O Irão e autoridades dos EUA participam em fórum de segurança na Rússia, mas ninguém fala nisso

Federico Pieraccini    26.Jun.19    Outros autores

No mundo de hoje, um fórum que reúna 120 países do mundo para discutir questões de segurança globais e formas de atenuar conflitos e de os resolver pela via diplomática merece todo o destaque. O fórum de Ufa vai na 10ª reunião. Os EUA, que há quatro anos não participavam, estiveram presentes. Faltando ver se essa presença terá resultados futuros, o que puderam aí constatar foi que países contra os quais conduzem acções de confronto estão longe de estar isolados.

A décima reunião internacional sobre segurança acaba de concluir-se na cidade russa de Ufa. O fórum foi subestimado, mas representa um dos poucos exemplos globais de reuniões multilaterais entre representantes de alto nível de países que estão em conflito. Centenas de representantes de 120 países participaram durante três dias na reunião para discutir crises humanitárias, guerra híbrida, ameaças terroristas e formas de recuperar de conflitos armados.
O discurso de abertura do presidente Putin foi lido pelo chefe do Conselho de Segurança russo Nikolai Patrushev, que explicou a agenda e os objectivos do fórum, nomeadamente de criar uma atmosfera positiva que poderia reduzir várias áreas de tensão entre diversos países do mundo.

