O naufrágio do centro do mundo – Os EUA entre a recessão e o colapso

Jorge Beinstein*    17.May.08    Outros autores



Neste artigo, o economista argentino Jorge Beinstein reflecte sobre o agravamento da crise estrutural do capitalismo nos EUA, onde já assumiu as proporções de uma recessão. O autor define-a como «o primeiro capítulo do declínio do império norte-americano».

A recessão instalou-se nos Estados Unidos. Os subsídios alimentares que em 2006 beneficiavam 26,5 milhões de pessoas em 2007 subiram para 28 milhões, nível nunca antes atingido desde os anos 1960. Recentemente, a OCDE reviu em baixa suas previsões de crescimento para a economia estadunidense indicando uma expansão igual a zero para o primeiro semestre deste ano. Pelo outro lado, o FMI acaba de fazer um prognóstico ainda mais grave pois inclui períodos de crescimento negativo. Estes organismos vinham inundando os meios de comunicação (que por sua vez inundavam o planeta) com prognósticos optimistas baseados na suposta robustez da economia norte-americana. Afirmavam que não haveria recessão e que o pior poderia ser um crescimento baixo, rapidamente ultrapassado por uma nova expansão… Se agora admitem a recessão é porque algo muito pior está no horizonte.

Sob a aparência de várias crises convergentes desenvolve-se perante os nossos olhos o final daquilo que deveríamos encarar como o primeiro capítulo do declínio do império norte-americano (aproximadamente 2001-2007) e o começo de um processo turbulento desencadeado por um salto qualitativo de tendências negativas que se foram desenvolvendo ao longo de períodos de diferentes durações.

De qualquer forma, as más notícias financeiras, energéticas e militares não parecem aplacar os delírios messiânicos de Washington, antes pelo contrário. É como se Bush e seus falcões não fossem deixar a Casa Branca dentro de alguns meses. Continuam a ameaçar governos que não se submetem aos seus caprichos, ameaçam com novas guerras e afirmam querer prolongar indefinidamente as ocupações do Iraque e do Afeganistão, e ainda é possível um novo ataque devastador contra o Irão. De vez em quando emerge uma nova onda de rumores bélicos apontados ao Irão –geralmente com origem em declarações ou confidências de altos funcionários do governo. Um ataque contra esse país teria consequências imediatas catastróficas para a economia mundial: o preço do petróleo dispararia por aí acima, o sistema financeiro global passaria a uma situação caótica e a recessão imperial converter-se-ia em ultra recessão, com um dólar em queda livre. Talvez alguns estrategos do Pentágono e do círculo de falcões mais radicais imaginem um grande incêndio mundial, purificador, donde sairá, vitoriosa, o povo de Deus: os Estado Unidos da América. Trata-se de uma loucura, mas faz parte da configuração psicológica de uma parte importante da elite dominante, atravessada por uma corrente letal que combina o virtualismo, a omnipotência, o desespero e a fúria com uma realidade a cada dia menos dominável.

Actualmente, nos grandes centros de decisão económica domina a incerteza que se vai transformando em pânico. O fantasma do colapso começa a mostrar a cara. Enquanto isso todas as autoridades económicas norte-americanas injectam massivamente liquidez no mercado, concedem subsídios fiscais e improvisam soluções custosas salvadoras das instituições financeiras em bancarrota, tentando suavizar a recessão, sabendo que desse modo aceleram a inflação e queda do dólar. A margem de manobra é muito pequena, a mistura de inflação e recessão tornam completamente ineficazes seus instrumentos de intervenção.

A palavra “colapso” foi aparecendo com intensidade crescente desde fins do ano passado em entrevistas e artigos jornalísticos, muitas vezes combinadas com outras expressões não menos terríveis, em alguns casos adoptando seu aspecto mais popular (derrube, morte, queda catastrófica) ou sucessão irreversível de graves deteriorações sistémicas, decadência geral. Paul Craig Roberts (que no passado foi membro da Direcção do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos e editor do Wall Street Journal) publicou em 20 de Março um texto titulado “O colapso da potência americana” onde descreve em termos definitivos o declínio completo dos Estados Unidos [1] . Em 27 de Março, The Economist titulava “Esperando o Armagedão”, um artigo sobre a maré irresistível de bancarrotas empresariais norte-americanas. Em 14 de Março The Intelligencer apresentava o título “Peritos internacionais prognosticam o colapso da economia norte-americana” num artigo em que recolhia as opiniões, entre outros, de Bernard Connelly do banco AIG e de Martin Wolf, colunista do Financial Times.

