O óbvio

Gustavo Carneiro    05.Abr.21    Outros autores

É de registar o caricato enlevo com que a generalidade dos media, dos comentadores, certos responsáveis políticos tratam Joe Biden. Muitos deles eram igualmente devotos de Trump, embora a sua grotesca imagem colocasse dificuldades. Que este homem tenha - no seu ainda curto tempo de presidência e sobretudo no plano internacional – enveredado e em alguns aspectos agravado a criminosa e agressiva política que vem detrás não é para eles relevante ou é aplaudido. Mais do que quem está na presidência, o que determina as suas posições é o rasteiro servilismo perante o imperialismo EUA.

Que importa o bombardeamento à Síria, por si ordenado poucas semanas após ter tomado posse? Que mal tem a confirmação das sanções contra a Venezuela, que privam esse país de valiosos recursos (que lhe pertencem!) e o seu povo de bens e serviços de primeira necessidade? Qual o problema das ameaças directas à China e à Rússia, que elevam a patamares críticos a já sensível tensão internacional? Joe Biden é a estrela do momento e não há artigo ou noticiário, nos órgãos do costume, que não lhe gabe os feitos, por mais imperceptíveis que estes sejam.

Melhor só mesmo Obama, a quem foi atribuído um Prémio Nobel da Paz logo nos seus primeiros dias enquanto presidente dos Estados Unidos… Que nos anos seguintes se tenha fartado de bombardear e agredir países e povos é algo aparentemente irrelevante para os media dominantes.

Até Augusto Santos Silva (ASS) veio saudar a nova fase aberta pela administração Biden – ele, de quem nada se conhece para além da mais vergonhosa submissão face a Trump. Não foi Portugal um dos primeiros Estados a reconhecer o fantoche Guaidó? Não se prestou o Governo do PS a receber o encontro de Pompeo com Netanyahu, no qual terá sido acertado o assassinato no general iraniano Qassem Soleimani? Disse ASS alguma coisa acerca do golpe do lítio, que depôs Evo Morales? Tomou alguma medida quando o embaixador norte-americano fez uma série de ameaças ao País relativas a opções económicas e comerciais que deveriam ser soberanas? Nada! Apenas sorrisos dóceis e juras de fidelidade, reiteradas agora ao novo inquilino da Casa Branca. Reconheça-se ao menos esta sua (lamentável) coerência…

Todo o foguetório mediático e político em torno de Biden, por mais belicista que este seja e talvez até precisamente por o ser, contrasta com o apagamento de tudo o que se oponha à sanha de domínio global do imperialismo norte-americano. Foi o que aconteceu recentemente com a iniciativa de alguns países (como Cuba, Venezuela, Síria, Rússia ou China) de constituir uma coligação internacional em defesa da Carta das Nações Unidas, contra a aplicação unilateral de sanções e a ameaça do uso da força nas relações internacionais.

O que diz a Carta? Apela à manutenção da paz e da segurança, defende a solução pacífica das controvérsias, propõe o desenvolvimento de relações amistosas entre nações, baseadas no respeito pelo princípio de igualdade de direitos e de autodeterminação dos povos.

Voltamos à questão que Bertolt Brecht se colocava há quase um século: que tempos são estes em que é preciso defender o óbvio?

Fonte: https://www.avante.pt/pt/2470/opiniao/163609/O-%C3%B3bvio.htm

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