem ganha fica com tudo, ou seja, com todos os lugares disponíveis. O Senado tem 100 lugares, dois por cada estado; isto significa que um Estado como a Califórnia com mais de 36 milhões de eleitores elege o mesmo número de senadores como o Wyoming que tem 500 mil habitantes. O Congresso tem 435 eleitos, cada um eleito por um distrito com aproximadamente a mesma população. Mas mesmo aí o Partido Republicano tem distorcido a geografia para favorecer sectores mais conservadores e reaccionários do eleitorado.

Qualquer coisa como 10 milhões de trabalhadores considerados como não-cidadãos não têm direito a votar apesar de serem uma importante parte da classe trabalhadora nos EUA e são extremamente conscientes das questões políticas, como as enormes manifestações do Primeiro de Maio pelos direitos dos imigrantes deste ano mostraram. Nem sequer os 5,5 milhões de ex-prisioneiros podem votar na maioria dos estados do país. Juntamente com os 2 milhões na prisão perfazem quase 4% do eleitorado potencial. As regras eleitoras enviesadas e o desigual reconhecimento de direitos de voto funcionam conjuntamente para fazer com que as eleições sejam direccionadas contra as cidades, contra os pobres, contra as populações latina e afro-americana, que são mais tendentes a votar em candidatos progressistas.

Acima de tudo isto, a classe dominante tem o monopólio dos media e as modernas eleições americanas são amplamente dependentes da publicidade televisiva. Assim, os candidatos devem acumular vastas massas de dinheiro mesmo para tentarem competir, o que os liga àqueles que podem fazer grandes contribuições para as campanhas eleitorais. As eleições presidenciais custam centenas de milhões de dólares e as eleições para o Senado chegam às dezenas de milhões de dólares.

Tudo isto contribui para que a arena eleitoral se torne numa das mais difíceis para elevar a independência política da classe trabalhadora. Só sob condições de um ascenso da luta podem as eleições levar a um progresso. Ou então quando ocorre uma forte batalha dentro da classe dominante durante uma crise, tal como aconteceu este ano.

A Resistência iraquiana cria divisões na classe dominante

Ao impor uma vigorosa derrota à tentativa de conquistar e controlar o Iraque, a Resistência iraquiana causou uma forte fricção na classe dominante estadunidense com contornos de uma crise. Esta classe apoiou a agressão do gang de Bush contra o Iraque quando isso parecia que iria ser uma vitória fácil. Naquela altura eles pensaram a liderança de Bush como decisiva, capaz de ultrapassar aliados e críticos. Passados três anos, a resistência do povo iraquiano expôs todos os pontos fracos do Pentágono e forçou as forças armadas dos EUA a um ponto de ruptura. O Exército dos EUA está desmoralizado e incapaz de facilmente atrair novos recrutas. O corpo de oficiais está revoltado contra a liderança de Donald Rumsfeld no Pentágono. Sob a pressão destas derrotas, a classe dominante começou a ver o gang de Bush como de vistas curtas, incapaz de responder às críticas e no geral incompetente.

Três desenvolvimentos começaram na primavera e verão de 2006 que em conjunto na altura das eleições preparam o revés à administração Bush.
Em primeiro, o Grupo de Estudos do Iraque, liderado por James Baker, um antigo conselheiro de George H. Bush, e pelo antigo Congressista Lee Hamilton, juntaram-se em Março passado com o propósito de encontrarem uma saída para o imperialismo estadunidense de forma a reverter a derrota no Iraque ou pelo menos reduzir as perdas. Para que as suas propostas pudessem sequer ser ouvidas pelo poder executivo, este grupo tinha de tirar o Secretário de Estado Donald Rumsfeld do caminho. O anterior director da CIA, Robert Gates, que foi nomeado para substituir Rumsfeld, foi igualmente da administração de Bush pai e fez parte do Grupo de Estudos do Iraque.

