O petróleo, o Médio Oriente e a guerra civil imperialista

José Goulão    20.Ene.20    Outros autores

Um Médio Oriente em pé de guerra é uma alternativa cultivada para afectar regimes e governos que não sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que não seja o dólar.

Estimado leitor, se lhe disserem que os Estados Unidos são auto-suficientes em hidrocarbonetos e não precisam do petróleo do Médio Oriente, não acredite. A guerra sem fim montada pelo Pentágono através de toda a região e algumas extensões geográficas tem a ver com fontes de energia, o controlo das suas reservas, produção e distribuição. Portanto, o que tem acontecido nas últimas semanas, por exemplo a simultaneidade da desestabilização do Iraque e do Irão e a nova fase da guerra na Líbia tem, e muito, a ver com isso.
Outra coisa em que o leitor não deve acreditar é nas promessas do poder globalizante de que vai reduzir o consumo de combustíveis fósseis para combater o aquecimento global e cumprir as metas da redução de emissões de dióxido de carbono. Nunca, como agora, esteve inventariada uma tão elevada quantidade de reservas de petróleo e gás natural. E serão para consumir enquanto existirem, até à última gota: o capitalismo alimenta-se delas. Quem as dominar controla o mundo – um conceito básico de qualquer geopolítica e geoestratégia bem actuais.
O que se passa no Médio Oriente tem, portanto, a ver também com hidrocarbonetos. Hoje como ontem.
A era do petróleo e do gás de xisto, caracterizada pela extracção através do método de fractura hidráulica (fracking) extremamente agressivo para o meio ambiente, alterou o ranking da produção de hidrocarbonetos e terá conduzido os Estados Unidos ao primeiro lugar entre os produtores. Segundo especialistas, porém, o período áureo dessa forma de exploração já terá sido ultrapassado na América do Norte, além de ser mais dispendiosa do que a efectuada a partir de reservas mais convencionais. Além disso, em termos norte-americanos, trata-se de mais um negócio com diferentes valências: o petróleo e o gás de xisto, mais caros, são para exportar – de preferência para os aliados europeus e de outras regiões – servindo para tentar combater produções rivais, sobretudo as russas, mesmo que através de manipulações grosseira das «leis do mercado»; e, por outro lado, os Estados Unidos importam hidrocarbonetos mais baratos de regiões onde mantêm domínio e controlo, entre elas o Médio Oriente.
Domínio e controlo não se exercem apenas sobre os produtores, mas também sobre as reservas identificadas, a investigação de possíveis novas reservas e os circuitos de distribuição. Por isso as guerras têm na mira também as rotas de gasodutos e oleodutos e nem sempre são travadas com armas. As chantagens político-económico-diplomáticas envolvendo, por exemplo, os gasodutos sem participação norte-americana como o Turk Stream (agora inaugurado), o Nord Stream 2 e o South Stream (ainda bloqueado) são exemplo dos longos braços estendidos sobre o planeta de quem se diz auto-suficiente em termos energéticos.
Domínio e controlo são ainda mais do que isto: exercem-se também tentando prejudicar e inibir a concorrência.
O que está a acontecer através da desestabilização alargada no Médio Oriente tem muito a ver com esta guerra multifacetada. E o assassínio do general iraniano Qasem Soleimani, em particular, também.

