O Intensificar da luta global por Energia

Michael Klare*    28.Oct.06    Colaboradores

“…Muitos líderes nacionais estão agora a colocar maior ênfase na aquisição de crescentes provimentos de gás natural. Porque o gás natural foi desenvolvido apenas depois do ciclo industrial do petróleo, as suas principais reservas ainda não foram completamente exauridas e os novos campos - como os do Irão e os do mar do Este Chinês - esperam ainda pelo seu desenvolvimento em larga escala.”

De Washington a Nova Deli, de Caracas a Moscovo e Pequim, líderes nacionais e executivos empresariais estão a aumentar os seus esforços para ganhar controlo sobre as principais fontes de petróleo e gás natural,
à medida que a luta global pela energia se intensifica. Nunca antes a competição pelo petróleo e gás natural não explorados (untapped) foi tão aguda e nunca tanto dinheiro assim como esforços diplomáticos
e militares foram investidos na corrida para ganhar controlo sobre as mais importantes reservas (stockpiles) estrangeiras de energia. O sucesso ou
fracasso dos governos nestes negócios está a ser tratado como “notícias de capa”, a um nível sem precedentes, e provoca protestos públicos quando um
estado rival é visto como tendo beneficiado injustamente de uma determinada transação. Com políticos de numerosos países debaixo de crescente pressão para satisfazer as necessidades individuais de seus países - a qualquer custo - a batalha pela energia pode apenas ficar mais inflamada nos anos que se seguem.

Esta luta está a ser guiada por um enorme e inescapável facto: a produção mundial de energia não está a crescer suficientemente rápido para acompanhar a acelerada procura, especialmente a procura dos Estados Unidos e dos países em desenvolvimento da Ásia. De acordo com o Departamento de Energia (DoE, em sigla inglesa), o consumo global de energia vai crescer em mais de 50% durante o primeiro quarto do século 21 - de uns estimados 404 para uns 623 quatriliões de British thermal units (BTUs, em sigla inglesa) por ano. O petróleo e o gás natural vão ser alvo de um particular aumento de procura. Para 2025, o consumo global de petróleo está projectado para crescer 57%, de 157 para 245 quatriliões de BTUs, enquanto o consumo de gás natural está projectado para ter uma taxa de crescimento de 68%, de 93 para 157
quatriliões (1024). Parece, contudo, improvável que as companhias de energia globais serão capazes de prover tais quantidades de petróleo e gás n. Nas próximas décadas, seja por razões políticas, económicas ou geológicas. Com o aumento dos preços por todo o mundo e focos de escassez em perspectiva, todas as nações grandes consumidoras estão a ficar debaixo de crescente pressão para maximizar a sua fatia do provimento energético disponível. Inevitavelmente, estas pressões vão confrontar um estado contra o outro numa corrida competitiva pelo petróleo e gás natural.

Procura Frenética

No passado, tais competições de “soma-zero” (zero-sum) entre grandes potências acerca de valiosos recursos levou à guerra. Se isso se vai provar verdadeiro no caso do petróleo e gás continua por ser visto. Mas a pressão para maximizar o provimento energético está já a moldar as decisões de política externa de muitos estados e a gerar novas tensões internacionais.
Considere-se, por exemplo, os seguintes recentes desenvolvimentos:

A decisão do Japão de iniciar a produção de gás natural na área disputada do Mar da China Este provocou (sparked) protestos anti-japoneses massivos
na China em 16 de Abril, a pior escalada de tais animosidades desde à 30 anos. Apesar dos líderes de ambos os países terem tentado acalmar os ânimos
(diffuse) prometendo novos esforços de reconciliação, nenhum dos lados retirou as suas pretensões de territórios offshore. Apesar de outros assuntos terem alimentado o descontentamento popular, nomeadamente a relutância do Japão em expressar remorsos pelas atrocidades cometidas pelas suas forças na Segunda Guerra Mundial, a iniciativa unilateral de Tóquio de começar a extrair gás natural do Mar da China Este foi o factor preponderante (precipitating). Ao centro da disputa encontram-se os direitos de propriedade de um potencialmente vasto campo de gás offshore (de águas profundas) numa área disputada entre a costa central da China e o arquipélago das ilhas japonesas de Ryukyu. Porquanto a fronteira marítima entre a China e Japão ainda não foi estabelecida, nenhum dos lados está disponível para aceitar a extracção de gás pelo outro no “território nacional” disputado. Logo, quando Tóquio anunciou em 13 de Abril que iria permitir a companhias japonesas perfurar e extrair poços em águas que são reivindicadas pela China, Pequim não teve problemas em permitir uma longa semana de protestos de fervor nacionalista nas ruas chinesas, sem precedentes.

