O interesse jornalístico e outros interesses vários*

“Avante!”    29.Jul.19    Outros autores

A comunicação social é, na sociedade actual, um negócio e assim deve ser observado e analisado. Mas não é um negócio qualquer, pois à dimensão económica junta-se a ideológica. A ligação entre os média dominantes e o capitalismo é estrutural: integrando-se em grandes grupos económicos com interesses diversificados, o seu “jornalismo” age estritamente para os promover, justificar e apoiar.

Estava-se em plena campanha para as eleições europeias, céu azul e limpo, do helicóptero a visão era boa. Paulo Rangel apreciava o panorama desolador da extensa área devastada pelos incêndios de há dois anos no centro do País. Distribuiu acusações – incompetência, descuido e incúria. Posteriormente, confrontado com a oportunidade e interesse jornalístico da visita descaradamente eleitoralista, respondeu, com algum cinismo, que bastava verificar a presença ali dos repórteres e ver o tempo ocupado nos noticiários para comprovar que sim. Os média estavam lá, portanto havia interesse…

Rangel tinha razão. O expediente encontrado para aparecer nos ecrãs e dizer umas coisas, resultara. A ideia do voo oportunista, certamente magicada por um assessor mais expedito, alcançara os objectivos, permitindo ao candidato considerar que o evento tinha valido a pena por ter atraído a presença dos profissionais da comunicação social e ele ter aparecido nos telejornais.

O interessante e o importante

O episódio, em si menosprezável, não mais do que um entre muitos exemplos do que é o oportunismo de certos políticos, em eleições ou fora delas, serve-nos apenas como pretexto para chamar a atenção de que neste caso, como em muitos outros semelhantes, estamos muito longe da definição do interesse jornalístico baseado nas boas regras da profissão, isto é, visto como sendo de interesse público. Que claramente se distingue de coisa bem diferente, que é aquilo que eventualmente poderá ser chamado interessante para o público.

O interesse público tem a ver com o que é importante para as pessoas saberem, na medida em que lhes traz informação nova e relevante para si e para os outros; tem também de ser acessível e criar interesse (no bom sentido) para o conhecimento da realidade, em toda a sua amplitude e complexidade, e para a capacidade de nela participar e intervir; tem de «explicar», no sentido de contribuir para a compreensão das causas e das consequências, dos porquês, combatendo o mero criticismo sem sentido de futuro.

O interesse do público é, no quadro em que aqui estamos a falar, o que geralmente se fica pela superficialidade, pela ligeireza, pela futilidade, muitas vezes, em termos de comunicação social, pelo sensacionalismo e ou a propaganda, dando corpo às grandes audiências e às grandes tiragens. E à alienação, no sentido em que Marx lhe deu, na relação entre o homem e o trabalho, mas também, mais genericamente, no sentido do afastamento e distanciação das realidades sociais, políticas e económicas, profundas e causais do mundo circundante.

O interesse do público, no sentido em que dele aqui falamos, está subjacente à cultura mediática em Portugal (e não só) e alicerça-se em causas profundas de natureza sociopolítica, cultural e educativa, ligadas estruturalmente à natureza da sociedade capitalista. Remete-nos para a luta pelas audiências, o aumento das tiragens, a competição entre órgãos de comunicação e empresas – isto é, para o jornalismo como negócio.

A ideologia também interessa

Mas um negócio, nunca é demais sublinhar e recordar, que além de económico é simultaneamente ideológico, seguindo as boas e velhas – vêm do séc. XIX… – regras do capitalismo. Um negócio que ao mesmo tempo que dá lucro (e quando não faz vende-se a loja e está feito) continua a ser caracterizado –- pela existência de um elevado grau de concentração da propriedade nas mãos dos senhores do dinheiro. Ao arrepio flagrante e intolerável da Constituição, nomeadamente dos artigos 38.º e 39.º.

É sabido: em Portugal os cinco maiores grupos de comunicação social são donos de praticamente todos os órgãos de maior importância e influência na imprensa, na rádio, na televisão e nas plataformas digitais de informação, com excepção do que pertence à Igreja Católica (grupo Renascença e dezenas de órgãos de imprensa regional e local) e ao Estado (RTP e Lusa).

Sublinhe-se que a influência dos média sobre as formas de pensar e agir não se exerce apenas através da imprensa noticiosa ou dos conteúdos do entretenimento, tanto na TV como na imprensa, rádio e online. A verdade é que o número de títulos e as tiragens das revistas femininas, cor-de-rosa e de televisão (geralmente mais de fofocas do que outra coisa) ultrapassam muito largamente as dos diários e semanários.

Atente-se nos números. Os jornais diários de informação geral ditos de expansão nacional (e ditos porque alguns vendem-se praticamente só no norte e outros só no sul), entre Janeiro e Abril passados e tendo em conta as vendas em banca, o Correio da Manhã, cuja política editorial é a que é, registou uma média diária de 73.192 exemplares, quase tanto como os outros diários nacionais juntos, incluindo os desportivos – Jornal de Notícias 31.918, Record 28.051, Público 13.620, O Jogo 10.061 (A Bola não é auditada e o Diário de Notícias passou em Julho a semanário).

