O petróleo em 2009:
Cuidado com o que desejas

Michael T. Klare*    15.Feb.09    Outros autores

Michael T. Klare“…Os preços [do petróleo] voltarão a subir um ano destes, com rapidez e batendo novas marcas. Nesse momento, enfrentaremos o tipo de problemas que sofremos na Primavera e Verão de 2008, quando uma aguda procura e uma oferta insuficiente propulsionaram os custos do petróleo até ao céu. Entretanto, é importante recordar que, mesmo com preços tão baixos como os que agora temos, não podemos fugir das consequências da nossa adição ao petróleo.”

Parece que foi ontem que nos queixávamos do elevado preço do petróleo. Com títulos como «A rápida subida do petróleo desencadeia rumores sobre o barril a 200 dólares ainda este ano», o Wall Street Journal de 7 de Julho advertia que preços tão elevados provocariam fortíssimas tensões a grandes sectores da economia norte-americana». Hoje, com o petróleo a pouco mais de 40 dólares o barril, custa menos de um terço do que valia em Julho, alguns economistas já previram que poderia cair, em 2009, até 25 dólares o barril.

Preços tão baixos – com a equivalente baixa nos postos de abastecimento – serão muitos os consumidores norte-americanos que os vêem como uma dádiva dos deuses, mesmo que eles provoquem graves penúrias em países produtores como a Nigéria, a Rússia, o Irão, o Kuwait e a Venezuela, em que uma boa parte das receitas nacionais dependem das exportações de energia. Há aqui uma realidade simples mas de importância crucial que importa ter em conta: suba ou desça o petróleo tem profundas repercussões no mundo em que vivemos, e isso é válido para 2009 como o foi em 2008.

A razão disso? É que nos bons como nos maus tempos, o petróleo continuará a fornecer a maior parte da provisão mundial de energia. Apesar de tudo o que se fala sobre as alternativas, o petróleo continuará como fonte número um de energia durante algumas das próximas décadas. De acordo com as previsões de Dezembro de 2008 do Departamento de Energia (DE) norte-americano, os produtos petrolíferos representarão 38% do fornecimento energético total em 2015; o gás natural e o carvão apenas 23% cada um. Espera-se que a margem do petróleo no total cairá ligeiramente à medida que os biocombustíveis (e outras alternativas) ocupem uma maior percentagem do total mas, inclusive em 2030 – a previsão mais longínqua a que o DE está disposto a chegar – o petróleo continuará como energia dominante.

Um parâmetro idêntico é válido para o resto do mundo: ainda que se confie em que os biocombustíveis e outras fontes energéticas renováveis desempenhem um papel crescente na equação da energia global, ninguém espere que o petróleo seja outra coisa que não seja o principal combustível nas décadas futuras.

Acompanhem com atenção a política petrolífera e saberão sempre muito sobre o que verdadeiramente acontece no planeta. Preços baixos como os actuais são maus para os produtores e prejudicarão sempre uma série de países que o governo norte-americano considera hostis, entre os quais se contam a Venezuela, o Irão e até esse gigante do petróleo e do gás natural que é a Rússia. Todos eles utilizaram recentemente as suas elevadas receitas petrolíferas para financiar esforços políticos considerados prejudiciais para os interesses norte-americanos. Não obstante, os preços minguados também poderem sacudir os alicerces de aliados petrolíferos como o México, a Nigéria e a Arábia Saudita, que poderiam sentir perturbações internas à medida que decresçam os proventos do petróleo, e por isso os gastos do Estado.

Igualmente importante é que a diminuição do preço do petróleo desincentiva o investimento em projectos petrolíferos complexos como a prospecção marítima em águas profundas, tal como o investimento no desenvolvimento de alternativas ao petróleo como os biocombustíveis (não alimentares) já avançados. É possível, o que seria absolutamente desastroso, numa altura de petróleo barato também é provável que diminua o investimento o investimento em alternativas não contaminantes que provocam alterações climáticas, como a energia solar, eólica e das ondas. A longo prazo, o que isto significa é que uma vez iniciada a recuperação económica global poderemos esperar uma nova sacudidela nos preços do petróleo enquanto as futuras opções energéticas se demonstrem dolorosamente limitadas.

Está claro que não há forma de escapar à influência do petróleo. Mas é difícil saber que formas adoptará esta influência n decorrer deste ano. No entanto, avanço aqui três observações sobre o destino do crude – e consequentemente sobre o nosso futuro – no ano que agora se inicia:

1 – O preço do petróleo continuará baixo até que comece novamente a aumentar: já sei. Já sei que esta é uma verdade de La Palisse, mas não há outra forma de o expressar. O preço do petróleo caiu até estes níveis porque nos últimos quatro meses a procura desmoronou-se devido ao aparecimento de uma profunda recessão global. Não é provável é provável que se aproxime dos preços excepcionais da Primavera e Verão de 2008 até que a procura se reponha e a oferta global de petróleo trave de forma espectacular Neste momento não há nenhuma bola de cristal que possa prever quando sucederá qualquer destas coisas.