Em 3 de Abril Peter Morici, numa nota surgida no Counterpunch, assinalava que “é impossível negar que a economia (estadunidense) entrou numa recessão cuja profundidade e duração são imprevisíveis” [2] . A laia de conclusão, em 14 de Abril o Financial Times publicava um artigo de Richard Haass, presidente do Conselho de Relações Exteriores dos Estados Unidos, onde escrevia que “a era unipolar, período sem precedentes de domínio estadunidense, terminou. Durou umas duas décadas, pouco mais de um instante em termos históricos” [3] .

Uma degradação prolongada

Para compreender o que está a acontecer, bem como seus possíveis desenvolvimentos futuros, é necessário ter em conta fenómenos que moldaram o comportamento da sociedade norte-americana nas últimas três década, originando um amplo processo de decadência social.

Em primeiro lugar a deterioração da cultura produtiva, deslocada gradualmente por uma combinação de consumismo e práticas financeiras. A precarização do trabalho, incentivada a partir da presidência de Reagan, visava diminuir a pressão salarial, melhorar a rendabilidade capitalista e a competitividade internacional da indústria. Mas a longo prazo degradou a coesão laboral, o interesse dos assalariados nas estruturas de produção. Daqui derivou numa crescente ineficácia dos processos inovadores que passaram a ser cada vez mais difíceis e caros em comparação com os dos principais competidores globais (europeus, japoneses, etc). Um dos resultados foi um défice crónico e ascendente do comércio externo (2 mil milhões de dólares em 1971, 28 mil milhões em 1981, 77 mil milhões em 1991, 430 mil milhões em 2001, 815 mil milhões em 2007).

Entretanto, o volume de negócios financeiros expandiu-se, absorvendo capitais que não achavam atractivo o tecido industrial e as outras actividades produtivas. As empresas e o Estado procuravam esses fundos, as primeiras para se desenvolverem e concentrarem e competirem num mundo cada vez mais duro, e o segundo para financiar seus gastos militares e civis, que cumpriam um papel muito importante na sustentação da procura interna. Recordemos por exemplo as despesas descomunais provocadas pela chamada “Iniciativa de Defesa Estratégia” (mais conhecida como “Guerra das Estrelas”) lançada por Reagan em 1983 no momento em que o desemprego superava os 10% da População Economicamente Activa (o número mais elevado desde o fim da Segunda Guerra Mundial).

Um segundo fenómeno foi a concentração de rendimentos. Nos princípios dos anos 1980, os 1% mais ricos da população absorviam entre 7% e 8% do Rendimento Nacional. Vinte anos depois o número tinha duplicado e em 2007 rondava já os 20%, o mais alto nível de concentração desde fins dos anos 1920. Por sua vez, os 10% mais ricos, que em meados dos anos 1950 absorviam um terço do Rendimento Nacional, passaram actualmente a 50% [4] . Ao contrário do que ensina a “teoria económica”, a referida concentração não criou maiores poupanças e investimentos industriais mas mais consumo, mais negócios improdutivos que, com a ajuda do boom das tecnologias da informação e da comunicação, criaram um universo semi-virtual, acima do mundo, quase mágico, onde fantasia e realidade se misturam de forma caotica. Por ali passaram (e ainda passam) milhões de norte-americanos, em especial nas classes superiores.

Entrelaçado com o anterior irrompeu um processo, a princípio quase imperceptível mas logo esmagador de desintegração social, em que um dos seus aspectos mais notáveis é o incremento da criminalidade e da subcultura da transgressão que abrange os mais variados sectores da população. Tal processo foi acompanhado pela criminalização de pobres, marginais e minorias étnicas. Actualmente, os cárceres norte-americanos são os mais populosos do planeta. Em 1980 detinham 500 mil presos, em 1990 cerca de 1.150.000, em 1997 1.700.000, aos quais havia que acrescentar 3.900.000 em liberdade condicional (probation, etc) e, no final de 2006, os presos atingiam já os 2.260.000 e os cidadãos em liberdade vigiada 5 milhões. No total, mais de 7.200.000 norte-americanos encontravam-se sob custódia judicial [5] . Em Abril de 2008 um artigo do New York Times afirmava que os Estados Unidos, com menos de 5% da população mundial, detêm 25% de todos os presos do planeta, um em cada cem habitantes adultos encontram-se encarcerados. É o número mais alto a nível internacional [6] .