“Espero que a vossa comunicação seja substancial e proveitosa, e ajude a alcançar o nosso objectivo comum de criar um sistema confiável, flexível, indivisível e igual para todos os sistemas de segurança ao nível regional e global. A saída dos EUA dos tratados de redução de armas prejudica a segurança global. Este fórum provou plenamente corresponder às necessidades e ser eficaz, garantindo um diálogo sobre a foram de lidar com desafios globais. A agenda da reunião aborda problemas que exigem soluções conjuntas e acção colectiva, superando as consequências dos conflitos armados e os problemas humanitários, bem como garantindo segurança sobre informação. ”
A notícia vinda de Ufa mais importante do dia foi revelada pela Tass:
“Um alto funcionário do Conselho de Segurança Nacional dos EUA participará numa reunião internacional de altos representantes de segurança em Ufa nos dias 18 e 20 de junho, afirmou o vice-secretário do Conselho de Segurança da Rússia, Alexander Venediktov, em entrevista ao diário Rossiyskaya Gazeta no domingo.”
Esta divulgação é particularmente relevante, porque nos últimos quatro anos os EUA não enviaram representantes a participar na reunião internacional de segurança. Este é um evento em que destacadas figuras podem reunir-se e discutir formas de superar divergências, apesar de quaisquer dificuldades actuais que possam existir entre países, como as que existem entre o Irão e os EUA.
O fórum de Ufa atraiu pouca atenção da imprensa internacional e foi até pouco divulgado no país anfitrião, com apenas a Tass a divulgar um par de notícias sobre o encontro. A falta de exposição nos media é provavelmente intencional, com a ausência do assédio mediático a permitir que a diplomacia faça calmamente seu trabalho sem distrações desnecessárias.
O mundo está numa conjuntura histórica crítica, com potenciais ou já voláteis situações presentes na península coreana, na Venezuela, Síria, Iémen, Afeganistão, Irão, Líbia, Ucrânia, Ártico, Golfo Pérsico e Báltico, Mar Negro e Mar do Sul da China. Outras situações voláteis podem ser encontradas nos domínios cibernético e de guerra da informação, bem como na competição no espaço.
Com tantos pontos de potencial atrito, uma conferência para abordar esses perigos é muito bem-vinda. O facto de 120 países terem a oportunidade de conversar e de pensar sobre possíveis formas de desescalar é uma oportunidade rara que não deveria ser desperdiçada.
Dados os actuais acontecimentos globais, os mais significativos participantes em Ufa são um alto quadro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA um alto quadro do Conselho de Segurança Nacional dos EUA e o Secretário do Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irão (SNSC), Ali Shamkhani. Até ao momento, a única notícia oficial vem das palavras de Ali Shamkhani sobre a possibilidade de mediação com os EUA e a possibilidade de o Irão adquirir sistemas de armas para se defender das ameaças dos EUA. Shamkhani afirmou:
“Enfrentamos actualmente significativas ameaças. Contudo, no que se refere à defesa aérea do nosso país, consideramos o uso de potencial estrangeiro além de nossas capacidades domésticas … A mediação está fora de questão na situação actual. Os Estados Unidos retiraram-se unilateralmente do JCPOA, desrespeitaram as suas obrigações e introduziram sanções ilegais contra o Irão. Os Estados Unidos deveriam regressar ao ponto de partida e corrigir os seus próprios erros. Este processo não necessita de mediação ”
“Isso [o aumento gradual do enriquecimento de urânio e a produção de água pesada para além dos níveis descritos no JCPOA] é uma séria decisão da República Islâmica [do Irão] e continuaremos a fazê-lo passo a passo até que os violadores da JCPOA ajam no sentido de um acordo e regressem ao cumprimento das suas obrigações. [Se os participantes do JCPOA não cumprirem o acordo, o Irão reduzirá os seus compromissos] passo a passo dentro dos mecanismos legais previstos pelo JCPOA. ”
Acusou também os EUA de “exercer pressão sobre a República Islâmica alegando que o Irão estava por trás do ataque aos petroleiros no Golfo de Omã”. Falando acerca da possibilidade de um encerramento do Estreito de Ormuz, reiterou que “o Irão protegerá as suas fronteiras e repelirá qualquer invasão”. Este funcionário afirmou também que “o Irão e os Estados Unidos não vão entrar em guerra pois não há razão para que essa guerra aconteça”.
Ali Shamkhani realizou também uma importante reunião com seu homólogo arménio para reafirmar quanto são fundamentais para a região a confiança estratégica e a cooperação entre Teerão e Yerevan, resistindo à pressão externa por parte de terceiros. Actualmente, o Irão necessita de todo o apoio internacional possível que possa obter face às tensões com os EUA. O fórum da Ufa parece ser o lugar perfeito para o Irão fazer isso acontecer. O encontro entre Ali Shamkhani e seu homólogo afegão, Hamdullah Mohib, parece reflectir isso, sendo outro exemplo de como o Irão procura mais aliados políticos.
O Afeganistão é um actor central na integração da Eurásia, e Rússia, Índia, China e Irão estão todos muito conscientes da devastação causada pela ocupação norte-americana do país.
A situação no Afeganistão parece ter melhorado recentemente, com poderes regionais agindo cada vez mais independentemente do desejo de Washington de mergulhar o país num estado perpétuo de caos e subdesenvolvimento. De facto, está previsto que a próxima reunião regional sobre o Afeganistão se realize em Teerão, com a participação de todos os cinco países com fronteira com o Afeganistão, a saber, Irão, Rússia, China, Afeganistão, Índia e Paquistão. Significativamente, Shamkhani pediu aos países vizinhos que interagissem com a oposição no Afeganistão, a fim de os atrair à mesa de negociações, limitando assim a influência no país de actores externos.
O encontro entre Mohib e Shamkhani serviu também para reiterar como a cooperação estratégica entre todas as partes relevantes é fundamental para sustentar o progresso, a paz e o desenvolvimento numa área que é fundamental para a integração eurasiana.
Ali Shamkhani proferiu também algumas declarações dirigidas a Trump e ao actual estado das relações Irão-EUA, afirmando que