A contracção da procura internacional foi contundente. Depois de subir durante uma boa parte do Verão passado, a procura diminuiu no princípio do Outono em várias centenas de milhares de barris diários, provocando uma descida líquida em 2008 de 50.000 barris diários. Este ano o Departamento de Energia mantém uma previsão segundo a qual a procura cairá em 450.000 barris diários, «a primeira vez em que a procura desce durante dois anos consecutivos».

Não é preciso dizer que esta descida que esta descida foi inesperada. Acreditando que a procura global continuará a crescer – como foi o caso de quase todos os anos desde aúltima recessão em 1980 – a indústria petrolífera foi ampliando a sua capacidade de produção de forma regular e preparava-se para mais do mesmo em 2009 e anos seguintes. Seguramente por terem sido submetidos a uma intensa pressão da administração Bush, os sauditas tinha afirmado em Junho passado que incrementariam gradualmente a sua capacidade até alcançar os dois milhões e meio de barris suplementares por dia.

Hoje a indústria vê-se a braços com uma produção excessiva e uma procura insuficiente, uma receita que garante a queda a pique dos preços do petróleo. Nem sequer a decisão de 17 de Dezembro dos membros da Organização dos Países Produtores de Petróleo (OPEP) de reduzir a sua produção colectiva em 2,2 milhões de barris diários conseguiu levar a aumentos significativos dos preços (o rei Abdulá da Arábia Saudita declarou recentemente que considera «um preço justo» os 75 dólares o barril).

Quanto tempo durará o desequilíbrio entre a oferta e a procura? Até meados de 2009, se não mesmo até final do ano, na opinião da maior parte dos analistas. Outros há que suspeitam que não terá lugar uma verdadeira recuperação global até 2010, ou mesmo mais tarde. Tudo depende de quão profunda ou prolongada esperamos que seja a recessão ou qualquer depressão que aí venha.

Um factor crucial será a capacidade da China de absorver petróleo. É que este país, entre 2002 e 2007, representou 35% do aumento global do consumo de petróleo mundial e, de acordo com o DE, espera-se que represente pelo menos 24% de qualquer incremento global na década futura. A subida da concorrência chinesa combinada com uma procura que não diminui nas nações industrializadas mais antigas, e uma significativa especulação nos preços dos futuros de petróleo, explicavam em boa medida os preços astronómicos que se atingiram no Verão passado. Mas com a economia chinesa a desfalecer a olhos vistos, essas projecções já não parecem válidas. A maioria dos analistas prevê hoje que uma brusca diminuição da procura chinesa não fará mais do acelerar o caminho descendente dos preços globais da energia. Nestas condições, uma reviravolta rápida dos preços parece cada vez menos provável.

2 – Quando os preços voltarem a subir fá-lo-ão de uma forma brusca: actualmente. O mundo desfruta de uma perspectiva (relativamente) pouco familiar do excedente da produção petrolífera, mas há aqui alguns problemas. Enquanto os preços continuarem baixos, as empresas petrolíferas não se sentirão incentivadas para investir em custosos projectos de nova produção, o que significa que não se acrescenta uma nova capacidade disponível. Dito de uma forma simples, o que isto quer dizer é que quando a procura começar de novo a incrementar-se, o provável é que a produção total seja insuficiente. Tal como sugeriu Ed Crooks, do Finantial Times, «a queda a pique do preço do petróleo é um perigoso analgésico que gera adição: o alívio a curto prazo produz graves custos a longo prazo».

Já se multiplicam rapidamente os sinais de abrandamento dos investimentos na produção d petróleo. A Arábia Saudita, por exemplo, anunciou atrasos em quatro projectos energéticos de envergadura, no que parece ser uma ampla retracção da sua promessa de aumentar a produção futura. Entre os projectos que sofreram atrasos encontra-se a iniciativa de 1.200 milhões de doares para voltar a pôr em funcionamento o histórico campo petrolífero de Manifa, com 900.000 barris diários, e a construção de novas refinarias em Yanbu e Jubail. Em cada um destes casos, as demoras estão a ser atribuídas à redução da procura internacional. «Voltámos a falar com os nossos sócios e discutimos as novas circunstâncias económicas», explicou Kaled al-Buraik, funcionário da Saudi Aramco.