Militarização e decadência estatal

Outro fenómeno a ter em conta é a longa marcha ascendente do Complexo Industrial Militar, área de convergência entre o Estado, a indústria e a ciência que se foi expandindo desde meados dos anos 1930, atravessando governos democratas e republicanos, guerras reais e imaginárias, períodos de acalmia global ou de alta tensão. Alguns autores, entre eles Chalmers Johnson, consideram que os gastos militares foram o centro dinâmico da economia norte-americana desde da Segunda Guerra Mundial até as guerra euro-asiáticas da administração Bush-Cheney passando pela Coreia, Vietname, a Guerra das Estrelas e o Kosovo. Segundo Johnson, que define a estratégia sobre determinante seguida nas últimas sete décadas como “keynesianismo militar”, o gasto bélico real do exercício fiscal de 2008 superaria os 1,1 milhões de milhões de dólares, o mais alto desde a Segunda Guerra Mundial [7] . Estes gastos foram crescendo ao longo do tempo envolvendo milhares de empresas e milhões de pessoas. De acordo com os cálculos de Rodrigues Tremblay no ano 2006, o Departamento da Defesa dos EUA empregou 2.143.000 pessoas enquanto os fornecedores privados do sistema de defesa empregavam 3.600.000 trabalhadores (no total, 5.743.000 postos de trabalho) aos quais há que acrescentar 25 milhões de veteranos de guerra. Em suma, nos Estados Unidos 30 milhões de pessoas (número equivalente a 20% da População Economicamente Activa) recebem, de forma directa ou indirecta, rendimentos proveniente da despesas pública militar [8] .

O efeito multiplicador do sector sobre a economia possibilitou no passado a prosperidade de um esquema que Scott MacDonald qualifica como “the guns and butter economy”, ou seja, uma estrutura onde o consumo de massas e a indústria bélica se expandem em simultâneo [9] . Mas esse longo ciclo está a chegar ao fim. A magnitude dos gastos bélicos converteram-nos num factor decisivo do défice fiscal, causando inflação e desvalorização internacional do dólar. Além disso, a sua hipertrofia concedeu um enorme peso político às elites estatais (civis e militares) e empresariais que entraram num autismo sem contrapeso social.

O crescente refinamento tecnológico em paralelo com o encarecimento das armas afastou cada vez mais a ciência militarizada das suas eventuais aplicações civis, afectando negativamente a competitividade industrial. Este afastamento crescente entre a ciência-militar (devoradora de fundos e talentos) e a indústria civil atingiu níveis catastróficos no período terminal da ex União Soviética. A história parece repetir-se.

A tudo isto acrescenta-se um acontecimento aparentemente inesperado. As guerras do Iraque e do Afeganistão e de maneira indirecta o fracasso da ofensiva israelita no Líbano mostraram a ineficácia operativa da super complexa (e super cara) máquina bélica de última geração posta em xeque por inimigos que operam de maneira descentralizada e com armas simples e baratas. O que coloca uma grave crise de compreensão (uma catástrofe psicológica) nos dirigentes do Complexo Industrial Militar dos Estados Unidos e da NATO (na história das civilizações esta não é a primeira vez que ocorre um fenómeno do género).

A hipertrofia-crise da militarização está estreitamente associada (faz parte) à decadência do Estado expressa pelo recuo da sua capacidade integradora (declínio da segurança social, predomínio da cultura elitista nos seus centros de decisão, etc), pela degradação da infraestrutura e por um défice fiscal crónico e em aumento que redundou numa dívida pública gigantesca. Se nos ativermos às últimas quatro décadas, os superávites fiscais constituem uma raridade. A partir dos anos 1970 os défices foram crescendo até chegarem, em princípios dos 1990, a níveis muito altos. Entretanto, Clinton despediu-se no final dessa década com alguns superávites que, observados do ponto de vista do longo prazo, surgem como factos efémeros. Mas desde a chegada de George W. Bush o défice regressou, atingindo números sem precedentes: 160 mil milhões de dólares em 2002, 380 mil milhões em 2003, 320 mil milhões em 2005…

Encontramo-nos agora frente a um Estado imperial carregado de dívidas, cujo funcionamento já não depende apenas do sistema financeiro nacional como também (e cada vez mais) do financiamento internacional. Teria sido extremamente difícil à Casa Branca lançar-se na sua aventura militar asiática sem a compra dos seus títulos por parte da China, Japão, Alemanha e outras fontes externas.

