O povo resiste na Guiné-Bissau*

Carlos Lopes Pereira    26.Dic.13    Colaboradores

Carlos Lopes PereiraDesde o golpe que derrubou o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, líder do PAIGC e vencedor da primeira volta das eleições presidenciais, as forças armadas da Guiné-Bissau e os seus chefes impuseram um presidente da República de «transição» e um governo de fachada, financiado pela Cedeao. A cúpula militar guineense é acusada de saquear os cofres do depauperado Estado, de estar envolvida em toda a espécie de negociatas e de relacionar-se com traficantes de droga, de armas e, ultimamente, de redes de imigração ilegal. Mas o povo resiste, como demonstra a Greve-Geral de cinco dias que decorreu na passada semana.

Na Guiné-Bissau, os trabalhadores do sector público cumprem ao longo desta semana uma greve geral de cinco dias. Os grevistas, com amplo apoio popular, reivindicam o pagamento de salários em atraso há três meses.

As duas centrais sindicais, a UNTG e a CGSI, responsáveis pelo movimento, falam em mais de 90 por cento de adesão à paralisação. Os sindicalistas acusam o governo de transição de «falta de diálogo» e consideram que a greve é uma «resposta» ao «sofrimento dos trabalhadores».

Este é um exemplo de que, no pequeno país Oeste-africano, considerado por alguns observadores um «narco-Estado» ou um «Estado falhado», o povo trabalhador continua, apesar das dificuldades do presente, a resistir à ditadura corrupta instaurada pelo golpe militar de 12 de Abril de 2012.
Ditadura, aliás, que merece o apoio da comunidade económica dos Estados da África Ocidental, a Cedeao, em que pontificam a Nigéria – que procura travar a influência de Angola na sub-região – e países como o Senegal, a Costa do Marfim e o Burkina Faso, tidos como pontas de lança dos interesses neocoloniais franceses.

Desde o golpe que derrubou o primeiro-ministro Carlos Gomes Júnior, líder do PAIGC e vencedor da primeira volta das eleições presidenciais, processo então interrompido, as forças armadas e os seus chefes, o mais notório dos quais o general António Indjai, impuseram um presidente da República de «transição» e um governo de fachada, financiado pela Cedeao.

A cúpula militar guineense é acusada de saquear os cofres do depauperado Estado, de estar envolvida em toda a espécie de negociatas e de relacionar-se com traficantes de droga, de armas e, ultimamente, de redes de imigração ilegal.

Foi neste quadro que se registou o recente episódio de um avião da TAP que, numa escala em Bissau, foi alegadamente forçado pelas autoridades locais a embarcar para Lisboa 74 passageiros sírios com passaportes falsos. Os refugiados, de origem curda, terão voado da Turquia para a Guiné-Bissau, passando por Casablanca, e entregado elevadas quantias a intermediários para viajar para Portugal e entrarem na «fortaleza» de Schengen.

O incidente provocou o pedido de demissão do ministro guineense dos negócios estrangeiros, o que é visto em Bissau como mais um sinal de desagregação do governo golpista, com o qual já raros aceitam ser conotados.

O próprio general Indjai é acusado pela Justiça dos Estados Unidos de ser um dos cabecilhas dos traficantes de droga que utilizam a Guiné-Bissau como plataforma entre a América do Sul e a Europa. Um seu comparsa, o almirante Bubo Na Tchuto, então chefe da marinha de guerra guineense, foi há meses capturado numa operação no Atlântico envolvendo agentes norte-americanos e encontra-se preso em Nova Iorque a aguardar julgamento.

No plano político, sob a égide das «comunidade internacional», foram marcadas – após vários adiamentos – eleições presidenciais e legislativas para 16 de Março de 2014 e decorre actualmente o recenseamento eleitoral.

O representante da ONU na Guiné-Bissau, José Ramos-Horta, reconhece que a situação de segurança se degradou nos últimos meses e que a situação social e humanitária é grave. Mas garante que a data das eleições «é imutável e inadiável» e que é uma «última oportunidade» do país para aceitar a ajuda da «comunidade internacional».

O Nobel da Paz e antigo presidente de Timor – criticado por sectores democráticos guineenses pela proximidade que mantém com líderes golpistas – acredita que é possível, com as eleições do próximo ano, conseguir, pacificamente, «o retorno à ordem constitucional». E preconiza que, depois, as novas autoridades deveriam proceder à «reforma radical» das forças armadas e da administração pública, processo que duraria pelo menos cinco anos.

Para as presidenciais de 2014 – se chegarem a realizar-se –, perfilam-se dois candidatos principais. De um lado, Kumba Ialá, arvorado em «chefe» dos balantas (etnia de um terço da população) e tido como o mentor civil dos golpistas. Do outro lado, «Cadogo» Júnior, agora no exílio em Portugal, figura apoiada pelo PAIGC, hoje dividido em várias facções e que está muito distante do partido de Amílcar Cabral que dirigiu uma brilhante luta armada de libertação nacional.

Na Guiné-Bissau, poucos acreditam que eleições em tais moldes ponham fim às sucessivas crises que afundam o país desde 1980, quando Nino Vieira estreou a senda dos golpes. E há cada vez mais sectores a preconizar uma intervenção prolongada das Nações Unidas, a exemplo da que foi levada a cabo em Timor, como única via, a par da resistência popular, capaz de evitar o abismo.

*Este artigo foi publicado no “Avante!” nº 2090, 19.12.2012

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