Por conseguinte, a maioria das reservas de «petróleo fácil» já se esgotaram, o que significa que praticamente todas as reservas globais que restam pertencem à variedade de «petróleo difícil». Estas requerem uma tecnologia de extracção excessivamente custosa para ser rentável num momento em que o preço por barril continua abaixo dos 50 dólares. Entre as principais encontra-se a exploração de areias betuminosas no Canadá e as plataformas marítimas em águas profundas do Golfo do México, do Golfo da Guiné e da costa brasileira. Se bem que essas reservas potenciais albergam fornecimentos importantes de crude, elas não darão lucro enquanto o preço do barril não atinja os 80 dólares ou mais por barril, quase o dobro do preço a que se vende hoje. Nestas circunstâncias, não surpreende que as principais companhias cancelem ou adiem planos de novos projectos no Canadá e em localizações marítimas.

É que «os preços petrolíferos baixos são muito perigosos para a economia mundial», disse Mohamed Bin Dhaen Al Hamli, ministro da Energia dos Emiratos Árabes Unidos, num congresso da indústria petrolífera em Londres. Com a queda dos preços, informou que «se estão a reconsiderar um montão de projectos que estavam em estudo».

Com a indústria a travar os seus investimentos haverá menor capacidade de satisfazer a procura em ascensão quando a economia mundial recupere. Neste momento podemos esperar que a situação mude com uma velocidade relativamente alarmante, que o crescimento da procura se concretize, continuando a oferta insuficiente num mundo com deficit energético.

Não podemos, naturalmente, saber quando isto acontecerá nem até quanto se elevarão os preços do petróleo, mas há que esperar uma alteração nas gasolineiras. É possível que a sacudidela energética não seja menos feroz que a actual recessão global e a queda dos preços energéticos. O departamento de Energia, nas suas previsões mais recentes, previu que o petróleo chegará a uma média de 78 dólares por barril em 2010, 110 dólares em 2015 e 116 em 2020. Outros analistas sugerem que os preços poderão elevar-se muito mais e muito mais rapidamente, sobretudo se a procura se reanimar brevemente e as companhias petrolíferas actuarem com lentidão para reiniciar os projectos que agora estão congelados.

3 – Os baixos preços do petróleo, tal como os elevados, terão importantes implicações políticas em todo o mundo: a subida constante dos preços do petróleo entre 2003 e 2008 foi a consequência de um brusco aumento da procura global, conjugado com a impressão de que a indústria energética internacional estava a ter dificuldades para introduzir novas fontes de fornecimento. Muitos analistas referiram-se à eminente chegada do «pico petrolífero» no momento em que a produção global começasse um declive irreversível. Tudo isso fomentou enormes esforços por parte das nações de maior consumo para se assegurarem do controlo de todas as fontes estrangeiras de petróleo que pudessem, e entre estes contam-se as frenéticas tentativas das empresas norte-americanas, europeias e chinesas para apanharem concessões petrolíferas em África e na concha do Mar Cáspio, o que constitui o tema do meu último livro, Rising Powers, Shrinking Planet.

Com a queda a pique dos preços do petróleo e uma sensação crescente (por temporária que seja) de abundância petrolífera esta concorrência quem-come-quem é possível que esteja adiada. A actual falta de intensa concorrência não significa, contudo, que os preços do petróleo deixem de ter repercussões na política global. Muito pelo contrário. De facto, os preços baixos têm a mesma possibilidade de perturbarem o panorama internacional, só que de forma diferente. Ainda que a concorrência entre estados consumidores possa diminuir, é seguro que aparecerão as condições políticas negativas nas nações produtoras.

Muitas destas nações, entre as quais se encontram, entre outras, Angola, Irão, Iraque, México, Nigéria, Rússia, Arábia Saudita e Venezuela, dependem das receitas do petróleo para boa parte da despesa do Estado, e empregam este dinheiro para financiar a saúde, a educação, melhorar as infra-estruturas, os subsídios alimentares e energéticos e os programas de bem-estar social. Os preços do petróleo em alta, por exemplo, permitiam a muitos países produtores reduzir o elevado emprego juvenil e consequentemente o descontentamento potencial. À medida que os preços voltam a cair os governos vêem-se forçados a diminuir os programas de ajuda aos pobres, à classe média e aos desempregados, o que já está a provocar ondas de instabilidade em muitas partes do mundo.

O orçamento estatal da Rússia só se equilibra quando os preços do petróleo se mantêm nos 70 ou mais dólares por barril. Com os proventos do governo diminuídos o Kremlin viu-se obrigado a lançar mãos às reservas acumuladas e a apoiar as empresas que se afundavam e o rublo que vinha por aí abaixo. A nação saudada como o gigante energético está rapidamente a ficar sem fundos.

O desemprego está a aumentar e muitas empresas estão a reduzir as horas de trabalho para poupar dinheiro. Ainda que o Primeiro-Ministro Vladimir Putin continue a ser popular, começaram a aparecer os primeiros sintomas de descontentamento público, incluindo protestos dispersos contra os direitos aduaneiros sobre os bens de importação, o aumento das tarifas dos transportes públicos e outras medidas semelhantes.

