O Pensamento múltiplo

Carlo Fabretti *    28.Abr.07    Outros autores

Carlo Fabretti

Chamar “pensamento único” ao discurso imposto pelo poder (isto é, a ideologia dominante) torna-se equívoco e contraditório. O facto desta denominação se ter tornado uma moda é um motivo mais para a contestar.

Na sua pureza, a expressão “pensamento único” é um pleonasmo: o pensamento, entendido literalmente como a potência e o acto de pensar, como a ferramenta e a tarefa cognitiva dos seres racionais, é basicamente único. Por isso, quando o seu objecto está bem definido e claramente delimitado, o resultado do pensamento é também único: só há uma física, plenamente aceite pelos cientistas do mundo, por mais que os especialistas possam discutir sobre determinadas questões cosmológicas ainda por dilucidar ou sobre as implicações filosóficas da mecânica quântica; e ainda que se costume falar de distintas geometrias aparentemente incompatíveis (a euclidiana e as não euclidianas), elas não são mais do que ramos divergentes (mas de modo algum contraditórias, antes complementares) de um mesmo tronco matemático.

Em campos mais precisos (por menos acessíveis à experimentação directa e sistemática) que as disciplinas científicas propriamente ditas, é lógico e desejável que haja diferentes escolas e teorias; mas a forma correcta de raciocinar continua a ser uma e a mesma para todos. E o que na realidade o poder tenta fazer (coma ajuda dos pós-modernos, “novos filósofos” e relativistas de toda a espécie) é precisamente romper a unidade (no duplo sentido de união e unicidade) do pensamento, impor um pensamento múltiplo e disperso como enxame de abelhas, “perverso e polimorfo” como a sexualidade infantil; um pensamento “débil” enquanto fragmentário, visto que em todas as lutas – e a da razão contra a barbárie é a mãe de todas as lutas – a força deriva da união.

A verdade é revolucionária, e como todos os meios de comunicação alternativos tornam cada vez mais difícil a ocultação sistemática (sistémica), da verdade, o poder, sem renunciar completamente à obscuridade e ao silêncio, esta cada vez mais a optar pela estratégia complementar: a do deslumbramento e do ruído. Se não podes ocultar a verdade, fragmenta-a e agita os seus pedaços no moinho-caleidoscópio mediático, e interpreta cada fragmento de um modo, de muitos modos distintos, inclusivamente contraditórios (com o que, além disso, darás uma imagem tolerância e pluralismo). Porque a verdade só é revolucionária quando é toda a verdade e nada mais que a verdade; quando o poder a estilhaça e a condimenta para que seja massivamente consumida, o alimento transforma-se em lixo, como quando uma vaca leiteira é transformada em hambúrgueres.

Não se pode negar ao relativismo cultural o mérito de ter impugnado o eurocentrismo que durante séculos dominou a cultura ocidental. E as críticas pós-modernas ao marxismo como um suposto discurso totalizador eram (e continuam a ser) necessárias, e a única coisa que podemos lamentar é que tenham sido outros, e não os marxistas, os que levantaram a questão. Mas os relativistas e os pós-modernos, no seu desmedido (e amiúde tendencioso) afã de renovação e limpeza, deitaram fora o bebé com água da banheira; depois de lavar a cara ao nosso melhor – único – projecto de futuro, defenestraram-no (por sorte só simbolicamente) e proclamaram o fim da História. Que não é outra coisa que o fim do pensamento como força unificada e unificadora (única, em última instância, pois há uma única razão, tal como só há uma raça, a raça humana, por mais que alguns tentem utilizar a diversidade epidérmica e cultural para nos dividir).

A velha máxima “divide e vencerás” não é só aplicável aos exércitos e outros grupos humanos, é-o também às ideias e valores aos sistemas éticos e conceptuais. Fragmenta a realidade, fragmenta o próprio pensamento, e com os seus pedaços poderás fazer o que quiseres: essa é a nova palavra de ordem do poder. E para essa tarefa de desconstrução do mundo e da mente, o poder conta com o apoio incondicional de legiões de “intelectuais” e “comunicadores” que não só encontraram no pensamento múltiplo uma confortável forma de vida, mas também um lenitivo para a sua má consciência e um álibi para a sua cobardia.

Em vez de contribuir com o seu cacarejar para a algaraviada do circo mediático-cultural, os que não têm valor para lutar, ao menos dedeveriam ter, como dizia José Martí, a decência de se calarem.

* Escritor e matemático

Tradução de José Paulo Gascão

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