Outros interesses, outros negócios…

A ligação entre os media dominantes, em qualquer das suas plataformas, e o capitalismo é estrutural. Através da propriedade, naturalmente, mas também, desde logo, no alargamento da implantação destes grupos a outras áreas do sector, na sua proximidade com o capital financeiro e na sua dependência da grande publicidade.

Três dos grandes grupos – Impresa, Cofina e Global – são proprietários, em partes iguais, da VASP, a maior distribuidora nacional de jornais e revistas. Alguns deles possuem grandes empresas gráficas: é o caso da Global, dona da Naveprinter, que imprime todos os jornais do grupo e outros de âmbito regional. A Global e a Impresa são accionistas, respectivamente com 23,6 por cento e 22,35 por cento, da agência de notícias Lusa, onde o Estado, no entanto, mantém a maioria do capital – e seria um desastre, para não dizer coisa mais feia, que cedendo à pressão da direita deixasse de ter uma posição maioritária na única, e prestigiada, agência de notícias nacional e também do mundo lusófono (Brasil excluído).

A proximidade ao capital financeiro revela-se pela presença da banca, directa ou indirecta, no capital social dos grupos. A maior participação directa é no Global Media Group, através doMillennium BCP do Novo Banco(com 15% cada), mas na Impresa estão o BPI e o Santander, na Media Capital a Caixa de Aforros da Galiza e na Cofina o Crédit Suisse e o Santander.

Os interesses alargam-se também para fora dos média, numa estratégia exterior à comunicação social propriamente dita. Por exemplo, A Global Media criou o ano passado, «no quadro de expansão das áreas de negócio do grupo, com consequente organização funcional», uma nova estrutura denominada Direcção de Novos Negócios e Internacionalização. A dona do Diário do Notícias, O Jogo e TSF, adianta que a Comissão Executiva «decidiu criar uma nova estrutura directiva denominada Direção de Novos Negócios e Internacionalização», sob cuja tutela estarão as áreas de e.commerce, e.gaming, eventos e brindes.

… e aí temos o Hotel SIC!

Mas a Impresa surpreendeu com um passo inesperado. Francisco Pedro Balsemão, presidente executivo do grupo Impresa, propriedade de seu pai Francisco Pinto Balsemão, disse ao Expresso em Fevereiro: «Criar um hotel com o nome da SIC é uma ideia que estamos a pensar há mais de um ano, e surgiu da força que a marca [a marca, eis o termo agora utilizado no meio, importado donde importa, ou seja, a publicidade] está a ter junto do público, a par do apelo muito forte que o mundo da televisão, com todo o seu glamour, desperta nas pessoas.»

Acrescentou Francisco Pedro: «Somos líderes de mercado, e este bom momento que a SIC vive é a melhor altura para embarcarmos em projectos que valorizam a marca em outros domínios, como o turismo, que também está em grande crescimento.»

Continuando a citar o Expresso, «num momento de alta para o mercado da televisão, e em que a Impresa acabou de inaugurar oficialmente o seu novo edifício em Paço de Arcos, o CEO do grupo gostaria que o hotel SIC começasse a ser desenvolvido já em 2019, para poder abrir as portas em 2020».

De novo Francisco Pedro: «Quanto mais cedo melhor, mas o prazo ainda não está definido e terá de ser acordado com o investidor, a par das intervenções necessárias (…) não somos nem queremos ser peritos em hotelaria, a SIC não vai ser um hoteleiro nem avançar com investimentos imobiliários, não vamos investir capital nosso na construção, pois o nosso core é produzir conteúdos editoriais e audiovisuais». O hotel vai funcionar numa «parceria tripartida», em que a SIC fornece os conteúdos temáticos (o que inclui cedência de material para um novo estúdio) e a BlueShift assegura a gestão em franchise, estando o projeto agora na fase de procurar o «terceiro parceiro», o investidor que entrará com o ativo.

«Procuramos proprietários ou exploradores de hotéis em Lisboa que vejam neste projeto uma oportunidade de conversão das suas unidades para um conceito único, e que acreditamos terá níveis de rentabilidade muito acima da média do mercado», garante ao semanário Filipe Santiago, sócio-administrador da BlueShif, esclarecendo: «já identificámos cerca de 30 ativos em Lisboa que reúnem as características que consideramos necessárias para a implementação do conceito.» Segundo o que foi dito ao Expresso, «como requisitos necessários para o Hotel SIC, destacam-se o facto de ter no mínimo 100 quartos, e uma superfície grande de lobby e áreas comuns com vista a instalar aí o estúdio televisivo que é a âncora do projeto.»

Quem diria?

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2382, 25.07.2019

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