Durante a sua primeira visita à Índia como Secretária de Estado, Condoleezza Rice apelou a Nova Deli que se afastasse do plano de importar gás natural por um gasoduto (pipeline) vindo do Irão, justificando que tal iniciativa iria frustrar os esforços dos EUA em isolar o regime de linha dura clerical de Teerão.

“Nós comunicamos ao governo indiano as nossas preocupações sobre a cooperação acerca do gasoduto entre os governos da Índia e do Irão,” disse ela em 16 de Março depois de um encontro com o ministro de negócios estrangeiros indiano Natwar Singh em Nova Deli. Mas os indianos deixaram bem claro que o seu desejo por provimentos de energia adicionais sobrepõem-se à oposição ideológica de Washington ao regime iraniano. Declarando que o gasoduto proposto vai ser necessário para cobrir as necessidades crescentes indianas, Singh disse aos jornalistas, “Nós não temos qualquer tipo de problemas com o Irão.

Um mês depois do seu encontro em Nova Deli, Rice viajou para Moscovo e pressionou o presidente Vladimir Putin a abrir a indústria energética russa ao
investimento crescente das companhias norte-americanas. Notando que a perseguição de Moscovo ao gigante energético privado, Yukos, assim como as
restrições impostas ao investimento estrangeiro nos projectos de produção de energia iriam desencorajar as companhias estadunidenses a colaborar no
desenvolvimento das vastas reservas petrolíferas russas, Rice implorou a Putin que adoptasse uma postura mais convidativa. “O que a Rússia pode fazer é adoptar políticas no seu sector energético em termos de desenvolvimento do seu sector da energia que vão aumentar o seu provimento de petróleo no curto
prazo… e no longo prazo,” disse ela. Mas enquanto agradecia o apelo de Rice por novos desenvolvimentos das relações Rússia-EUA, Putin não evidenciava qualquer inclinação para retroceder nos seus planos de aumentar o controlo estatal sobre as companhias energéticas russas e de usar esta autoridade para avançar nos objectivos geoestratégicos de Moscovo.

Em 25 de Abril, o presidente George W. Bush encontrou-se com o príncipe Abdullah da Arábia Saudita no seu rancho de Crawford, no Texas, e exortou-o a expandir substancialmente a produção petrolífera saudita de modo a poder baixar os preços da gasolina norte-americanos. “O príncipe real compreende que é muito importante ter a certeza que o preço é razoável,” observou Bush antes do encontro. “Um preço alto vai danificar os mercados e ele sabe disso.” Bush e Abdullah também discutiram o conflito Israelo-Palestiniano e a contínua ameaça do terrorismo, mas o consumo do petróleo dominou a conferência de Crawford.

Demonstrando o grau em que os assuntos energéticos vieram a colocar em segundo plano as mais tradicionais preocupações securitárias, tanto a Secretária de Estado Condoleezza Rice como o Conselheiro de Segurança Nacional Stephen Hadley enfatizaram a importância de aumentar a produção mundial de petróleo nos seus comentários no encontro. “Obviamente, com os
estados como a Índia, China e outros entrando em cena (na economia global), existe preocupação sobre a procura e oferta,” observou Rice. “E estes assuntos têm de ser enfrentados.

Desenvolvimentos como este, e os comentários de Rice ao encontro Bush-Abdullah, captam a essência da corrente equação energética: A procura está a aumentar globalmente; a produção não está a aumentar suficientemente para saciar as necessidades globais; e a luta global para controlar quaisquer provimentos acessíveis tornou-se mais intensa e fratricida. Porque o primeiro e segundo destes factores não são prováveis de acalmar nos próximos anos, o terceiro só pode crescer pronunciadamente.

Procura Insaciável

As economias - todas elas - funcionam à base de energia. A energia é precisa para produzir os alimentos e os produtos manufacturados, máquinas eléctricas e aplicações, transporte de matérias-primas e produtos finais, além de prover luz e calor. Quanto mais energia existe acessível à sociedade, melhores são as suas perspectivas de crescimento sustentado; quando os provimentos energéticos declinam, as economias abrandam até à paralisia e as populações afectadas sofrem.

