O inexplicado caso do dinheiro volátil

Correia da Fonseca    26.Jun.12    Colaboradores

O Norberto muito se espanta, e bem mais que isso, muito se indigna, quando agora aparecem na televisão uns senhores bem-falantes e muito sábios a avisá-lo de que pode muito bem acontecer que um dia destes a sua pensão de reforma, alcançada ao cabo de 50 anos de duros trabalhos, não possa ser-lhe paga. Por não haver dinheiro, sobretudo se os senhores Mercados se zangarem. Mas que fez o Estado ao dinheiro que Norberto tão duramente descontou?

1. O Norberto, coitado, começou a trabalhar cedo. Como aliás aconteceu à generalidade dos adolescentes naqueles anos distantes. Tinha ele 15 anos e os pais explicaram-lhe: acabara o seu cursozinho comercial, já começava a ter barba na cara, e sobretudo os pais já não aguentavam nem mesmo as despesas mínimas que a vida cada vez mais cara impunha. Tinha de empregar-se. E assim foi. Respondeu a muitos anúncios e lá arranjou emprego num escritório de importações da Baixa lisboeta. O dinheiro era pouco, mas era dinheiro. E logo então começou a descontar sobre ele, para a Previdência, uma verba a que se acrescentava a parte da contribuição patronal, de facto um outro fragmento do seu salário, pois era claro que ao fixarem-lhe o ordenado mensal os patrões já levavam em conta o encargo representado pelo pagamento que efectuariam para a mesma previdência. Numa outra linguagem, digamos que no caso do Norberto como no de todos os outros trabalhadores a contribuição patronal saía também da mais-valia que ele disponibilizava em favor do negócio patronal.

2. Foi assim quando o Norberto tinha 15 anos, e aconteceu que ele trabalhou até aos 65 anos de idade, isto é, que ao longo de meio século foram extraídas do seu trabalho contribuições para a Previdência ou, se se quiser usar a designação escolhida muitos anos depois do seu primeiro salário, para a Segurança Social. Foi muito dinheiro. Dir-se-á que os descontos entregues nos primeiros 10 anos, por exemplo, foram uma insignificância se o seu valor nominal encarado com olhos actuais. Pois sim, mas não parece ser essa a maneira certa de avaliá-lo: naquela altura eram valores significativos, e parece claro que a sua entrega à então Previdência Social tivesse em vista que essa excelentíssima senhora arrecadasse esses dinheiros debaixo de um qualquer colchão, como nos mais tradicionais velhos tempos, mas sim que os aplicasse de modo a que pelo menos não fossem anulados pelo poder das inflações. Porque a Previdência, tal como a actual Segurança Social, não era uma velhota de carrapito mas sim nada mais nada menos que o Estado Português. Fascista, mas Estado. Fascista, mas Português.

3. Por isso o Norberto muito se espanta, e bem mais que isso, muito se indigna, quando agora aparecem na televisão uns senhores bem-falantes e muito sábios a avisá-lo de que pode muito bem acontecer que um dia destes a sua pensão de reforma, alcançada ao cabo de 50 anos de duros trabalhos, não possa ser-lhe paga. Por não haver dinheiro, sobretudo se os senhores Mercados se zangarem. E a ameaça traz atrelada uma explicação: a de que a reforma do Norberto, como a de todos os Norbertos deste amargo País, tem de ser paga pelo trabalho das «gerações seguintes» cada vez mais minguadas no tamanho e nas contribuições entregues ao Estado. Essa é boa! refila o Norberto, então que é feito do meu dinheiro confiado ao Estado e não a qualquer carteirista de autocarro? O que fez dele o Estado, onde o meteu, a quem o entregou? O Norberto sente-se roubado e, complementarmente, um pouco escarnecido como todos os abusados na sua boa-fé. No mínimo, não percebe, chega a pensar que talvez o dr. Eugénio Rosa lhe pudesse explicar como e porquê se volatilizou o seu dinheiro, isto é, o seu suor de meio-século, mas acontece que o dr. Eugénio Rosa nunca aparece na televisão. Ao espanto e à indignação do Norberto somam-se o desespero e a ira. Se a coisa continua assim, se as ameaças que a TV lhe traz prosseguem e nenhuma explicação o vem apaziguar, não sei onde é que isto vai parar.

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