A dependência energética

A tudo isto é necessário acrescentar a dependência petrolífera. Por volta de 1960 os Estados Unidos importavam 16% do seu consumo, actualmente importam 65%. Durante muito tempo puderam importar a preços baixos mas agora a situação mudou, a produção mundial de petróleo está a aproximar-se do seu nível máximo (dentro de muito pouco tempo começará a descer) o que, combinado com o enfraquecimento do dólar, está a levar o preço para níveis nunca antes atingidos. E a substituição parcial de combustível de origem fóssil por biocombustíveis (no qual também estão empenhadas as outras grandes potências industriais) reduz a disponibilidade relativa global de terras agrícolas para a produção de alimentos, o que provoca a subida geral dos preços dos produtos da agricultura. Em consequência, o efeito inflacionário amplifica-se.

Os Estados Unidos emergiram como um grande país industrial porque desde princípios do século XX foram também a primeira potência petrolífera internacional. Tal como a Inglaterra durante o século XIX em relação ao carvão, gozaram de uma vantagem energética que lhes permitiu desenvolver tecnologias apoiadas no referido privilégio e competir com êxito com o resto do mundo. Mas em meados dos anos 1950 importantes peritos norte-americanos, como o geólogo King Hubbert, anunciaram o fim próximo da era de abundância energética nacional. Tal como antecipou Hubbert (em 1956) a partir de princípios dos anos 1970 a produção petrolífera estado-unidense começaria a declinar. Assim aconteceu.

A incapacidade dos Estados Unidos para reconverter seu sistema energético (teve quase quatro décadas para fazê-lo) reduzindo ou travando sua dependência em relação ao petróleo pode ser atribuída em primeiro lugar à pressão das companhias de petróleo que impuseram a opção da exploração intensiva de recursos externos, periféricos, que foram sobre-estimados. Poderia afirmar-se neste caso que a dinâmica imperialista forjou uma armadilha energética da qual agora é vítima o próprio Império. O Estado não desenvolveu estratégias de longo prazo tendentes à poupança de energia – o que provavelmente teria desacelerado (não evitado) a crise energética actual – não só por imposição do lobby petrolífero como também porque suas cúpulas políticas (democratas e republicanas) foram-se submergindo na cultura do curto prazo correspondente à era da hegemonia financeira, subordinando-se por completo aos interesses imediatos dos grupos económicos dominantes.

Mas também deveríamos reflectir acerca dos limites do sistema tecnológico ocidental moderno, que os estadunidenses exacerbaram ao extremo. O mesmo reproduziu-se em torno de objectos técnicos decisivos da cultura individualista (o automóvel, por exemplo) que definem o estilo de vida dominante e de procedimentos produtivos baseados na exploração intensiva de recursos naturais não renováveis ou na destruição dos ciclos de reprodução dos recursos renováveis. Graças a essa lógica destrutiva o capitalismo industrial na Europa pode, desde fins do século XVIII, tornar-se independente dos ritmos naturais, submetendo brutalmente a natureza e acelerando sua expansão. Isto aparecia, perante os admiradores do progresso dos séculos XIX e XX, como a grande proeza da civilização burguesa. Uma visão mais ampla permite-nos agora dar-nos conta de que se tratava do desdobrar de uma das suas irracionalidade fundamentais que os Estados Unidos, o capitalismo com mais êxito da história, levou ao mais alto nível jamais alcançado.