Desde a Segunda Guerra Mundial, o crescimento económico por todo o mundo tem sido alimentado largamente por abundantes reservas de hidrocarbonetos - isto é, por petróleo e gás natural. Desde 1950, o consumo global de petróleo multiplicou por oito, de aproximadamente 10 milhões de barris por dia para 80; o consumo de gás natural, que começou de uma base mais pequena, cresceu dramaticamente. Os Hidrocarbonetos actualmente satisfazem 62% do consumo total mundial de energia, aproximadamente 250 quatriliões de BTUs dentro de um total de 404 quatriliões. Mas independentemente de quanto eles são importantes hoje, os hidrocarbonetos provarão, com certeza, ser ainda mais cruciais no futuro. De acordo com o Departamento da Energia (dos EUA), o petróleo e gás natural vão significar 65% da energia mundial em 2025, uma proporção maior que a de hoje; e porque nenhuma outra fonte de energia está actualmente acessível para substituí-los, a futura saúde da economia global reside na nossa capacidade de produzir mais e mais destes hidrocarbonetos.

A futuro acessibilidade (aprovisionamento) do petróleo e gás também afecta outro aspecto da equação económica global: o crescente desafio às velhas nações industrializadas pelas novas e dinâmicas economias do Sudeste Asiático, Ásia do Sul e a América Latina. Presentemente, os países industrializados somam aproximadamente dois terços do uso total da energia
global. Porque estes países, a maior parte deles, possuem economias maduras e eficientes, as suas procuras por energia estão previstas a crescer por uma relativamente modesta taxa de 35% entre 2001 e 2025, uma taxa concebível de gerir. Mas a procura dos países em desenvolvimento (emergentes) está a explodir. Lá para 2025, os países em desenvolvimento estão projectados a atingir uma impressionante metade do total do consumo global de energia. Quando a soma das suas procuras é adicionada à dos países industrializados, o crescimento médio (net increase) mundial salta para os 54% no mesmo período de tempo, um desafio muito mais exigente para a indústria global de energia.

A competição por aprovisionamento de hidrocarbonetos vai ser particularmente intensa. De acordo com o Departamento de Energia (dos EUA), o consumo de petróleo pelos países em desenvolvimento vai aumentar em 96% entre 2001 e 2025, enquanto o consumo de gás natural vai aumentar em 103%. Para a China e Índia, a taxa de crescimento é ainda mais dramática: o consumo de petróleo da China está projectado subir em 156% neste período e o da Índia em 152%. A luta que estes países e outras potências do consumo energético em desenvolvimento como o Brasil e a Coreia do Sul, enfrentam para obter quantidades de petróleo e gás adicionais para as suas economias em crescimento, vai naturalmente confronta-los contra as velhas nações industrializadas numa perseguição frenética (competitiva) por energia. Como foi sugerido por Rice, “com estados como a China, Índia e outros entrando em cena, existe preocupação com a procura e oferta.”

Oferta questionável

Acomodar a crescente procura Chinesa e Indiana não seria um problema significativo se tivéssemos grande confiança que a indústria energética é capaz de gerar as quantidades adicionais necessárias. De facto, o Departamento de Energia (DoE) quer que acreditemos que este é, de facto, o caso. Segundo o DoE a produção de petróleo futura vai ser mais do que adequada para satisfazer a antecipada procura mundial. Mas muitos especialistas discutem esta visão. Eles afirmam que a produção mundial de petróleo e de gás nunca atingiu tão elevados níveis. Isto é verdade porque muito das reservas de hidrocarbonetos globais conhecidas, já foram esgotadas e insuficientes novos campos foram descobertos em anos recentes para fazer face à depleção dos reservatórios “maduros”.

Analisemos o caso do petróleo. O DoE prevê que a extracção global de petróleo vai atingir os 120,6 milhões de barris por dia em 2025 - 44 milhões de barris a mais que no presente e à apenas uma pequeníssima quantidade da procura global, antecipada em 121 milhões de barris por dia. Para isto ocorrer, contudo, as grandes companhias petrolíferas têm de descobrir massivas novas reservas e substancialmente aumentar a sua extracção dos campos existentes.
Contudo, poucos novos grandes campos foram descobertos durante os últimos 40 anos, e apenas um, o campo Kashagan no mar Cáspio foi descoberto na última década. Ao mesmo tempo, muitos campos maduros na América do Norte, Rússia e no Médio Oriente têm experimentado significativos declínios na produção diária. Daí que, muitos geólogos agora acreditem que não só a indústria petrolífera global não será capaz de atingir o nível dos 120 milhões de barris como vai decair muito abaixo.

