O lugar do Iraque no Grande Jogo entre EUA e Irão

Nazanín Armanian    14.Ene.20    Outros autores

A sina do Iraque actual é ser, além de um país ocupado, terreno onde se trava uma guerra ainda não declarada entre países terceiros: EUA, Israel e Irão. Num Médio Oriente em que, além dos EUA e do seu aliado sionista, os alinhamentos das variantes sunita e xiita do Islão – entre outros factores - tornam ainda mais complexa a questão.

Se desde 2003 os EUA e a República Islâmica do Irão (RII) coabitaram no Iraque, partilhando o poder sem quase nenhum atrito, o que é que de repente provocou um confronto directo entre ambos no solo desse país ferido? A curiosa coexistência fez com que, por exemplo, exista um aparelho de inteligência que realiza actividades “anti-iranianas” e outro, o Ministério da Informação, que faz o contrário. Calculem quantos agentes duplos podem cruzar-se atravessar num mesmo edifício num país corrupto!

“A mim agrada-me a paz”, respondeu Donald Trump à pergunta sobre se iria haver um ataque militar contra o Irão por causa do ataque à embaixada dos EUA em Bagdad. Até agora, o presidente resistiu às pressões dos NeoCon, de Israel e do complexo militar-industrial, que recorreram a multiplas provocações para o empurrar para a guerra. Israel, depois de atacar até 200 vezes nos últimos dois anos as bases das forças pró-iranianas na Síria, começou em Julho passado a lançar mísseis sobre as milícias iraniano-iraquianas das Unidades de Mobilização Popular (UMP) em território iraquiano. O último em 29 de Dezembro, em que os Estados Unidos também participaram, matando 24 dos seus homens.

“Ontem à noite tomamos umas medidas para deter uma guerra” é a frase enigmática que Trump pronunciou logo depois de assassinar Gasem Soleimani, e dado que Teerão não tinha qualquer plano para enfrentar os Estados Unidos, ele estava a referir-se a impedir um ataque maciço de Israel sobre as sedes das UMP no Iraque, o que teria provocado uma grande guerra envolvendo o Irão e os EUA? Se é assim, é possível que o presidente dos Estados Unidos tenha oferecido a cabeça do chefe iraniano da rede anti-israelense de Quds (”Sagrada”, nome árabe de Jerusalém”), em troca de Tel Aviv renunciar a essa loucura? Após a Operação Babilónia de 1981, na qual Israel bombardeou um reactor nuclear no Iraque, é a primeira vez que volta a atacar este país, e com total impunidade, como de costume. Israel está com pressa de acabar com o Irão, não está seguro da reeleição de Trump, e os democratas prometeram resgatar o acordo nuclear com o Irão se recuperarem o poder em Novembro. John Kerry lembrou ao Congresso que foi Netanyahu quem aconselhou os EUA a invadir o Iraque, com argumentos falsos.

Trump precisa do dinheiro do lobby judaico para a sua campanha eleitoral. Em 2016, o magnata de casinos judeu Sheldon Adelson doou US $ 25 milhões com a condição de que enfrentasse o Irão, e se fosse com a bomba nuclear melhor ainda, dissera. “Manter as forças militares dos EUA no Médio Oriente já não é pelo petróleo; é para proteger Israel”, confessou Trump em Novembro de 2018, embora não tenha revelado as razões desse estranho relacionamento.
A televisão iraquiana informou que Soleimani caiu numa emboscada: tinha sido convocado para ir buscar uma suposta mensagem dos EUA depositada nos seus contactos em Bagdad. Segundo o general iraniano Ali Fadavi, Trump tinha enviado uma mensagem a Teerão pedindo “proporcionalidade na sua represália”, justamente aquilo que ele ia fazer, aplicando a Lei do Olho por Olho: matar um alto cargo dos EUA, não centenas deles numa guerra. Nesse sentido, o jornal Independent em persa afirma que o ataque do Irão às bases dos EUA no Iraque foi acordado e que o seu pessoal fora evacuado antes dos disparos.
Mesmo assim, esta guerra tem a sua “lógica” e este tipo de pactos não poderá impedi-la. A guerra econômica, política e psicológica contra o Irão entra na sua fase bélica, embora de momento de baixa intensidade.

O que procura o Irão no Iraque?