Desequilíbrios, dívidas, queda do dólar

A perda de dinamismo do sistema produtivo foi compensada pela expansão do consumo privado (centrado nas classe altas), pelos gastos militares e pela proliferação de actividades parasitárias lideradas pelo sistema financeiro. O que engendrou crescentes desequilíbrios fiscais e do comércio exterior e uma acumulação incessantes de dívidas públicas e privadas, internas e externas. A dívida pública norte-americana passou de 390 mil milhões de dólares em 1970 para 930 mil milhões em 1980, para 3,2 milhões de milhões em 1990, para 5,6 milhões de milhões em 2000 até saltar para 9,5 milhões de milhões em Abril de 2008. Por sua vez, a dívida total dos estado-unidenses (pública mais privada), na última data mencionada, rondava os 53 milhões de milhões de dólares (aproximadamente o equivalente ao Produto Bruto Mundial). Desse número, 20% (uns 10 milhões de milhões de dólares) são constituídos por dívida externa. Só durante o ano de 2007 a dívida total aumentou cerca de 4,3 milhões de milhões de dólares (o equivalente a 30% do Produto Interno Bruto norte-americano) [10] . O processo foi coroado por uma sucessão de borbulhas especulativas que marcaram, desde os anos 1990, um sistema que consumia para além das suas possibilidades produtivas.

A partir dos anos 1970-1980 é possível observar o crescimento paralelo de tendências perversas como os défices comercial, fiscal e energético, os gastos militares, o número de presos e as dívidas públicas e privadas. Todas essas curvas ascendentes surgem atravessadas por algumas tendências descendentes. Exemplo: a diminuição da taxa de poupança pessoal e a queda do valor internacional do dólar (que se acelerou na década actual), expressão do declínio da supremacia imperial.

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A articulação desses fenómenos permite-nos esboçar uma totalidade social decadente em que se incorporam (convergem) uma grande diversidade de factos de diferente magnitude (culturais, tecnológicos, sociais, políticos, militares, etc).

Esta visão de longo prazo coloca a era dos falcões presidida por George W. Bush como uma espécie de “salto qualitativo” de um processo com várias décadas de desenvolvimento e não como um facto excepcional ou um desvio negativo. Estaríamos diante da fase mais recente da degradação do capitalismo estatista-keynesiano iniciado nos anos 1970, ponta pé inicial da crise geral do sistema. A experiência histórica ensina que esses arranques rumo ao inferno quase sempre começam em meio a euforias triunfalistas onde atrás de cada sinal de vitória se oculta uma constatação de desastre. A louca corrida militar sobre a Eurásia estava (ainda está) no centro do discurso acerca do suposto combate vitorioso contra um inimigo (terrorista) global imaginário que submergiu no pântano as forças armadas imperiais. As expansões desenfreadas da borbulha imobiliária e das dívidas eram ocultadas pelos número dos aumentos do Produto Interno Bruto e da sensação (mediática) de prosperidade.

O centro do mundo

Os Estados Unidos constituem hoje o centro do mundo (do capitalismo global), seu declínio não é só o da primeira como o do espaço essencial da interpenetração produtiva, comercial e financeira à escala planetária que se foi acelerando nas últimas três décadas até formar uma trama muito densa da qual nenhuma economia capitalista desenvolvida ou subdesenvolvida pode escapar (sair dessa rede emaranhada significa romper com a lógica, com o funcionamento concreto do capitalismo integrado por classes dominantes locais altamente transnacionalizadas).

Durante a presente década a expansão económica na Europa, China e outros países subdesenvolvidos e o modesto (efémero) fim do estancamento japonês costumavam ser mostrados como o restabelecimento de capitalismos maduros e a ascensão de jovens capitalismos periféricos, quando na realidade tratou-se de prosperidades estreitamente relacionadas com a expansão consumista-financeira norte-americana. Os Estados Unidos representam 25% do Produto Bruto Mundial e são o primeiro importador global. Em 2007 compraram bens e serviços no valor de 2,3 milhões de milhões de dólares, são o principal cliente da China, Índia, Japão, Inglaterra e o primeiro mercado extra-europeu da Alemanha. Mas é sobretudo no plano financeiro, área hegemónica do sistema internacional, em que se destaca a sua primazia. Exemplo: a rede dos negócios com produtos financeiros derivados (mais de 600 milhões de milhões de dólares registados pelo Banco da Basiléia, ou seja, umas 12 vezes o Produto Mundial Bruto) articula-se a partir da estrutura financeira norte-americana, as grandes bolhas especulativas imperiais irradiam para o resto do mundo de maneira directa ou gerando bolhas paralelas como foi possível comprovar com a experiência recente da especulação imobiliária nos Estados Unidos e seus clones directos em Espanha, Inglaterra, Irlanda ou Austrália, ou indirectos como a super-bolha bursátil chinesa.

