O Referendo venezuelano*

Humberto Rojas    11.Dic.07    Outros autores

Hugo Chavéz“Há que continuar a construir as nossas estruturas organizativas e participativas desde e com a população: nos bairros, nas fábricas, no campo, nos espaços públicos, incluindo os ministérios, alcaidarias, etc. A discussão que temos de realizar é ideológica: há dois projectos de país, o neoliberal e o socialista e este último constrói-se desde e com as pessoas. Resolver este paradoxo é resolver as tarefas que há que resolver a curto, a médio e a longo prazo. A luta continua.

Tratarei de fazer uma reflexão dos factores que, do meu ponto de vista, afectaram o sucedido na votação do dia 2 de Dezembro, que tem as suas raízes no passado e terá, indubitavelmente, consequências no futuro.

Antes de mais quero referir que o número de eleitores venezuelanos é de pouco mais de 16.000.000 milhões de eleitores. Segundo os dados disponibilizados pelo Conselho Nacional Eleitoral (CNE) o NÃO obteve 4.504.354 (50,70%) votos e o SIM obteve 4.379.382 (49,29%) dos votos escrutinados. Abstiveram-se cerca 7.200.000 eleitores, o que representa em termos absolutos 45% do total de votantes., pelo que o NÃO alcançou 28% e o SIM conseguiu 27% deste universo. Comparando estes resultados com as presidenciais de Dezembro de 2006 a oposição aumentou ligeiramente a sua votação, em contrapartida os bolivarianos diminuiram o seu tecto em quase 3 milhões de votos. Este é um facto objectivo e concreto que não se pode obvia nem maquiar. Poderíamos inferir que ambas as tendências se mantiveram no patamar dos seus votos duros, mas no caso do chavismo, a sua periferia, próximos e simpatizantes diminuiu dramaticamente (a abstenção foi superior nos sectores populares que nas urbanizações da classe média). Porquê essa minguada votação pela população que vinha a apoiar Chávez de forma sustentada? Talvez Hugo Chávez tenha sobrestimado o seu triunfo de Dezembro do ano passado, sobrestimou a sua capacidade e vontade de realização, excesso de confiança, enfim, jogou o seu activo político e imprimiu maior votação às mudanças (a nova geometria do poder, o PSUV, as leis habilitantes, as linhas de desenvolvimento socialista 2008-20013, a política internacional, os conselhos comunitários, a reforma constitucional), tudo num ano em simultâneo. Talvez o povo não tenha a maturidade política suficiente para assimilar as ofertas. Talvez, como tudo foi apresentado para ser admitido por esse mesmo povo (o poder constituinte) cujas iniciativas, opiniões, sentimentos, esperanças e protagonismo (13 de Abril, na greve económica, na greve petrolífera, no Referendo Presidencial) foram paulatinamente deslocados ou afectados pela burocracia (o poder constituído metamorfoseado em novos interesses com os enquistados interesses tradicionais), sem que pudesse ter sido assimilado, digeridas as implicações das propostas ou canalizadas as diferentes inquietações que iam surgindo; se a tudo isto acrescentarmos as omissões e dissidências de sectores oportunistas disfarçados de revolucionários, mais preocupado com as prebendas dos seus cargos que o trabalho nas diferentes esferas do processo e que, praticamente, se penduraram no “motor” Chávez…, então estaremos a aproximarmo-nos da verdade.

Vejamos o exemplo do PSUV: inscreveram-se quase seis milhões de “aspirantes”, a maioria não formada politica e ideologicamente, o que revela uma concepção clientelar do partido, com a agravante da ausência de uma estrutura de formação adicionalmente ter desenvolvido um desgaste evidente no processo de escolha dos porta-vozes e porta-vozes suplentes, que deixou muitos dirigentes pelo caminho e, por isso, desgostosos, descontentes e ressentidos. Estes milhares de dirigentes populares são os que mobilizam ou têm identificação com as bases populares chavistas, simplesmente porque provêm ou são daí. E se acrescentamos o deficiente funcionamento dos serviços públicos, das missões por culpa de arrivistas e com o ofício de aproveitadores…Governadores, alcaides, deputados que não visitam as suas comunidades a não em circunstâncias especiais, a escassez e os problemas de abastecimento, o problema da segurança… os trâmites sem fim para legalizar um conselho comunitário ou para apresentar um projecto apresentado pela comunidade, tudo vai debilitando a gestão dos dirigentes populares e minando o único que eles têm: a sua reputação junto da população. Com isto podemos começar a compreender o que sucedeu e por que muitos se abstiveram. Esta leitura que faço, em todo o caso, reafirma a máxima: a revolução faz-se desde a base ou não haverá revolução.

Agora cabe-nos desenvolver um grande debate, claro, crítico, participativo… revermo-nos, ter a modéstia de admitir que temos muito a aprender. O que aconteceu é uma dura lição para o movimento revolucionário, mas não há muito tempo para lamber as feridas. Há que para? Ou há que continuar a construir as nossas estruturas organizativas e participativas desde e com a população: nos bairros, nas fábricas, no campo, nos espaços públicos, incluindo os ministérios, alcaidarias, etc. A discussão que temos de realizar é ideológica: há dois projectos de país, o neoliberal e o socialista e este último constrói-se desde e com as pessoas. Resolver este paradoxo é resolver as tarefas que há que resolver a curto, a médio e a longo prazo. A luta continua.

* Título da responsabilidade de odiario.info

Tradução de José Paulo Gascão

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