O Imperialismo existe

Bruno Carvalho    08.Oct.14    Outros autores

Os discursos de Thomas Sankara eram verdadeiras lições de dignidade. À antiga colónia Alto Volta o jovem capitão decidiu propor que se chamasse Burkina Faso, terra de homens íntegros. As transformações operadas naquele país foram tão profundas que o imperialismo tomou as medidas do costume: por encomenda da França foi assassinado pelo seu camarada Blaise Compaore.

O processo mental de construção daquilo que quero escrever é uma espécie de nuvem que se vai alimentando de factos até crescer de tal forma que desagua numa tormentosa necessidade de escrever. Acontecimentos tão distantes geograficamente como os que se passam no Curdistão, na Venezuela e em Portugal cruzam-se com outros cuja distância não se mede em quilómetros mas em anos. Há pouco tempo, com um amigo colombiano que visitava a capital portuguesa pela primeira vez, debatíamos sobre a miserável assepsia que brotava da ideia dominante de que a Europa era um continente exemplar. Meses antes, havíamos estado num remodelado mercado de uma cidade europeia que já fora palco de violentos combates entre o operariado e as forças da repressão. Depois de um processo de reconfiguração, o que havia sido um importante centro industrial era agora um cartão-de-visita para o turismo. Do fumo das granadas de gás e dos fortes cheiros que cuspiam as fábricas envolventes aos estaleiros, agora o ar que se respira é quase impoluto.

Quando entrámos no mercado deparámo-nos com a existência de escadas rolantes e o espaço era tão limpo que ao meu companheiro de viagem não lhe coube mais do que dizer: «No joda, esto en Colombia no seria un mercado. Seria un hospital». Pensei no mesmo. E também cheguei à conclusão que é aquilo no que querem transformar Lisboa. Depois da privatização da indústria e do seu desmantelamento, a Lisboa já não cabe mais do que o simpático epíteto de «a cidade que está na moda». Dizia-nos há poucos dias Paulo Portas, irrevogável vice-primeiro-ministro, que fomos beneficiados pelas ‘primaveras árabes’ mas que também nos tínhamos esforçado por conquistar o turismo. E as duas coisas são verdade. O facto é que durante décadas o processo contra-revolucionário exigiu um esforço tremendo dos grandes grupos económicos e financeiros para entregar o país à União Europeia e aprisioná-lo à lógica imperialista do mercado europeu: a Portugal não lhe cabe mais do que o turismo e a construção.

Enquanto debatíamos o tema no Miradouro de Santa Luzia, aproximou-se um vendedor de óculos e relógios. Perguntámos-lhe donde era e respondeu-nos que vinha do Burkina Faso. Levei a mão à cabeça, fiz a continência e em francês disse-lhe «Viva o capitão Thomas Sankara!». Surpreendido e emocionado agarrou no telemóvel e mostrou-nos a música que tinha como toque de chamada. Numa das partes mais velhas de Lisboa, soava a canção dos Alpha Blondy dedicada a um dos mais desconhecidos lideres revolucionários africanos que acabou assassinado pelo seu camarada Blaise Compaore, comprado pelo imperialismo francês.

Os discursos de Thomas Sankara eram verdadeiras lições de dignidade. À antiga colónia Alto Volta, o jovem capitão decidiu propor que se chamasse Burkina Faso, terra de homens íntegros. As transformações operadas naquele país foram tão profundas que o imperialismo não teve outra opção. Numa sessão da Organização da Unidade Africana, posteriormente União Africana, deixou em cima da mesa a proposta de suspender o pagamento da dívida e apelou a que todos o seguissem. Se ele fosse o único presidente a fazê-lo, a probabilidade de não estar vivo na seguinte sessão seria elevada.
Thomas Sankara surgiu-me há dias na minha nuvem mental quando recordei um discurso que fez nos anos 80 em Ouagadougou. «Há gente que me pergunta o que é o imperialismo», contava à assistência, «olha simplesmente para o prato que comes. O milho e o arroz importado, isso é o imperialismo. Não há que ir mais longe. Aquele que te alimenta impõe a sua vontade sobre ti». É dessa mesma realidade que se alimenta a revolta dos pescadores portugueses impedidos pela União Europeia de pescar sardinhas no mar português enquanto as nossas mesas se enchem de produtos estrangeiros.
É tremendamente doloroso explicar o que é o imperialismo às consciências colonizadas pela assepsia europeísta. Se o conceito de luta de classes lhes cheira a mofo e lhes faz lembrar a roupa coçada dos avós que suavam na Sorefame e na Cometna como não hão-de preferir Jacques Delors a Jerónimo de Sousa? As consignas do Maio de 68 soam sempre melhores que as do operariado da Amadora ou do Barreiro e Lénine teve azar de ter nascido russo porque se tem nascido em Roma ou em Berlim, e, claro se não tem encabeçado a revolução, faria parte da bibliografia da esquerda tolerável. Falar da necessidade de recuperar a soberania nacional é para eles um sacrilégio que equivale a todo o tipo de impropérios contra a esquerda que supostamente convive com o nacionalismo quando se sabe que a direita, a que representa os grandes grupos económicos e financeiros, aquela que tem de ser derrotada, convive muito melhor com o europeísmo e tolera muito melhor aqueles que à esquerda se digam a favor do projecto europeu.