Soberanias intoleráveis

Todos ainda estamos lembrados de que, há algumas semanas, o presidente dos Estados Unidos anunciou a retirada de parte das tropas ocupantes na Síria, mas deixando militares no terreno «a tomar conta do petróleo». De falta de franqueza, nestas circunstâncias, ninguém pode acusar Donald Trump. A Síria tem vindo a ganhar a guerra que lhe foi movida internacionalmente, mas a restauração da soberania ainda tem limites impostos pelos poderes que governam em Washington: as zonas ricas em hidrocarbonetos, a propósito das quais, aliás, há notícia da existência de grandes reservas de gás natural – por sinal no «Rojava», o «Estado curdo» criado por Estados Unidos e Israel em parte do Norte da Síria.
Durante muito tempo quase não se ouviu falar do Iraque. Apesar de se tratar de um país em grande parte destruído pela invasão e a guerra, dividido entre bolsas de poderes exercidos por comunidades étnico-religiosas e ocupado militarmente, deixou praticamente de ser notícia. As condições de vida desumana a que estão sujeitas milhões de pessoas deixaram de chamar a atenção da comunicação social corporativa. O silêncio e a «estabilidade» prevaleciam, uma vez que em Bagdade estava em funções um governo subordinado às forças de ocupação.
A situação alterou-se. Não muito, mas o suficiente para incomodar Washington. O governo do primeiro-ministro Adel Abdul Mahdi, descontente com as imposições apresentadas pelos Estados Unidos para se envolverem na reconstrução das infra-estruturas do país arrasadas pela invasão e a guerra – receberem em troca metade das receitas de petróleo iraquianas – estabeleceu um acordo com outro parceiro: a China.
O céu caiu em cima da cabeça de Abdul Mahdi. Donald Trump exige-lhe que revogue o acordo e, segundo o teor de um discurso feito pelo chefe do governo no Parlamento, está por detrás das manifestações e episódios de violência que têm como objectivo a dissolução do executivo.
Acresce que Abdul Mahdi teve outro acto imperdoável para os ocupantes. Estava a servir de mediador numa aproximação feita pela Arábia Saudita em direcção ao Irão para reduzir o nível de tensão em todo o Médio Oriente. Um passo que poderia beneficiar a região, designadamente estabelecer pontes para acabar com a guerra que martiriza o Iémen.
O general Qasem Soleimani ia a Bagdade entregar a resposta do governo iraniano à iniciativa saudita, em 3 de Janeiro, quando foi assassinado por ordem do presidente dos Estados Unidos.
De uma assentada, os Estados Unidos crêem ter abortado uma iniciativa pacificadora que se desenvolvia, portanto, em sentido contrário à estratégia de guerra sem fim; e activaram um clima de desestabilização que abrange simultaneamente o Iraque e o Irão e se junta ao ambiente de guerra latente que permanece na Síria.

As «intromissões» da China

O que se passa no Iraque é um golpe contra o governo, dado pela potência ocupante de modo a poder contar novamente com um executivo absolutamente dócil, que revogue o acordo com a China e assegure a pretendida metade das receitas petrolíferas para o Tesouro de Washington. Aliás, Trump já definiu muito bem as cartas do jogo depois da decisão do Parlamento de Bagdade ordenando a saída das tropas de ocupação: ou os militares norte-americanos permanecem ou os Estados Unidos bloqueiam a conta do Ministério iraquiano do Petróleo na Reserva Federal de Nova York, através da qual Bagdade movimenta quase todo o seu comércio petrolífero. Não há dúvidas, portanto, que é de petróleo que se trata.
É de mudança de governo – e de regime – a trama desenvolvida por Washington contra o Irão. As sanções que asfixiam o povo e a economia do país, a aposta cada vez menos velada nas divisões entre o presidente Rouhani e a chefia religiosa de Ali Khamenei e a instabilidade nas ruas, tudo sob um clima de ameaça militar permanente, têm como fim último o regresso de Teerão à esfera de Washington. Iraque e Irão são os dois maiores exportadores de petróleo mundiais a seguir à Arábia Saudita.
A administração Trump, como as anteriores, exige um governo de confiança no Iraque para poder continuar a usar o país como base da agressão ao Irão, além de preservar a hostilidade entre Riade e a Teerão. O assassínio do general Soleimani serviu estes objectivos.
Um Médio Oriente em pé de guerra é uma alternativa cultivada para afectar regimes e governos que não sejam submissos a Washington ou que tenham a ousadia de negociar hidrocarbonetos em outras moedas que não seja o dólar, como está a acontecer entre a China e o Irão, com a agravante de o fazerem contrariando as sanções impostas unilateralmente pelos Estados Unidos.
Neste momento, em relação ao Médio Oriente, pode constatar-se que a China tem em curso investimentos de um milhão de milhões de dólares no Irão, acaba de assinar um acordo de reconstrução com o Iraque e importa da Arábia Saudita a maior parte dos hidrocarbonetos que consome; e a Rússia é uma potência determinante na Síria.
Dizem-nos a história e a experiência que a diplomacia não é o forte dos Estados Unidos e que o método de negociações mutuamente vantajosas é absolutamente desconhecido em Washington. Não surpreende, pois, que a generalização da guerra seja a opção tomada pela administração Trump para proteger os interesses do império, no quadro da acarinhada teoria do «caos criativo».
O cenário dos últimos tempos nesta região, um concentrado dos interesses que comandam a globalização neoliberal, é o exemplo mais flagrante da agudização da guerra civil que se trava no sistema capitalista.

Fonte: https://www.abrilabril.pt/internacional/o-petroleo-o-medio-oriente-e-guerra-civil-imperialista

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