A queda dos preços do petróleo foram particularmente más para o gigante do gás natural Gazprom, a maior empresa da Rússia, fonte (nos bons tempos) de aproximadamente um quarto das receitas tributárias governamentais. Devido ao preço do gás ir geralmente emparelhado ao do petróleo, os minguados preços do petróleo foram um duro golpe para a empresa: no Verão passado o seu presidente Alexei Miller estimava o seu valor de mercado em 360.000 milhões de dólares e hoje este é de 85.000 milhões.

No passado, os russos utilizaram os cortes de gás a estados vizinhos para alargar a sua influência política. Não obstante, dada a descida brusca dos preços do gás, a decisão da Gazprom de cortar, dia 1 de Janeiro, o fornecimento de gás à Ucrânia (por falta de pagamento de 1.500 milhões de dólares de dívidas vencidas) também tem, pelo menos em parte, razões financeiras. Ainda que a decisão tenha disparado a escassez de energia na Europa – 25% do seu gás natural chega através dos gasodutos da Gazprom que atravessam a Ucrânia – Moscovo não deu sinais de voltar atrás na luta sobre o preço do gás. «Faz-lhes falta o dinheiro» observou Chris Weafer do banco UralSib Bank de Moscovo.

A queda dos preços do petróleo também vai provocar tensões graves nos governos do Irão, Arábia Saudita e Venezuela, todos beneficiários dos preços excepcionais dos últimos anos para financiar obras públicas, subvencionar necessidades básicas e gerar emprego. Tal como a Rússia, estes países adoptaram orçamentos expansivos, assumindo que o mundo manteria um preço de 70 dólares o barril, ou mais, indefinidamente. Agora, tal como outros produtores afectados, devem recorrer às reserva acumuladas, pedir emprestado pagando o preço do dinheiro e diminuir os gastos sociais, o que pressupõe o risco de que venham a surgir oposição política e descontentamento internos.

O governo do Irão, por exemplo, anunciou planos para eliminar os subsídios à energia (a gasolina custa agora 36 cêntimos de dólar o galão), uma medida que se espera irá desencadear protestos generalizados num país em que as taxas de desemprego e o custo de vida aumentam rapidamente. O governo saudita prometeu, de momento, evitar cortes orçamentais, recorrendo às reservas acumuladas, mas também ali cresce o desemprego.

Os gastos decrescentes dos estados produtores de petróleo como o Kuwait, Arábia Saudita e Emiratos Árabes Unidos também afectarão países não produtores como o Egipto, a Jordânia e o Iémen, devido ao facto de os jovens destes países emigrarem para as monarquias petrolíferas quando os tempos se mostram prósperos em busca de empregos melhor pagos. Quando os tempos se mostram maus, são eles os primeiros a ser despedidos e, amiúde, acabam por voltar aos respectivos países, onde os esperam poucos empregos.

Tudo isto tem lugar com o pano de fundo de uma ascensão da popularidade do Islão, não se podendo descartar as suas formas mais militantes que rejeitam a política «colaboracionista» de regimes pró norte-americanos como os de Hosni Mubarak no Egipto e do rei Abdulá II da Jordânia. Combine-se tudo isto com os devastadores ataques aéreos de Israel sobre Gaza e a aparentemente tímida resposta dos regimes árabes moderados ao sofrimento de milhão e meio de palestinos encurralados na nessa estreita faixa de terra, e ver-se-á um cenário disponível para uma considerável e arrebatada onda de distúrbios e violência anti-governamental. Se isto ocorrer, ninguém fará a relação com o petróleo e, no entanto, em parte dever-se-á a ele.

Num contexto de um mundo mergulhado num feroz declive económico, fácil é imaginar outras tormentosas perspectivas energéticas que impliquem países chave na produção de petróleo. Não se pode prever quando e onde surgirão, mas o que é provável é que esses rebentamentos tornem muito mais difícil qualquer futura era de preços energéticos em subida. E, apesar disso, os preços voltarão a subir, talvez um ano destes, com rapidez e batendo novas marcas. Nesse momento, enfrentaremos o tipo de problemas que sofremos na Primavera e Verão de 2008, quando uma aguda procura e uma oferta insuficiente propulsionaram os custos do petróleo até ao céu. Entretanto, é importante recordar que, mesmo com preços tão baixos como os que agora temos, não podemos fugir das consequências da nossa adição ao petróleo.


Este texto foi publicado em www.rebelión.org

* Michael Klare é professor «Five Collage» de Estudos sobre a Paz e Segurança Mundiais no Hampshire Collage Amherst, Massachussets

Tradução de José Paulo Gascão

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