O Pravda entrevista Egon Krentz, último líder da RDA

Pravda    06.Dic.18    Outros autores

O dirigente comunista alemão fala ao Pravda sobre a actual situação na RFA, e em particular sobre o papel crescente que o seu território e as suas forças armadas desempenham na NATO. Homem de convicções inabaláveis, participa empenhadamente na mobilização da juventude alemã pela saída dessa organização militar agressiva, e por um estatuto de não-alinhado para o seu país.

Egon Krenz foi o último líder da história da RDA. Após a anexação da Alemanha socialista por parte da RFA iniciaram-se as perseguições. Sob estreita vigilância da polícia desde o início dos anos 90, esteve preso entre 1997 e 2001, acusado de “actividade anti-estatal” no período que antecedeu a queda do muro de Berlim. Ao contrário de muitos ex-” camaradas de partido”, Egon Krentz permaneceu fiel às suas convicções comunistas e partilha agora, apaixonadamente, a sua experiência de dirigente e combatente com os membros da mais jovem geração de comunistas alemães, em estreita colaboração com o corajoso e permanentemente discriminado Partido Comunista Alemão (DKP).

Eis a entrevista que concedeu ao “Pravda”, órgão do Partido Comunista da Federação Russa

- Como foi possível, apesar de todos os golpes do destino nos finais dos anos 80 e início dos anos 90, permanecer um inflexível combatente, mesmo com a já respeitável idade que tem?

Assisti, ainda na infância, à agonia do fascismo alemão, seguida pelo seu total colapso. Após do final da segunda guerra mundial, a nossa família vivia no território em que a RDA viria a formar-se poucos anos depois. Na minha juventude, cheguei à conclusão de que apenas uma via era possível para a Alemanha: a desmilitarização, a construção de uma nova sociedade socialista, o viver em paz e a boa vizinhança com outros países. Com a idade de 18 anos tornei-me membro do SED. Permaneci até hoje fiel `s convicções da minha juventude, e a correcção da minha posição tem vindo a ser repetidamente confirmada e continua a ser confirmada pela própria vida.

Estou inteiramente certo de que a verdadeira essência de cada um é representada pelas suas convicções. E se permanece fiel às convicções há muito consolidadas e não oscila de um lado para o outro em resultado das situações ou das diversas circunstâncias pessoais, podemos então tranquilamente dizer que essa pessoa não viveu em vão.

A esse propósito, a pergunta é: quantas vezes teve ocasião de discutir com opositores políticos o tema relativo à questão de onde era melhor a vida – na RDA ou na RFA?

Essa questão coloca-se mesmo hoje, embora estando passados quase 30 anos desde que a RDA deixou efectivamente de existir. Procuro sempre responder a uma pergunta desse tipo na base da minha convicção principal relativa a esta matéria: é errado imaginar a RDA pior do que aquilo que tenha sido, e a RFA melhor do que aquilo que é.

Se avalias esta pergunta do ponto de vista histórico e político, deves registar que desde o momento da sua formação como estado único, a Alemanha prosseguiu sempre uma política agressiva nos confrontos com os seus vizinhos. Não será suficiente recordar que a Alemanha teve um papel central no desencadeamento de ambas as guerras mundiais, e que em alguns conflitos regionais, mesmo distantes do seu território, participaram forças armadas alemãs? São muitas ao longo da história alemão, mas resultaram estas guerras, no final, em benefício para o povo alemão? Não, sucedeu exactamente o contrário.

No que diz respeito à RDA, constituiu a única excepção à dita “regra” da política alemã. Em todos os 40 anos de existência desta república, o território da RDA nunca representou uma ameaça para outros países, representou um estado pacífico que construiu o socialismo. Apesar da vizinhança próxima da NATO, o exército popular nacional da RDA nunca esteve em estado de alerta e as suas unidades nunca saíram do país para participar em guerras a nível regional ou inter-regional. A RDA apenas esteve envolvida em exercícios militares em conjunto com os estados do Pacto de Varsóvia, união dos países democráticos da Europa guiada pela URSS.

Durante o mesmo período a RFA torna-se o principal bastião da NATO na Europa. As bases militares norte-americanas encontram-se ainda no seu território e, a julgar pelas mais recentes intenções do presidente dos Estados Unidos Donald Trump, o seu contingente aumentará por causa da presumível ameaça da Rússia. Nas condições actuais isso parece absolutamente ridículo.

Pode descrever em termos gerais esta situação?

A situação é compreensível para qualquer pessoa imparcial. Quando se encontravam tropas soviéticas no território da RDA, em conformidade com o acordo de Potsdam, o mundo ocidental inteiro clamava continuamente que se tratava de “ocupação.” Ao mesmo tempo, e por diversas razões, achava-se natural que contingentes americanos, ingleses e franceses estivessem colocados no território da República Federal Alemã. Agora, contudo, não apenas os americanos permanecem na República Federal Alemã como o fazem em maior número do que nos anos do pós-guerra. Enquanto as tropas soviéticas presentes na ex.RDA, que se tornou parte da República Federal Alemã, foram retiradas rápida e completamente. Assim, se quisermos falar de “ocupação”. É esta a ocupação americana da República Federal Alemã. Mas, ao contrário da situação com as tropas soviéticas na RDA, esta situação é no Ocidente considerada normal e natural. Para além disso, as actuais autoridades da República Federal Alemão não manifestam particular resistência às exigências dos Estados Unidos relativamente ao aumento das contribuições para o orçamento e as despesas militares da NATO no seu conjunto, partilhando a opinião de que “devemos falar com Moscovo na base de uma posição de força,” não se opõem à participação da Bundeswehr em vários exercícios e manobras da NATO fora da Alemanha.

De igual modo, os soldados alemães foram recentemente envolvidos de modo crescente na composição das unidades da NATO estacionadas na proximidade das fronteiras da Rússia. Por exemplo, contingentes da Bundeswehr estão já em território dos países bálticos. E isto apesar do facto de em 1990 os dirigentes da NATO terem garantido solenemente à URSS que, depois da unificação alemã, o bloco não iria expandir-se para leste, em direcção `s fronteiras soviéticas. Portanto, de onde provém a verdadeira ameaça – da Rússia ou da NATO?

A sua intervenção no comício anti-NATO no decurso do festival de Dortmund foi não apenas emocionante como também muito combativa.

Devemos apresentar às pessoas uma imagem real do que é hoje a NATO. É uma organização militar agressiva na qual a Alemanha desempenha um papel importante. Devemos explicar às pessoas do nosso país e de fora que a NATO é um mal que deve ser combatido, e que o dever dos alemães é de intensificar a luta pela saída do seu país deste bloco. Reparaste em quantos jovens estavam na manifestação? São eles quem antes de tudo devem conhecer a verdade.

O estatuto de país não-alinhado seria vantajoso para a Alemanha em todos os aspectos: militar, político, económico. A iniciativa de massas “Desarmemos a corrida aos armamentos” que os comunistas e todas as forças de esquerda da República Federal Alemã iniciaram este ano e que prosseguirá por muito tempo tem este objectivo. Só com este apelo dirigido às autoridades federais alemãs os comunistas recolheram já quase 35 mil assinaturas. A campanha continuará e estou certo que não passará desapercebida ao governo.

Fonte: http://www.marx21.it/index.php/comunisti-oggi/in-europa/29420-la-pravda-intervista-egon-krenz-ultimo-leader-della-rdt

Gostaste do que leste?

Divulga o endereço deste texto e o de odiario.info entre os teus amigos e conhecidos