O Ocidente reforça ingerência no Sahel*

A neocolonização da África subsariana é acompanhada de uma crescente presença militar dos novos colonizadores. A justificação já vai estando um pouco gasta: a «luta contra o terrorismo».
E essa justificação não pode esconder que o «terrorismo», em vez de recuar, progrediu. A acção dos grupos jihadistas aumentou e os seus ataques tornaram-se cada vez mais mortíferos.

Uma força militar multinacional africana no Sahel vai ser financiada com 414 milhões de euros pelos Estados Unidos e seus aliados, a pretexto da «luta contra o terrorismo». A operação reforça a ingerência ocidental na região e visa também travar os fluxos de migrantes oeste-africanos para a Europa.

A Conferência de Alto Nível sobre o Sahel, reunida em Bruxelas, a 23 de Fevereiro, com a participação de representantes de meia centena de países e organizações – incluindo os EUA, a União Europeia (UE) e o Japão –, chegou a acordo sobre o financiamento da força G5 Sahel, constituída por tropas do Mali, Níger, Chade, Burkina Faso e Mauritânia.

A UE, anunciou a sua responsável pelas relações exteriores, Federica Mogherini, contribui com 116 milhões de euros e espera que a força, de 5000 homens, com o comando no Mali, esteja plenamente operacional ao longo de 2018. Os dirigentes dos países africanos envolvidos sublinham que as verbas mobilizadas apenas cobrem o primeiro ano de operações.

Outros contribuintes para a força africana são os estados membros do G5, com 10 milhões de euros cada um, a França com nove milhões, a Arábia Saudita com 100 milhões, os Emiratos Árabes Unidos com 30 milhões e a Holanda com cinco milhões. Os EUA prometeram 48 milhões de euros de ajuda bilateral a dividir pelos cinco países sahelianos.

«Vamos continuar a nossa ofensiva para erradicar a violência terrorista jihadista», garantiu o presidente francês, Emmanuel Macron. Já a chanceler alemã Angela Merkel evidenciou a faceta militarizada da política migratória de Bruxelas ao lembrar que a UE não deve controlar a migração ilegal só na Líbia, antes «tem de começar a fazê-lo no Mali, no Níger, no Chade».

Para o presidente do Níger, Mahamadou Issoufou, presidente em exercício do G5 Sahel, «o combate que travamos contra o terrorismo é não só pelo Sahel mas também pelo mundo, pelo que a União Europeia e a comunidade internacional devem ser solidárias com o Sahel». O dirigente africano, um aliado incondicional de Washington e Paris, deixou claro que «não se sabe quanto tempo vai durar esse combate», pelo que, para manter operacional a força militar saheliana, será necessário disponibilizar uma verba anual de 75 milhões de euros.

Desde 2012, os países da faixa do Sahel – produtores de urânio, ouro, ferro, petróleo – testemunham um notório aumento de actividade militar. Além dos exércitos nacionais, ali operam 4000 expedicionários franceses da operação Barkhane, com sede em Djamena, e 12 000 soldados da Minusma, a missão das Nações Unidas para o Mali. Neste país há também 800 instrutores europeus e, no Níger, regista-se a presença de tropas especiais estado-unidenses. Os EUA e a França utilizam uma base de drones em Niamey. Está em construção uma nova base militar norte-americana no território nigerino, em Agadez.

Apesar do aparato bélico e da crescente ingerência estrangeira na região – ou por isso mesmo… –, a acção dos grupos jihadistas aumentou e os seus ataques tornaram-se cada vez mais mortíferos, no Mali e também no Burkina Faso e no Níger.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2309, 1.03.2018

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