Num continente em que o grito pátria ou morte é património da esquerda, esta discussão é praticamente inexistente. Os grandes heróis latino-americanos não foram académicos. Foram, na sua maioria, combatentes que lutaram pela independência e pelo socialismo. Não se chamam Toni Negri ou Daniel Bensaid. Sobre isto, tive a oportunidade de conversar muitas vezes com Juan Contreras, destacado dirigente do 23 de Enero, bairro simultaneamente bastião e símbolo do sector mais combativo da revolução bolivariana. De noite e de dia, os militantes da Coordinadora Simón Bolívar montavam guarda ao busto de Manuel Marulanda Vélez, líder histórico das FARC. A qualquer momento, o paramilitarismo colombiano infiltrado na Venezuela podia atentar contra o monumento. Isso nunca aconteceu mas Robert Serra, o jovem deputado venezuelano caiu assassinado mais a sua companheira pela navalha do imperialismo.

Eu vivi de perto a eleição de Robert Serra para a Assembleia Nacional venezuelana precisamente porque Juan Contreras se candidatava como suplente de Serra. Ambos encabeçavam a candidatura à parte ocidental de Caracas, zona profundamente chavista. Não consigo imaginar o que deve ser para Juan assumir nestas circunstâncias o lugar de Serra mas como qualquer revolucionário as declarações que fez à imprensa só podiam ser as que fez: «Nunca desejei que fosse numa situação como esta de dor e tristeza para o país. Darei todo o meu empenho». Será provavelmente o primeiro militante dos colectivos do 23 de Enero, tão temidos pela burguesia venezuelana, a sentar-se nas bancadas parlamentares.

Há dias, num outro artigo, comentava que talvez houvesse muita gente que só venha a acreditar na interferência imperialista em processos soberanos quando se desclassifiquem documentos da CIA dentro de várias décadas. Mas há declarações que denotam o óbvio. O vice-presidente dos Estados Unidos, Joe Biden, admitia, anteontem, que a União Europeia não queria sancionar a Rússia e que Washington impôs essa solução. Um dia antes, na escola Harvard Kennedy, Biden afirmava que o presidente turco tinha admitido o erro de financiar com milhões de dólares e dezenas de milhares de toneladas de armas para qualquer grupo que combatesse Bashar al-Assad e que o grupo mais beneficiado havia sido o Estado Islâmico (ISIS). Ante a confissão, Erdogan respondeu de forma intempestiva o que obrigou o vice-presidente norte-americano a pedir desculpa.

Portanto, o Estado Islâmico não tem nada, mesmo nada a ver com os Estados Unidos. Deve ser por isso que não se atreve a atacar nenhum dos aliados do imperialismo que partilham fronteira com o Iraque ou com a Síria: Turquia, Arábia Saudita e Israel. Só não vê quem não quer. É tão descarado que a própria Euronews noticiava esta manhã que a Turquia está a travar curdos que querem atravessar a fronteira que divide o Curdistão turco e o Curdistão sírio para combater o ISIS em Kobani. O líder da guerrilha curda PKK, Abdullah Ocalan, ameaçou romper o processo de paz se a Turquia for conivente com a invasão de Kobani e com o massacre da população. Há vários dias que a cidade curda está a ser assediada pelas forças do ISIS com a resistência heróica de um povo habituado a ser maltratado.

É mais do que hora de rebentar com o muro ideológico que nos impõe todos os preconceitos que nos fazem duvidar quase sempre das quase certezas em relação àquilo que o imperialismo é capaz de fazer. Por que é mais fácil acreditar que Bashar al-Assad é responsável por bombardeamentos químicos do que o contrário? Por que teriam mais credibilidade os representantes da oligarquia europeia do que Muammar Kadhaffi? Porque vivia numa tenda rodeado de uma guarda feminina de elite? É tão difícil perceber que há uma estratégia concertada do imperialismo que golpeia neste momento simultaneamente povos que resistem com toda a legitimidade? De entre todas as contradições, por que não conseguimos compreender como já havia formulado Lénine, há um século, que «os homens sempre foram na política vítimas ingénuas do engano dos outros e do próprio, e continuarão a sê-lo, enquanto não aprenderem a descobrir que por trás de todas as frases, declarações e promessas morais, religiosas, políticas e sociais estão os interesses de uma ou de outra classe»?

Fonte: http://manifesto74.blogspot.pt/2014/10/o-imperialismo-existe.html#more

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