O novo colonialismo

Rui Paz*    30.Ene.10    Outros autores

Rui Paz
A Conferência sobre o Afeganistão que agora decorre em Londres tem como grande preocupação encontrar um calendário de «redução progressiva do envolvimento militar sem dar a impressão que se trata de uma simples estratégia de saída”» do atoleiro em que os imperialismos (e Obama pessoalmente) se meteram.
Rui Paz esclarece neste texto por que razão as potências imperialistas, coadjuvadas por países periféricos como Portugal, fazem a guerra do Afeganistão.

As potências do mundo capitalista e os seus satélites decidiram realizar em Londres uma conferência sobre o Afeganistão, um dos estados agredidos pelo exército norte-americano e pela NATO após o 11 de Setembro de 2001.

Para o povo afegão o balanço da ocupação militar é catastrófico. Os sofrimentos e massacres cada vez mais cruéis ultrapassam em desumanidade tudo o que acontecia no país durante o governo dos talibãs, regime apoiado durante muito tempo pelos EUA e a NATO.

Mas, passados oito anos, a situação transformou-se também num pesadelo para as potências ocupantes. O regime de Cabul e o seu chefe Karsai são um autêntico fiasco mesmo à luz dos critérios da pseudo-democracia propagados pelo imperialismo. A resistência popular armada cresce diariamente impondo pesadas baixas às tropas invasoras. A condenação internacional do militarismo e da guerra obriga o imperialismo a anunciar que o conclave de Londres se destina a preparar a retirada das tropas estrangeiras do Afeganistão quando, de facto, o seu principal objectivo é enganar a opinião pública, ganhar tempo, reforçar a ocupação militar e intensificar a guerra.

Na Alemanha, 71% da população defende o regresso dos militares ao seu país. Na Grã-Bretanha e na França a vontade dos povos não é diferente. E até nos Estados Unidos a paranóia da chamada «guerra contra o terrorismo» já não produz os resultados desejados. Nem o chauvinismo nacionalista dos dirigentes da União Europeia sonhando com paradas militares debaixo da chuva de confetti no estilo norte-americano, nem o retomar da retórica da chamada «superioridade» da civilização ocidental com que o fascismo português justificou mais de uma década de guerra colonial conseguem convencer os povos a apoiar uma invasão desencadeada com objectivos inconfessáveis mas bem definidos pelos especialistas militares das grandes potências da NATO.

O chefe do departamento de prevenção e riscos dos serviços de informação da Bundeswehr, tenente-coronel Reinhard Herde, referindo-se às conversações intensas que manteve com a «Military Intelligence Community» dos Estados Unidos - numa altura em que o imperialismo estava convencido de que os povos se tinham convertido definitivamente ao capitalismo e ao militarismo - revelou com invulgar clareza a estratégia do imperialismo para um novo ciclo de guerras no órgão oficial do exército alemão, Truppenpraxis (n.°2, 1996):

«O século XXI será a época de um novo colonialismo» diz aquele oficial de um dos maiores exércitos da NATO e da União Europeia. Herde prossegue afirmando que «as colónias do futuro serão sobretudo fontes de matérias-primas e mercados para os produtos das potências coloniais»… «Os governos dos estados ricos terão de estabelecer corredores de segurança físicos e digitais para o transporte das riquezas naturais e do comércio, assim como para informação e vigilância». E acrescenta que «as grandes guerras do século XX processaram-se entre estados ricos. No próximo século os estados ricos vão ter de defender a sua riqueza contra os povos dos Estados e regiões pobres. Para se obter aquilo que antes se podia comprar vai ser necessário recorrer à guerra.»

A conferência de Londres não tem por objectivo nem a paz, nem o bem-estar dos povos, nem mesmo a chamada «luta contra o terrorismo».

A sua principal função é tentar travar a crescente resistência dos povos contra a exploração e opressão do imperialismo e garantir que o sangue que alimenta o saque da oligarquia dos mercados e os lucros do capital monopolista não deixe de correr.

* Rui Paz é analista de política internacional

Este texto foi publicado no Avante n1.887 de 28 de Janeiro de 2010.

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