“[A América de Donald Trump] é o país mais belicista da sua história… Se um amplo leque de países decide enfrentar a chantagem e o bullying ilegal dos EUA, podemos fazer com que os EUA recuem e adoptem um comportamento racional e responsável no sistema internacional. .
Falando da utilização pelos EUA do sistema bancário e das finanças internacionais como arma, Shamkhani declarou:
“Nenhuma outra designação senão a de terrorismo económico se ajusta a esse comportamento dos EUA”.
Instou os países a criarem mecanismos multilaterais para romper o domínio dos EUA sobre o sistema monetário global. Apontou também que a retirada dos EUA do acordo nuclear de 2015 com o Irão foi um golpe contra o papel da diplomacia e do diálogo na solução de desafios de segurança. No entanto muitos países, acrescentou, apreciavam o “sábio” comportamento do Irão ao dar oportunidade à diplomacia e estavam a demorar em atender à pressão dos EUA para suspender o acordo nuclear.
As palavras de Shamkhani atestam o nível de insatisfação e irritação que o Irã sente, sendo tratado de forma tão agressiva por Washington após anos de negociação para finalmente acordar o tratado nuclear, formalmente conhecido como Plano de Ação Compreensivo Conjunto (Joint Comprehensive Plan of Action, JCPOA), com satisfação de todas as partes envolvidas.
Guo Shengkun, um alto quadro de segurança Chinês que participou da conferência, destacou a importância de os países aumentarem o diálogo e a cooperação para evitar conflitos desnecessários e guerras comerciais, uma referência às acções de Washington na sua guerra comercial contra a República Popular da China.
A sua homóloga russa foi ainda mais directa, destacando o temor de Washington de uma integração eurasiana em grande escala liderada pela China e pela Rússia. Sergey Naryshkin, director do Serviço de Inteligência sobre o Estrangeiro da Rússia, declarou:
“Os EUA utilizam métodos de guerra híbrida tentando dificultar a cooperação russa, em particular com a China. Estamos a testemunhá-lo. Mais ainda, não é necessário fazer qualquer esforço para o ver, está tudo a acontecer diante dos nossos olhos.”
Comentou também como Washington explora o dólar dos EUA como moeda de reserva global para a guerra económica.
“Parece desconcertante que os EUA continuem a ser os detentores da principal moeda de reserva enquanto se comportam de forma tão agressiva e imprevisível. A posição monopolista do dólar nas relações económicas internacionais tornou-se anacrónica. Gradualmente, o dólar está a tornar-se tóxico ”.
O clima político em Ufa parece muito sereno e inclinado a favorecer o diálogo e a colaboração, mostrando como os gigantes eurasianos China, Rússia e Irão estão a trabalhar em conjunto enormes esforços para pacificar a região e além dela. A declaração director do Serviço de Inteligência sobre o Estrangeiro da Rússia, Sergey Naryshkin, sobre as novas sanções dos EUA à Guarda Revolucionária Iraniana (IRGC) revela a profunda cooperação entre Moscovo e Teerão em vários campos, incluindo a questão do terrorismo.
“Não é segredo que no decurso de muitos dos últimos anos as sanções se tornaram um método preferencial da política dos EUA. O que é especialmente alarmante é que as restrições são introduzidas de forma absolutamente arbitrária, espontânea e impulsiva. Os seus iniciadores não tomam em conta não apenas as consequências a longo prazo, mas também a opinião dos parceiros económicos mais próximos … [Quanto às sanções dos EUA contra o IRGC] O IRGC contribuiu enormemente para a luta contra o ISIS na Síria e no Iraque ”.
A reunião da Ufa não está a atrair qualquer atenção particular por parte da grande imprensa (nenhuma menção foi feita nas principais agências de notícias ocidentais). Embora lhe tenha sido dada alguma cobertura pelos media russos e chineses, a maior parte da cobertura foi dada pelos media iranianos. Este é um aspecto que merece a pena considerar, dado o actual ambiente geopolítico. Moscovo e Pequim não têm intenção de aumentar a tensão entre Washington e outros países. Manter um perfil mediático baixo é uma forma de ajudar o fórum da Ufa a agir de forma a aliviar tensões globais.
Uma guerra contra o Irão é uma linha vermelha para praticamente todos os participantes do fórum. O facto de os EUA estarem representados no fórum num momento de tensões elevadas com o Irão, especialmente depois de não terem comparecido nos quatro anos anteriores, é um bom sinal por parte da administração Trump de que está disposta a abrir um diálogo com o Irão apesar do risco de provocações continuadas ou de acidentes intencionais entre os dois países.
As palavras explícitas e directas usadas pelos representantes russos, chineses e iranianos sugerem uma coordenação completa em questões essenciais como o terrorismo, especialmente quando este é usado pelos EUA como um instrumento contra oponentes geopolíticos em todo o mundo, seja na fronteira sul da Rússia, na Síria, ou na província chinesa de Sinkiang. O terrorismo usado como instrumento do imperialismo é algo que Ufa coloca no centro dos problemas globais actuais, tentando limitar seu impacto e a sua eficácia.
Os ministros da Energia do Irão e da Rússia reuniram-se terça-feira na cidade iraniana de Isfahan para continuar as discussões sobre um programa de troca de petróleo por outros bens, em que as receitas da venda do petróleo iraniano seriam usado para pagar equipamentos e produtos agrícolas russos.
O fórum de Ufa mostra o poder combinado da Rússia e da China numa ordem global multipolar. Pequim e Moscovo parecem ser as duas únicas superpotências globais capazes de mediar e reunir países em torno de uma mesa, apesar de tensões crescentes.
A capacidade de Putin e Xi Jinping em diminuir as tensões globais num fórum tão discreto como o de Ufa (agora na sua décima edição) é a única esperança que temos para evitar ou desarmar conflitos e guerras comerciais que possam emergir em todo o mundo.

Fonte: https://www.globalresearch.ca/iran-us-officials-attend-russian-security-forum-nobody-talking-about-it/5681325

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