Se observarmos o comportamento económico das grandes potências comprovaremos em cada caso como suas esferas de negócios superam sempre os limites dos respectivos mercados nacionais e inclusive regionais, cuja dimensão real torna-se insuficiente do ponto de vista do volume e da articulação internacional das suas actividades. A União Europeia está solidamente atada aos Estados Unidos a nível comercial e industrial e principalmente financeiro, o Japão acrescenta a isso a sua histórica dependência das compras norte-americanas, por sua vez a China desenvolveu sua economia no último quarto de século na base das suas exportações industriais para os Estados Unidos e para países como o Japão, Coreia do Sul e outros, fortemente dependentes do Império. Enfim, o renascimento russo gira em torno das suas exportações energéticas (destinadas principalmente à Europa), sua elite económica foi-se estruturando desde o fim da URSS multiplicando suas operações à escala transnacional, em especial seus vínculos financeiros com a Europa ocidental e os Estados Unidos. Não se trata de simples laços directos com o Império e sim da reprodução ampliada acelerada de uma complexa rede global de negócios, mercados interdependentes, associações financeiras, inovações tecnológicas, etc, que integra o conjunto de burguesias dominantes do planeta. O mundo financeiro hipertrofiado é o seu espaço de circulação natural e seu motor geográfico são os Estados Unidos, cuja decadência não pode ser dissociada do fenómeno mais amplo da chamada globalização, ou seja, do financiamento da economia mundial.

Poderíamos imaginar o Império como sujeito central do processo, seu grande beneficiário e manipulador, e ao mesmo tempo como seu objecto, produto de uma corrente que o levou até o mais alto nível de riqueza e degradação. Graças à globalização os Estados Unidos puderam sobre-consumir pagando ao resto do mundo com os seus dólares desvalorizados impondo-lhe o seu entesouramento (sob a forma de reservas) e os seus títulos de dívida pública que financiaram seus défices fiscais. Ainda que, graças ao parasitismo norte-americano, europeus, chineses, japoneses, etc pudessem ter colocado no mercado mundial uma porção significativa das suas exportações de mercadorias e de excedentes de capitais. Nesse sentido, o parasitismo financeiro, produto da crise de sobre-produção crónica, é em simultâneo norte-americano e universal. A outra face do consumismo imperial é a reprodução de capitalismos centrais e periféricos que necessitam transpor seus mercados locais para fazer crescer seus lucros. Isto é evidente nos casos da Europa ocidental e Japão mas também é evidente no caso da China que exporta graças a seus baixos salários (comprimindo seu mercado interno).

O que está agora a afundar não é a nave principal da frota (se assim fosse, numerosas embarcações poderiam salvar-se). Só há uma nave e é seu sector decisivo aquele que está a fazer água.

Horizontes turbulentos e ilusões conservadoras

Devemos pôr no seu contexto histórico as actuais intervenções dos Estados dos países centrais destinadas a contrapor-se à crise. Nos últimos meses proliferaram ilusões conservadoras mencionadas como possível desconexão de várias economias industriais e subdesenvolvidas em relação à recessão imperial, mas os factos vão derrubando tais esperanças. Junto a elas surgiu a fantasia do renascimento do intervencionismo keynesiano: segundo a referida hipótese o neoliberalismo (entendido como simples desestatização da economia) seria um fenómeno reversível e novamente, como há um século, o Estado salvaria o capitalismo. Na realidade, nas últimas quatro décadas produziu-se nos países centrais um fenómeno duplo: por um lado a degradação geral dos Estados que, mantendo seu tamanho em relação a cada economia nacional, ficaram submetidos aos grupos financeiros e perderam legitimidade social. Por outro foram progressivamente ultrapassados pelo sistema económico mundial não só por sua teia financeira como também por operações industriais e comerciais que enganavam os controlos (cada vez mais frouxos) das instituições nacionais e regionais.