As previsões que a produção global de petróleo vai atingir um pico (teto máximo) entre agora e 2025, muito aquém das projecções do DoE, altamente controversas. Este não é o lugar para considerar confrontar análises em detalhe. Mas uma maneira de chegar ao ponto fulcral neste assunto é indagar o caso fundamental da Arábia Saudita, o maior produtor mundial e o mais provável prospecto para aumentar a produção no futuro. De acordo com o DoE, a produção de petróleo da Arábia Saudita vai mais do que duplicar entre 2001 e 2025, saltando de 10,22 para 22,5 milhões de barris por dia. Se a Arábia Saudita pudesse, de facto, aumentar a sua produção por esta quantidade, nós teríamos algum grau de confiança que a produção mundial total poderia satisfazer a procura antecipada mesmo ao fim deste período. Mas há indicações de que a Arábia Saudita não é capaz de chegar nem perto desse número. Num muito discutido artigo do New York Times de 2004, o analista de negócios Jeff Gerth relatou que “executivos de companhias petrolíferas e membros do governo nos Estados Unidos… dizem que a capacidade vai provavelmente estagnar aos níveis actuais, potencialmente criando uma escassez significativa na produção mundial de energia”.

Em resposta às asserções de Gerth, funcionários sauditas insistiram que o país é totalmente capaz de aumentar a produção diária por uma quantidade suficiente para satisfazer as necessidades mundiais antecipadas. “Se [a maior procura global] realmente se materializar… nós estaremos preparados para cobri-la,” declarou o Ministro do Petróleo saudita, Ali I. Al-Naimi, em fevereiro de 2004. Em particular, “nós olhamos para cenários de 12 milhões [de barris por dia] de capacidade, nós olhamos para 15 milhões de capacidade e esses são praticáveis.” Tais pronunciamentos proporcionaram algum alívio a aqueles que se sentiram alarmados com o relato de Gerth. Mas note-se que Al-Naimi falou apenas de “cenários” para atingir os 12 ou 15 milhões de barris – dificilmente se pode chamar a isto uma ninharia - e mesmo um aumento de esse tamanho ficaria muito aquém dos 22,5 milhões de barris projectados pelo Departamento de Energia. Muitos analistas de energia já sugeriram, adicionalmente, que qualquer esforço da Arábia Saudita para aumentar a sua produção diária acima de 10 milhões de barris por dia por qualquer período de tempo vai causar danos irreparáveis aos seus campos e resultar numa inevitável queda a longo termo na sua produção. Como nota um executivo experiente saudita, uma tentativa de atingir os 12 milhões de barris por dia “semearia o caos (wreak havoc) dentro de uma década”.

A questão da futura produção petrolífera saudita é terrivelmente importante para esta discussão porque é altamente improvável que qualquer outro produtor, ou combinação de produtores, possa cobrir a diferença entre a extracção sustentável saudita entre 10 e 12 milhões de barris por dia e o objectivo dos 22,5 milhões de barris do DoE para a produção saudita de 2025. De outros grandes produtores - Irão, Kuwait, Nigéria, Rússia e Venezuela - espera-se que tenham dificuldades suficientes em manter o seu nível de produção a níveis correntes e tampouco se espera que possam cobrir o petróleo saudita “em falta”. Sendo este o caso, parece altamente improvável que a indústria petrolífera global vai ser capaz de satisfazer a procura mundial antecipada nos próximos anos; em vez disso, nós devíamos esperar escassez crónicas de petróleo, preços mais altos e persistentes dificuldades económicas.

Precisamente por causa desta perspectiva, muitos líderes nacionais estão agora a colocar maior ênfase na aquisição de crescentes provimentos de gás natural. Porque o gás natural foi desenvolvido apenas depois do ciclo industrial do petróleo, as suas principais reservas ainda não foram completamente exauridas e os novos campos - como os do Irão e os do mar do Este Chinês - esperam ainda pelo seu desenvolvimento em larga escala. Tal como o petróleo, o gás natural vai eventualmente chegar a um pico de produção, mas isto não é provável que ocorra em menos de um década ou por aí, depois do petróleo atingir o seu pico. À medida que a produção petrolífera declina, como consequência, o gás natural é esperado cobrir algum do declínio - mas apenas algum, porque não há suficiente gás no mundo para substituir completamente o petróleo na sua miríade de utilizações. E é por essa razão que muitos governos procuram ganhar acesso às principais reservas de gás agora, antes que elas estejam bloqueadas pelo domínio de outros.

O intensificar da luta

O que podemos esperar do intensificar da luta pelos valiosos recursos energéticos? Certamente, os líderes nacionais estão a colocar um maior ênfase na perseguição competitiva por energia como Condoleezza Rice tornou claro em recentes declarações em viagens (internacionais) pelo mundo. Seja na Índia, Rússia ou na América Latina ela levantou o assunto da energia em todas as vezes, pressionando os aliados dos Estados Unidos e parceiros de negócios, ambos, para prover-nos (aos Estados Unidos) com mais petróleo e ignorar o apelo dos produtores “vilões” como o Irão e a Venezuela. Outros líderes mundiais como Vladimir Putin da Rússia e Junichiro Koizumi do Japão têm-se comportado num estilo semelhante (com os seus interesses). Surpreendente, de facto, é o grau a que a luta de conquista pela energia foi elevado ao nível da segurança nacional, num mesmo plano que os esforços para combater a proliferação nuclear e o terrorismo internacional. De tal modo que, foi o conselheiro do presidente para a segurança nacional, Stephen Hadley, que compareceu diante dos jornalistas na conclusão da conferência de Crawford entre Bush e Abdullah. “As notícias que vêem do encontro têm de ser boas notícias para os mercados [energéticos],” declarou ele em 25 de Abril - não boas notícias na guerra contra o terror ou no esforço para promover a paz entre Israel e os Palestinianos.

A secretária de estado Rice, contudo, ofereceu as mais esclarecedoras observações depois do encontro de 25 de Abril. Os problemas emergindo da insuficiente produção para cobrir o consumo mundial de petróleo, disse ela, “têm de ser enfrentados, não com “diálogos brandos” (jawboning), mas com um plano estratégico para lidar com o problema.” Qualquer pessoa familiar com o léxico da administração Bush não pode senão ficar intrigada com este apelo para um “plano estratégico” para obter energia adicional, impregnada que está da postura belicosa da administração, estratégia (de guerra) preventiva para lidar com o terrorismo, “estados vilões” e armas de destruição massiva. Aquilo que exactamente Rice quis dizer não é inteiramente claro, mas certamente sugere que os assuntos energéticos vão ser predominantes na política externa dos Estados Unidos e na política militar do segundo mandato de Bush.

E aquilo que é verdade para os Estados Unidos também é provável que seja para os outros países, grandes importadores de petróleo. Avisando que a China ultrapassou a Índia na perseguição por novas reservas de petróleo e gás, o primeiro ministro indiano Manmohan Singh declarou em janeiro que Nova Deli teria que acelerar os seus esforços nesta área. “Eu vejo a China em vantagem em relação a nós no planeamento para o futuro no tema da segurança energética,” ele disse a uma convenção de executivos indianos de petróleo e gás. “Nós não podemos mais ser complacentes e temos de aprender a pensar estrategicamente, pensar à frente, e agir rápida e decisivamente.”

Os líderes japoneses, também, têm assinalado a necessidade de atitudes decisivas. A decisão do Japão, pobre em energia, de proceder com a extracção nas áreas contestadas do mar do Este Chinês é só uma indicação deste panorama. Igualmente importante é o esforço japonês em convencer os russos a estender o pipeline (oleoduto) de petróleo para Nakhodka no mar do Japão. Inicialmente, Moscovo esperava terminar o pipeline de Daquing na China como parte do plano para fortalecer a cooperação energética sino-russa. Mas depois que o primeiro ministro Koizumi voou para Moscovo e ofereceu biliões de dólares adicionais em ajuda e tecnologia para a Rússia, o presidente Putin indicou a sua preferência pela rota para Nakhodka, que vai, obviamente facilitar as entregas de petróleo para o Japão. Isto não deteve os líderes chineses de procurar reverter esta decisão, invocando que a “parceria estratégica” entre Moscovo e Pequim supera os interesses puramente mercantis do Japão.

