O melhor de todos

Correia da Fonseca*    24.Ago.13    Colaboradores

O ministro da Saúde, dr. Paulo Macedo, é geralmente catalogado como o melhor dos ministros de Passos Coelho. Neste texto, Correia da Fonseca desmonta essa mediática campanha com destaque televisivoe pergunta:
« se, como tem sido repetido, é condenável que um ministro vulgar minta a deputados em sessão de inquérito parlamentar, o que deve dizer-se quando o melhor dos ministros mente ao país inteiro?»

Há já algum tempo que é geralmente referido como o melhor ministro do governo Passos Coelho. Sem que seja dito com suficiente clareza as razões presumivelmente fundadas dessa boa reputação, acrescente-se.

Para quem queira investigar os motivos do galardão (e também, de caminho, do grau de grande oficial da Ordem do Infante D. Henrique com que já foi agraciado) há, porém, algumas pistas. Uma delas é a sua passagem por altos cargos do grupo BCP Milenium, grupo que por sinal tem tido uma existência atribulada ao nível da gestão e não só, como se vai sabendo. A mais notória tem a ver com a sua passagem pela Direcção Geral dos Impostos que comandou durante cerca de três anos, findos os quais apresentou resultados considerados muito positivos quanto à arrecadação de impostos e contribuições.

Atribuiu-se-lhe o mérito desse êxito, naturalmente, mas um pormenor permite algumas dúvidas quanto a essa atribuição: é que Paulo Macedo, Director Geral dos Impostos, uma vez obtida a vitória, mandou rezar missa de acção de graças pelo resultado conseguido, como aliás a TV então noticiou em reportagem breve, o que permite conjecturar que o verdadeiro mérito do sucesso alcançado se situou a um nível substancialmente mais alto que o do senhor director. De qualquer modo, é certo que esse momento da sua carreira lhe granjeou prestígio e sem ele talvez Paulo Macedo não tivesse transitado para as actuais funções de ministro da Saúde, isto é, para um Ministério em que seria porventura mais urgente tratar de cortar nas despesas que no número de óbitos.

De então para cá, os utentes do Serviço Nacional de Saúde gemem não só por efeito das doenças que os afligem mas também do aumento dos custos que têm de suportar, os hospitais queixam-se de carências de alguns meios designadamente quanto a medicamentos para tratamento de doenças muito graves, o encerramento da Maternidade Alfredo Costa surgiu como escândalo de impacto nacional, mas Paulo Macedo continua a ser apontado pela comunicação social (com o habitual destaque para a televisão) como sendo o melhor ministro da equipa um pouco mutante do dr. Passos Coelho. O que parece justificar nova missa de acção de graças.

A dúvida que fica

Ora, aconteceu que o dr. Paulo Macedo surgiu um dia destes, ainda que indirectamente, na conversa havida no programa «Discurso Directo» da TVI24.

Como decerto todos sabem, o «Discurso Directo» é um programa dito interactivo: os telespectadores telefonam para lá, expõem as suas queixas, razões ou sem-razões, são atendidos aliás muito bem pela jornalista Paula Magalhães e em princípio esclarecidos por um convidado diferente em cada emissão. Naquele dia, o convidado era o dr. José Manuel Silva, bastonário da Ordem dos Médicos, e não decerto por coincidência veio à conversa o caso da concentração de urgências nocturnas num só hospital, em Lisboa, a partir do próximo mês de Setembro.

Para poupar, como facilmente se adivinha, embora no caso a poupança possa corresponder a mais horas de espera em sofrimento e angústia. Foi então conhecido que o senhor ministro Macedo justificou a redução do serviço nocturno de urgências hospitalares com o facto de a medida já ter sido adoptada no Porto supõe-se que sem reclamações, digo eu, nem dos doentes recuperados nem dos eventualmente falecidos.

Tudo bem, dir-se-ia.

Só que ao dr. José Manuel Silva deu para prestar uma informação decisiva como aliás lhe cumpria: que o universo estimado de doentes na área do Porto, quarenta mil, é de metade do universo estimado dos doentes que na área de Lisboa necessitam eventualmente de serviços nocturnos de urgência hospitalar, oitenta mil. Assim se tornou evidente que o dr. Paulo Macedo, não apenas ministro mas também o melhor de todos os ministros actuais (e porventura dos pretéritos, quem sabe?) manipulara os dados sem visíveis escrúpulos para implementar uma alteração mais que discutível, aparentemente inescrupulosa, talvez cruel.

Pelo que fica a dúvida: se, como tem sido repetido, é condenável que um ministro vulgar minta a deputados em sessão de inquérito parlamentar, o que deve dizer-se quando o melhor dos ministros mente ao país inteiro?

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos