O regresso de Zelaya e o futuro da Resistência hondurenha

Carlos Aznárez    30.May.11    Colaboradores

ZelayaManuel Zelaya regressou a Honduras e todos os lutadores do Terceiro Mundo deverão festejar este regresso. Muito mais do que através de acordos diplomáticos, esta luta foi ganha nas ruas.

Regressou Mel Zelaya e o povo hondurenho explodiu de alegrai e entusiasmo. Aquela mesma gente que ao longo de dois anos gerou a maior Resistência de que há memória na América Central. Milhares e milhares de homens, mulheres e crianças nas ruas, enfrentando os militares e a polícia, expondo o corpo às balas e deixando nessa dura batalha dezenas de mortos. Desta vez, vindos de toda a parte do país, chegaram a Tegucigalpa para se reencontrarem com o seu líder.
Regressou Mel Zelaya e Honduras tingiu-se do vermelho da bandeira da Frente Nacional de Resistência Popular e do azul da bandeira nacional, enquanto as palavras de ordem de “Sim, foi possível” e “Fora com o imperialismo” se misturavam com as vaias ao governo de Porfírio Lobo, enquanto entoavam esse hino universal de todos os que lutam em algum lugar deste mundo: “O Povo unido jamais será vencido”.
Regressou Mel Zelaya e ratificou publicamente o “Acordo de Reconciliação” assinado em Cartagena de Indias (Colômbia), que inclui no seu articulado a investigação das violações dos direitos humanos (direitos que continuam a ser diariamente espezinhados pelo governo de Lobo), tal como a possibilidade da realização de um plebiscito com vista à convocação da tão almejada Assembleia Constituinte pela qual tantas vezes o povo saiu à rua no decurso destes dois anos.
Há neste Acordo, todavia, algo em aberto que gera naturais desconfianças, que faz com que milhares de militantes da Resistência devam permanecer alerta daqui em diante, e que tem a ver com o facto de que aqueles que realizaram um golpe de Estado pro-ianque como o de Honduras se mantêm no governo e, mesmo que tenham permitido o regresso de Zelaya, dificilmente cederão em relação àquilo que vêm usurpando. Para além disso, um dos mediadores deste Acordo é nada menos do que um genocida do povo colombiano, o presidente Santos, o mesmo que possibilitou que os ianques instalassem nove bases militares no seu país com o fim de ameaçar os países do continente que não alinham com os EUA.
Outro ponto de discórdia é a quase certa entrada de Honduras na OEA, a concretizar no decurso da próxima semana. Por muito que queira conformar-se o discurso ao “politicamente correcto”, ninguém ignora que Porfírio Lobo representa a continuidade da ditadura instaurada em 2009. Se dúvidas houver, bastará ouvir a opinião dos professores espancados, torturados e assassinados, ou a dos jornalistas que, um a um, vão sendo baleados pelo paramilitarismo. Pior ainda, que ouçam a opinião dos camponeses de Aguán, que até ontem mesmo continuam a sofrer a morte de dezenas dos seus militantes. Contra eles investem, mês após mês, os guardas armados do empresário Miguel Facussé (esteio financeiro dos golpistas), gerando verdadeiros massacres que, naturalmente, continuam impunes.
Não, a Honduras de Lobo não deveria regressar à OEA, e nesse sentido são muito claros os dirigentes da Resistência Berta Cáceres, Carlos Reyes ou Juan Barahona, sublinhando que tal constituirá um erro injustificável enquanto não forem satisfeitas as exigências populares, que não se limitam de modo nenhum ao regresso de Zelaya.
Regressou Mel Zelaya e abraçou-se ao seu povo, que manifestou o carinho que lhe dedica por ter sido o primeiro presidente a pensar nos mais humildes e que, embora sendo proveniente de um passado político centro-direitista, no quadro do governo a que acedeu pelo voto popular foi virando à esquerda e gerou propostas amplamente progressistas, num país que há décadas não passava de um enclave estratégico de Washington.
Regressou Mel Zelaya e prometeu aprofundar o avanço da Resistência a que ele próprio preside. Frente à multidão, apresentou um a um os membros da delegação internacional que o acompanhou desde a Nicarágua, reivindicando a solidariedade latino americana que sempre o acompanhou no decurso do seu exílio. Valorizou profundamente o papel do Brasil, do Equador, da Argentina e, naturalmente, da Venezuela de Hugo Chávez.
As palavras de uma outra acompanhante de Zelaya, a combativa senadora Piedad Córdoba, merecem um parágrafo à parte. Quando Mel lhe entregou o microfone, elogiou Honduras e a Resistência e, num gesto incompreensível, deu vivas ao genocida colombiano Juan Manuel Santos, convidando os presentes a agradecer a sua mediação. Não teve sucesso: aquele povo sábio que, quando minutos antes Zelaya mencionara esse personagem silenciou quaisquer aplausos e lançou várias vaias repetiu a mesma digna atitude. Há dirigentes progressistas que deveriam ter mais em conta que a consciência dos de baixo não se constrói perante tão bruscas mudanças de rumo, que apenas servem para semear a desorientação.
Regressou Manuel Zelaya. Sim, e todos os lutadores do Terceiro Mundo deverão festejar este regresso já que, muito mais do que através de acordos diplomáticos, esta luta foi ganha nas ruas. Se a Resistência não tivesse mantido a pressão ao longo de todos estes meses, e se a solidariedade popular internacionalista não a tivesse acompanhado, este regresso seria difícil de imaginar.
Agora, de novo e como sempre, mas com Zelaya no território, a batalha contra os que o expulsaram há dois anos irá agudizar-se. Imaginar um cenário diferente é desconhecer a natureza do inimigo que está pela frente. No tempo que aí vem, a melhor autodefesa popular reside na mobilização. É isso que compreendem claramente os que integram o COPINH (Conselho de Organizações Populares e Indígenas de Honduras), uma das organizações que há décadas participa na luta:
“Não descansaremos até que sejam desmanteladas as estruturas golpistas que hoje ocupam o poder, abrigados pela impunidade nacional e internacional. Contra eles continuaremos a levantar a nossa luta, porque somos um povo digno que não está disposto a retroceder. Não esquecemos, não perdoamos, não nos reconciliamos”.

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