Até agora, nenhum destes esforços teve como consequência algo mais do que esgrima verbal - “diálogos brandos,” para usar o termo de Rice – assim como batalhas competitivas comerciais (por quem dá mais) e o explodir de protestos de rua ocasionais, como os de Xangai e Pequim. Mas se a história pode servir de guia, tais fricções - quando combinadas com outras fontes de animosidade como os reavivados ressentimentos chineses com as atrocidades cometidas pelo Japão durante a Segunda Guerra Mundial – podem levar a formas mais violentas de competição. Este é certamente o caso do mar do Este Chinês, onde aviões e navios militares chineses e japoneses já fizeram movimentos ameaçadores um ao outro.

As tensões estão certamente a subir, mais ainda, se o Japão realmente começa a fazer extracção em águas reclamadas pela China. “Se a exploração realmente começa, nós não podemos excluir totalmente a possibilidade dos navios das companhias privadas japonesas terem de enfrentar os navios militares chineses,” Junichi Abe, um analista da Fundação Kazankai em Tóquio, disse a um repórter do New York Times. E se isto viesse a ocorrer, o governo japonês ficaria sob enorme pressão política para proteger esses barcos privados com os seus próprios aviões e navios de guerra, dessa forma construindo o palco para uma confrontação armada com a China, seja intencional ou não.

Escaladas similares poderiam ocorrer em outros casos de reivindicações por energia em disputa. No mar Cáspio, por exemplo, o Irão procura controlar os campos de petróleo e gás offshore também reivindicados pelo Azerbaijão, um aliado dos Estados Unidos. Em julho de 2001, um barco armado iraniano entrou na área contestada e perseguiu um navio de exploração de uma companhia petrolífera operando sobre os auspícios azeris. Em resposta, os Estados Unidos prometeu ajudar o Azerbaijão a construir uma pequena frota da marinha do Cáspio, para melhor proteger as suas reivindicações de energia offshore. Em 11 de Abril, John J. Fialka do Wall Street Journal revelou que o Departamento da Defesa (dos EUA) vai gastar $100 milhões de dólares durante os próximos anos para estabelecer a “Guarda do Cáspio,” uma rede de forças policiais e unidades de operações especiais “que podem responder a várias emergências, incluindo ataques à infra-estrutura petrolífera.” A Rússia está também a expandir a sua frota do Cáspio, à medida que pressiona também por campos offshore na região. Sob tais circunstâncias, é quase demasiado fácil imaginar como uma confrontação menor pode descambar em algo muito mais sério, envolvendo os Estados Unidos, a Rússia, o Irão e outros países.

As disputas territoriais deste tipo com dimensões energéticas significativas em causa podem ser encontradas no mar Vermelho, no mar do Sul Chinês, no Golfo Pérsico, no Golfo da Guiné e na Península Bakassi (um longo e estreito território reivindicado tanto pela Nigéria como pelos Camarões) entre outras regiões. Em cada uma destas zonas, partes reivindicantes opostas utilizaram a força militar ocasionalmente para garantir o seu controlo ou para afastar as forças do outro contendor. Nenhum destes incidentes levou a um conflito de grande escala, mas já se perderam vidas e o risco de combates renovados persiste. À medida que a luta global por energia se intensifica, por conseguinte, o perigo de uma escalada vai aumentar.

É importante reconhecer que as pressões relacionadas com energia estão destinadas a aumentar à medida que a procura global continua o seu rumo ascendente e os provimentos de petróleo e gás falham em aguentar o ritmo. A administração Bush, em particular, está consciente destas pressões, havendo analisado a equação global da energia no seu relatório de maio de 2001 sobre os requerimentos energéticos dos Estados Unidos. Enquanto os quadros da administração têm repetidamente negado que o petróleo tenha tido algum papel na decisão de 2003 de invadir o Iraque, eles claramente acreditaram que o controlo daquele país proviria aos Estados Unidos com enormes vantagens em qualquer luta vindoura com competidores como a China pelo filão de energia do Golfo Pérsico.

De facto, uma vez que um problema como a “segurança energética” foi cunhado como um assunto de segurança nacional, ele passa do nível económico e de política do estado para o nível de política militar. Então os
generais e os estrategistas entram em cena e começam indefinidamente a planear para “contingências” e “emergências.” Num tal ambiente que pequenos
incidentes de transformam em crises e crises em guerras. Esperem um par de décadas quentes adiante.

* Michael T. Klare é professor de paz e segurança mundial no Hampshire College e autor de “Sangue e Petróleo: Os Perigos e Consequências da Crescente Dependência Norte-Americana por Petróleo Importado” (Metropolitan Books) entre outras obras.

© 2005 Michael T. Klare

Publicado com autorização expressa do autor

Tradução de Luís Rocha

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