Nos Estados Unidos o referido processo avançou mais do que em nenhum outro país desenvolvido. Nunca foi abandonado o histórico keynesianismo militar, pelo contrário, o Complexo Militar-Industrial hipertrofiou-se articulando-se com um conjunto de negócios mafiosos, financeiros, energéticos, etc, que se converteu no centro dominante do sistema de poder, apropriando-se grosseiramente do aparelho estatal até o converter numa estrutura decadente.

Nos países centrais, o Estado intervencionista (de raiz keynesiana) não precisa regressar porque nunca se foi. Ao longo das últimas décadas, obediente às necessidades das áreas mais avançadas do capitalismo, foi modificando suas estratégias, apoiando a concentração de rendimentos e os desenvolvimentos parasitários, mudando sua ideologia, seu discurso (ontem integrador, social, produtivista-industrial, hoje elitista, neoliberal e virtualista-financeiro).

No mundo subdesenvolvido, onde o estatismo retrocedeu até ser em numerosos casos triturado pela onda depredadora imperialista, a desestatização foi sua forma concreta de submissão à dinâmica do capitalismo global. Ali, o regresso ao Estado interventor-desenvolvimentista de outras época é uma viagem no tempo fisicamente impossível. As burguesias dominantes locais, seus negócios decisivos, estão completamente transnacionalizados ou então sob a tutela directa de firmas transnacionais.

Agora em plena crise, ficam a descoberto os dois problemas sem solução à vista do Estado desenvolvido (imperialista): sua degeneração estrutural e sua insuficiência, sua impotência perante um mundo capitalista demasiado grande e complexo. É o que assinala Richard Haas no artigo citado acima, ainda que sem dizer que não se trata de uma reconversão positiva sobre-determinante do capitalismo internacional aquilo que encurrala o Estado norte-americano e os outros Estados centrais e sim, antes, de um fenómeno mundial negativo que de maneira rigorosa deveríamos definir como decadência global (económica-institucional-política-militar-tecnológica). É por isso que o paralelo agora na moda em certos círculos de peritos, entre a implosão soviética e a provável futura implosão dos Estados Unidos, é totalmente insuficiente porque existe, entre outras coisas, uma diferença de magnitude decisiva, o hiper-gigantismo do Império faz com que o seu afundamento tenha o poder de arrastamento sem precedentes na história humana. Mas também porque os Estados Unidos não constituem “um mundo aparte” (marginalizado) e sim o centro da cultura universal (o capitalismo), a etapa mais recente de uma longa história mundial em torno do Ocidente.

A imensidade do desastre em curso, a extrema radicalidade das rupturas que pode chegar a engendrar, muito superiores às que causaram a crise iniciada em 1914 (que deu nascimento a um longo ciclo de tentativas de superação do capitalismo e também do fascismo, tentativa de recomposição bárbara do sistema burguês) gera reacções espontâneas negadoras da realidade nas elites dominantes, nos espaços sociais conservadores e para além deles, mas a realidade da crise vai-se impondo. Todo o edifício de ideias, de certezas de diferentes sinais, construído ao longo de mais de dois séculos de capitalismo industrial está começando a rachar.

Maio/2008

Notas:
(1), Paul Craig Roberts, “The collapse of American power”, Online Journal, 20-03-2008.
(2), Peter Morice, “Bush Administration Dithers While Rome Burns. The Deepening recesion”, Counterpunch, April 3, 2008.
(3), Richard Haass, “What follows American dominion?”, Financial Times, April 16, 2008.
(4), Center on Budget and Policy Priorities.
(5), U.S. Department of Justice - Bureau of Justice Statistics.
(6), Adam Liptak, “American Exception. Inmate Count in U.S. Dwarfs Other Nations”, The New York Times, April 23, 2008
(7), Chalmers Johnson, “Going bankrupt: The US’s greatest threat”, Asia Times, 24 Jan 2008.
(8), Rodrigue Tremblay, “The Five Pillars of the U.S. Military-Industrial Complex”, September 25, 2006, http://www.thenewamericanempire.com/tremblay=1038.htm .
(9), Scott B. MacDonald, “End of the guns and butter economy”, Asia Times, October 31, 2007.
(10), Grandfather Economic Report ().

[*] Economista, jorgebeinstein@yahoo.com

Tradução de Pedro Guedes

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