Em segundo lugar, o Partido Democrata decidiu em orientar a sua campanha nacional por criticar constantemente a forma desastrada da Administração Bush em gerir a guerra no Iraque e mantiveram a questão do Iraque na agenda mediática. A eleição nacional tornou-se numa espécie de referendo à guerra no Iraque. Bush e Dick Cheney fecharam-se numa posição de “manter o rumo actual” e acusaram os Democratas de quererem um “corte abrupto e desistir”
Os Democratas evitaram tomar uma posição anti-guerra. Dois terços dos seus candidatos em 45 das corridas eleitorais mais acirradas não só se opunham à saída do Iraque, como opunham-se mesmo ao estabelecimento de um calendário para a saída. Apenas um candidato, Peter Welch do Vermont, defendeu o regresso das tropas para 2006. Contudo, a percepção generalizada foi de que os Republicanos eram pró-guerra e os Democratas anti-guerra. Isto ajudou enormemente os Democratas.

Em terceiro lugar, a Resistência iraquiana acentuou a luta e chegou mesmo a impedir que as tropas dos EUA dominassem Bagdad. Só os ataques em Outubro mataram 105 soldados americanos no Iraque. Ao mesmo tempo, pela primeira vez, sectores dos media começaram a dar uma maior projecção às mortes no Iraque e à instabilidade do regime fantoche iraquiano. A repulsa popular relativamente à guerra no Iraque, que já existia desde que o povo iraquiano começou uma resistência contra a impopular e brutal ocupação dos EUA, elevou-se a novos níveis.

Uma indicação da viragem na classe dirigente rumo aos Democratas tem a ver com as contribuições de 25,9 milhões de dólares para a campanha de 18 dias em Outubro, ao passo que os Republicanos receberam 18,6 milhões. Geralmente, os Republicanos costumam receber bem mais do que os Democratas.

No mesmo mês, os generais do Pentágono e políticos de topo, incluindo antigos apoiantes da guerra como o Senador da Virgínia John Warner, expressaram abertamente o seu pessimismo relativamente ao futuro resultado da guerra no Iraque. Dois dias antes das eleições, um editorial conjunto em quatro jornais com ligações aos militares pedia a demissão de Donald Rumsfeld. Os jornais – Army Times, Navy Times, Air Force Times and Marine Corps Times – são publicados por um grupo subsidiário da Gannett Company, e são distribuídos em nas bases militares por esse mundo fora.

O povo opõe-se à guerra

Estas divisões nos círculos de poder e crescente desilusão da classe dominante com a incompetência da administração Bush, abriu espaço para que as pessoas trabalhadoras comuns pudessem expressar a sua oposição à guerra. E têm-no feito. Nas urnas, mais de 60% dos votantes desaprovaram a guerra no Iraque. Em cerca de um terço das cidades de Massachussetts, um referendo popular apelando à saída das tropas americanas também teve uma aprovação de 60% do meio milhão de pessoas que votaram. Uma ainda maior percentagem aprovou um referendo similar em Chicago. E o voto nos Democratas foi proporcionado pela hostilidade à guerra, aos ataques de Bush à Segurança Social, ao encerramento de fábricas no Midwest e à perda de empregos bem remunerados e sindicalizados.

O movimento anti-guerra, apesar de tudo, não deve ter qualquer tipo de esperança nos Democratas relativamente à tomada de decisões efectivas contra a guerra. A mensagem principal dos Democratas é que vão esperar o relatório do Grupo de Estudos do Iraque e dizem apenas que a política dos EUA em relação ao Iraque tem de mudar.

Para forçar o gang de Bush a recuar, os seus opositores da classe dominante apelam aos sentimentos anti-guerra de milhões de pessoas. Enquanto as batalhas internas se mantiverem na classe dominante e continuarem a adiar uma resolução do problema do Iraque, existirá a necessidade – e uma oportunidade – de elevar a intervenção das massas que traga um fim à guerra e à ocupação.

O desafio para todos os progressistas nos EUA e para o movimento anti-guerra em particular é como transformar este contratempo para Bush numa luta mais consistente nas fábricas, nas escolas, nos escritórios e nas ruas para realmente desafiar o novo Congresso e a velha Casa Branca e acabar com a ocupação do Iraque.

*Analista político, membro do gabinete de Ramsey Clark

Tradução de João Aguiar

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