O olhar de Tintim de volta ao Congo*

Carlos Lopes Pereira    13.Mar.15    Colaboradores

A direita europeia (incluindo o “socialista” Hollande) e o imperialismo em geral continuam a ver África com os olhos do colonialismo, a agir no sentido da recolonização africana, a pretender ditar as opções de política interna a países que, queiram ou reconhecê-lo, são hoje independentes. Um dos alvos recentes é a República Democrática do Congo.

Os Estados Unidos e outros países ocidentais estão a intensificar a ingerência nos assuntos internos da República Democrática do Congo.
De passagem por Kinshasa, o representante especial do presidente norte-americano para a região dos Grandes Lagos, Russel Feingold, declarou que Washington quer ver o calendário eleitoral congolês assegurar o mais rapidamente possível que «a eleição presidencial terá lugar até ao fim de 2016».
O enviado de Barack Obama, citado pela agência noticiosa France Press, não podia ter sido mais claro. Realçou que os EUA são «opositores dos que modificam as constituições para favorecer os dirigentes já no poder ou dos que subvertem os processos eleitorais para manter um chefe de estado no posto». E esclareceu que esta é uma política «válida para todos os países da região e outros».
As autoridades congolesas já propuseram às instituições do país a data de 27 de Novembro de 2016 para as eleições presidenciais e legislativas. A Comissão Eleitoral Nacional Independente anunciou também escrutínios locais, no biénio 2015-2016, mas a oposição considera que, por ser a primeira vez que se realizam, essas votações poderiam atrasar o calendário eleitoral e prolongar ilegalmente o mandato do presidente Joseph Kabila que termina no final do próximo ano. As forças oposicionistas consideram contudo prioritárias, já em 2015, as eleições de deputados provinciais, governadores, vice-governadores e senadores.
Quem também está interessado no debate sobre o calendário eleitoral é a missão das Nações Unidas na RDC, a Monusco, um parceiro na organização dos escrutínios, que envolvem complexos problemas financeiros, logísticos e de segurança.
Há «capacetes azuis» da ONU no Leste do Congo, ajudando o exército congolês a combater os rebeldes hutus ruandeses e outros grupos, sobretudo na província do Norte-Kivu, onde desde há muito bandos armados saqueiam riquezas minerais e criam instabilidade.
Envolvida no processo eleitoral congolês – cujas exigências democráticas ultrapassam em muito os padrões em vigor, por exemplo, na maior parte dos países ocidentais – aparece também uma certa Rede Nacional das ONG de Direitos Humanos. Numa declaração pública, autêntico apelo à ingerência estrangeira, estas organizações não-governamentais já pediram aos «parceiros bilaterais e multilaterais» da RDC que se comprometam a «monitorizar» a situação pré-eleitoral a fim de evitar «derrapagens» que poderiam ter consequências nefastas no processo de democratização e na paz e segurança regionais.

Belgas e chineses

A pretexto da contestação ao calendário eleitoral e da exigência de Kabila não se recandidatar, ocorreram em Janeiro, em Kinshasa, motins e pilhagens que provocaram 42 mortos e grandes prejuízos.
Mais tarde, já em finais do mês passado, um membro do governo da Bélgica, de direita, em visita oficial à capital congolesa, permitiu-se denunciar alegadas «violações dos direitos do homem» no país africano que o acolhia.
Perante os jornalistas, o ministro belga da Cooperação, Alexander De Croo, afirmou em tom colonial «não ser tolerável» a situação que prevalece no Congo, com «as prisões, a justiça arbitrária e a interrupção da Internet móvel e do tráfico de SMS».
A resposta do governo congolês não tardou, através de um comunicado do ministro da Informação, Lambert Mende.
«O seu discurso, em holandês, idioma que poucos congoleses dominam, testemunha com efeito o desconhecimento da realidade de que o mundo mudou depois da independência do nosso país, em 1960», escreveu o governante congolês, acrescentando que «as ficções infantis de Tintim no Congo estão completamente ultrapassadas como grelha de leitura dos factos e das ideias».
O álbum de banda desenhada Tintim no Congo, com uma visão racista dos africanos, foi escrito em 1931 pelo belga Georges Rémi (Hergé), que chegou a ser acusado de simpatias pelos nazis.
Citado pela revista Jeune Afrique, o porta-voz do governo de Kinshasa concedeu, apesar de tudo, «o benefício da dúvida» a De Croo, criticando-o menos severamente do que a um ex-ministro da Bélgica – a antiga potência colonial do Congo –, que «ganhou o hábito, depois de 2001, de intrometer-se nos assuntos congoleses, autoproclamando-se ‘fazedor de reis’ nos nossos trópicos».
Na sua contundente resposta, Lambert Mende chama a atenção para a circunstância de, no começo deste ano, os autores das pilhagens na capital terem atacado quase exclusivamente bens chineses em Kinshasa. Pelo que, com ironia, admite a hipótese de «não ser tanto os interesses dos ‘pobres congoleses’ mas antes os interesses de grupos mercantilistas rivais dos chineses aquilo que nos opõe»…

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº2054, 12.03.2015

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