Centenas de anos antes do nascimento dos EUA, os actuais territórios do Iraque eram uma província do Império Persa, e Bagdad (”Jardim da Justiça” em persa) era um paraíso terrestre. O Irão perde-o para o Império Otomano numa guerra no século XVI, e os otomanos entregaram-no ao Império Britânico na Primeira Guerra Mundial. Será em 1979 e com a revolução iraniana que os EUA organizam uma série de golpes de Estado na região, garantindo os seus interesses: no Iraque, levam ao poder Saddam Hussein, chefe dos serviços de informações e assassino de milhares de comunistas e outros democratas iraquianos, enquanto outro presidente profundamente anticomunista, o aiatolah Khomeini, é transferido de França para o Irão, país com uma poderosa esquerda e uma ampla fronteira com a URSS. A recém-instalada teocracia de extrema-direita, depois de abortar a revolução democrática, enfrenta três inimigos: União Soviética, Iraque e Israel. Este último leva a sério a intenção de Khomeini de atravessar o Iraque com as suas tropas para chegar a Jerusalém e devolvê-la aos muçulmanos (não aos palestinos). Ao não vencer Saddam na guerra de 1980-1988, a RII abandona esse sonho e atribui à Força Quds a missão de proteger o regime islâmico de Israel com uma cintura de segurança - estendida desde o Afeganistão ao Iraque, passando pela Síria, Gaza e Líbano, enquanto converte ao pragmatismo e à realpolitik (com Israel e os EUA) os seus princípios de política externa. E aí está o chamado “dilema de segurança”: Não é justamente esse expansionismo do xiismo iraniano uma das razões das ameaças à segurança do Irão?
Em 1991, quando tanto Saddam Husein como a URSS desaparecem, a RII conseguiu expandir a sua influência em toda a região, incluindo o Iraque. O facto de Bush ter instalado uma teocracia xiita em Bagdad foi um presente de Allah para a RII e um pesadelo para Israel, Turquia e Arábia Saudita. Muitos dos seus novos responsáveis tinham estado exilados no Irão de Khomeini, embora, ao contrário de outras potências estrangeiras, a RII não só tenha trabalhado entre a elite iraquiana para obter favores, como também tenha criado meia dúzia de milícias que organizam dezenas de milhares de homens armados, e uma vasta rede social e religiosa diante perante a qual se apresenta como uma “alternativa benigna” ao domínio dos EUA.
O nível de influência do Irão no Iraque é tal que, em 30 de Outubro, o primeiro-ministro Abdul Mahdi - rosto da aristocracia castrense iraquiana - declarou que se ia demitir para antecipar as eleições parlamentares. Mudou de ideia dois dias depois, após um encontro com Soleimani em Bagdad: resistirá às pressões do “inimigo”, referindo-se a dezenas de milhares de manifestantes sem água, sem luz e sem trabalho.
O Iraque é o maior parceiro comercial do Irão, onde a RII neutraliza as sanções impostas por Trump, e é daí que ele acede à Síria, e dali ao Líbano e Palestina. Nenhuma medida fará com que a RII dissolva a Força Quds, apesar de enfrentar a pior crise política e económica da sua história. De momento, seguirá a mesma política que na Síria: não responder aos ataques de Israel e dos EUA, além do necessário para fazer face à sua base social. A prioridade dos aiatolás no Iraque é impedir um governo hostil.

O Iraque nos projectos dos EUA

A queda de Pahleví mostrou aos EUA que os fantoches não estão a salvo da sublevação popular. De modo que Henry Kissinger apresentou sua doutrina de Dual Containment Policy “a política de dupla contenção”: haveria que travar o desenvolvimento económico, social, político e militar do Iraque e do Irão, - as principais reservas do petróleo do planeta, localizadas na proximidade da URSS e da China-, condenando-os ao subdesenvolvimento para os poder submeter a longo prazo. Ok! Como conseguir isso?

Entre 1980 e 1988 impõem a ambos os países uma guerra devastadora, que mata um milhão de jovens, deixa milhões mutilados e destrói grande parte da infraestrutura dos seus países. Três anos depois, coincidindo com o fim da URSS, os EUA lideram o ataque de cerca de 40 países ao minúsculo Iraque numa grande guerra de patranha e anuncia a Nova Ordem Mundial, dirigida pelo capitalismo dos EUA. Em 2003, remata a missão com o objectivo de:

• Encontrar uma saída para a dívida externa dos EUA.

• Animar o negócio de armas que deixou de ganhar dinheiro com o desaparecimento do “inimigo vermelho”.

. Privar os palestinianos do único país árabe que os defendia; Saddam foi um déspota e um reaccionário, mas foi também firmemente anti-Israel. Com a sua execução, o país judeu ganhou acesso ao petróleo iraquiano através da região curda.

• Converter o Iraque, localizado no coração do Médio Oriente, numa colónia, instalando aí a maior embaixada do mundo, a partir da qual o sinistro John Negroponte (o promotor do Batalhão 3-16 em Honduras) e Robert Ford organizarão o “divide e governa” através dos esquadrões da morte xiitas e sunitas, para afundar o país num caos controlado que dura até hoje. Ford foi depois enviado para Damasco em Janeiro de 2011 como embaixador dos EUA: não foi nessa data que começaram a explodir os carros-bomba e a guerra dos contra na Síria? Os EUA têm 12 bases militares no Iraque. Mais tarde, os EUA-Israel desmantelarão outros estados árabes: Líbia e Síria.

No entanto, os EUA falharam em desnacionalizar os 112.000 milhões de barris de petróleo iraquiano. Mais ainda, a China é o principal comprador do seu petróleo bruto, e é desde 2014 também o maior investidor estrangeiro no país e o seu principal parceiro comercial. Washington não perdoará Mahdi, por converte o Iraque no primeiro país da região a assinar um pré-acordo com Beijing para se integrar no megaprojecto da Rota da Seda.

Os EUA podem perder o Iraque, como aconteceu com o Paquistão, um dos pilares do seu domínio na Ásia Central: violaram a sua soberania enviando os seus drones que mataram milhares de pessoas “à procura do espírito de Bin Laden” e humilharam os seus líderes: o assalto à suposta casa do terrorista saudita foi a cereja no topo do bolo, que provocou a queima de dezenas de comboios da NATO que transportavam comida e munições para os 300.000 soldados no Afeganistão. No final, o “País dos Imaculados” (é o que o Paquistão quer dizer em persa e urdu) fez uma viragem radical em direcção à China.

Os EUA não serão capazes de expulsar a RII do Iraque, a menos que 1) consigam colocar no poder um homem forte sunita anti-iraniano, que depois de provocar um banho de sangue assuma o poder absoluto em todo o Iraque, ou 2) enviem de novo milhares de “jihadistas” sunitas e, após uma longa guerra civil, dividam o país em mini-estados.

A grande guerra entre os EUA e o Irão só terá início quando Washington ou Tel Aviv cruzarem a Linha Vermelha de atacar o território iraniano. Até lá o campo de batalha permanecerá o solo de outras nações, sobretudo o Iraque.

Fonte: https://blogs.publico.es/puntoyseguido/6210/el-lugar-de-iraq-en-el-gran-juego-entre-eeuu-e-iran/

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